Contagem decrescente para uma guerra civil

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Mensagem por TheNightTrain em Dom Nov 22, 2009 3:49 pm

Contagem decrescente para uma guerra civil



Foram
20 dias alucinantes. O Governo mandou bombardear a Rádio Renascença. Os
trabalhadores da construção civil sequestraram o Governo e a
Assembleia. O Governo entrou em greve. Os líderes do PS, PSD e CDS
fugiram para o Porto, porque ia ser criada a Comuna de Lisboa
independente. Os pára-quedistas ocuparam as bases da Força Aérea. A
guerra civil ia começar. A reconstituição hoje possível do 25 de
Novembro de 1975, a partir de entrevistas com os principais
intervenientes e dos livros que, para deixarem o seu testemunho para a
História, alguns deles têm publicado. Por Paulo Moura





Os pára-quedistas que tinham ocupado as bases renderam-se. O golpe tinha acabado. A fase louca da revolução tambémRamalho Eanes (que foi eleito Presidente meses depois do 25 de Novembro) e Otelo Saraiva de Carvalho em 2000 Vasco Lourenço sempre recusou a debandada das forças para o NorteQuinta-feira,
6 de Novembro de 1975. À hora de jantar, o Conselho da Revolução
interrompeu os trabalhos. Deveria ser um breve intervalo, naquela
reunião conjunta com o Governo de coligação, mas prolongou-se, para
conselheiros e ministros verem o debate na RTP entre Mário Soares e
Álvaro Cunhal.No ecrã a preto e branco, o jornalista envolto em
fumo de cigarro anunciou os líderes dos partidos Socialista e
Comunista. "O sr. dr. teima em querer fazer a revolução com uma
minoria", diz Soares, com um risinho. Cunhal responde rápido: "Não. O
que eu quero é fazer a revolução com revolucionários."A reunião
do Conselho da Revolução fora pedida pelo executivo. O
primeiro-ministro, Pinheiro de Azevedo, cujo cognome era o "Almirante
sem Medo", exigia medidas para que o deixassem governar. Os militares
não lhe obedeciam, os sindicatos e os comunistas organizavam
manifestações de protesto todos os dias, os media divulgavam
propaganda radical e apelavam à sublevação, principalmente a Rádio
Renascença, que, em Outubro, fora ocupada pelos trabalhadores e se
transformara em porta-voz da esquerda revolucionária. Era preciso fazer
qualquer coisa. Pinheiro de Azevedo e alguns dos conselheiros
falaram sobre isto durante o intervalo, que se prolongou demasiado
devido ao grande interesse do debate da RTP, dando azo a que fosse
tomada, um pouco à socapa, aquela decisão, antes de todos voltarem à
sala. A decisão terrorista."O Partido Comunista tem um pé no
Governo e todo o corpo, e o outro pé, de fora, fazendo mobilização no
país, para derrubar o Governo", diz Soares na televisão. "Isto leva em
linha recta o país para a confrontação armada e uma guerra civil."
Cunhal vai contrariando: "Nós também queremos evitar a guerra civil.
Mas não se fale da disciplina da direita reaccionária..."Soares
continua: "O que o Partido Comunista deu provas, durante estes meses, é
que quer transformar este país numa ditadura." E Cunhal: "Olhe que não,
olhe que não."Conselheiros da Revolução e ministros voltaram
para a sala de reuniões, no Palácio de Belém. Prosseguiram os discursos
e as queixas, até que o Conselho disse que sim a todas as sugestões do
sarcástico primeiro-ministro. Uma delas, já combinada no intervalo, era
a decisão terrorista de Estado e dizia respeito à Rádio Renascença. Às
4h30 da manhã do dia 7, sexta-feira, pouco depois de a reunião ter
terminado, uma bomba era lançada, na Buraca, sobre os emissores da
rádio rebelde, calando-a de vez. A ordem foi dada pelo Governo, com
aval do Conselho da Revolução e através do chefe do Estado-Maior da
Força Aérea, general Morais e Silva, e quem a executou foram forças
pára-quedistas da Companhia de Caçadores 121, aquartelada no Lumiar.Ora
entre os "páras" o predomínio dos esquerdistas era cada vez maior.
Activistas do PCP e dos partidos maoístas faziam agitação e propaganda
junto dos efectivos das unidades especiais e altamente disciplinadas de
pára-quedistas, fazendo-os sentir um peso na consciência por terem
bombardeado a Renascença. Sábado, 8 de Novembro. Apercebendo-se
do mal-estar entre os "páras", Morais e Silva, acompanhado pelo capitão
de Abril Vasco Lourenço, foi à Base Escola de Tropas Pára-Quedistas, em
Tancos, explicar a acção contra a "rádio vermelha". Uma sessão de
esclarecimento foi convocada para o pavilhão gimnodesportivo da base. O
general começou a falar, ao lado de um embaraçado Vasco Lourenço (que
sempre achou injustificável a operação Renascença), mas foi
interrompido por um soldado, que lhe roubou o microfone para dizer:
"Camaradas, vamos todos sair daqui. O meu general é um burguês, que já
fez a sua opção de classe e não pode defender os nossos interesses.
Portanto, não temos nada que estar aqui a ouvi-lo." E abandona o
pavilhão com a maioria dos soldados, para se irem juntar a uma reunião
paralela, com os sargentos da base.Humilhado, Morais e Silva
ficou sem resposta, e acabou também por sair do recinto. Os oficiais
presentes continuaram a reunião, decidindo que, por não haver
disciplina possível, iriam apresentar-se no Estado-Maior da Força
Aérea, para pedir a passagem aos seus quadros de origem. Nesse mesmo
dia, 123 oficiais abandonaram a base de Tancos, deixando-a entregue a
sargentos e praças, e instalam-se na base aérea de Cortegaça, perto de
Espinho, com a ajuda e apoio do chefe da Região Militar do Norte, Pires
Veloso. Morais e Silva, esse, jurou vingar-se.Domingo, 9 de Novembro. Uma
gigantesca manifestação de apoio ao VI Governo Provisório foi convocada
para o Terreiro do Paço pelo PS e o PSD. Pinheiro de Azevedo, com Mário
Soares e Sá Carneiro, ficou numa das janelas da sala do Estado-Maior da
Armada. Mas mal o primeiro-ministro começou a discursar, denunciando o
golpismo do Partido Comunista, rebentou uma granada de fumo no meio da
multidão. Gerou-se o pânico, correrias, gritos, uns tentando abandonar
a praça, outros deixando-se atropelar, outros tentando encontrar e
castigar os culpados. Pouco depois, começou a ouvir-se um tiroteio
vindo dos arcos da praça. A Polícia Militar tentava dispersar a tiro os
desordeiros, provocando o pandemónio. Da janela, Pinheiro de Azevedo
gritava: "O povo é sereno! O povo é sereno! É apenas fumaça! É apenas
fumaça! O povo é sereno!"Segunda-feira, 10 de Novembro. Na
base de Tancos realizou-se um plenário em que foi aprovada uma moção de
repúdio pela operação contra a Renascença. Os sargentos assumiram a
autoridade, reinstalaram a disciplina e treinos com intensidade
redobrada, armaram uma companhia especial para garantir a defesa da
base.Terça-feira, 11 de Novembro. Dois sargentos
pára-quedistas deslocaram-se ao Forte do Alto do Duque, onde se situava
o quartel-general do Copcon (Comando Operacional do Continente).
Pediram para falar com o chefe, Otelo Saraiva de Carvalho. "Meu
general, vimos aqui oferecer-lhe 20 mil tiros por minuto", disse um dos
sargentos. Colocavam-se à disposição e sob o comando de Otelo, em troca
do seu apoio à luta dos "páras".Quarta-feira, 12 de Novembro. Otelo
manifestou publicamente o seu apoio aos pára-quedistas. Morais e Silva
começara a executar a sua vingança. Numa série de ordens confusas, ia
mandando passar à disponibilidade os praças pára-quedistas. Na prática,
extinguiu os pára-quedistas.Para explicar a sua posição, Otelo
promoveu uma reunião entre Morais e Silva e o Presidente da República,
Costa Gomes. "Meu general, eu quero dizer-lhe claramente que não posso
apoiar esta decisão unilateral do Morais e Silva", disse Otelo. "Temos
uma força pára-quedista de centenas de homens perfeitamente
disciplinados, uma força excelente para o combate, que pode actuar em
qualquer situação, e agora, por despacho, este gajo elimina a força de
pára-quedistas?""Mas eles não me respeitam", defendeu-se Morais e Silva."Não
te respeitam, porque tu participaste em ordens que não têm pés nem
cabeça", atacou Otelo. "Destruir à bomba os emissores da Rádio
Renascença, só porque ela estava ocupada pelos trabalhadores? Não havia
outra forma de resolver o problema?"A delegação dos
pára-quedistas que visitou o Copcon informou ainda Otelo que os
oficiais baseados em Cortegaça estavam a enviar aviões para sobrevoarem
ameaçadoramente a base de Tancos. "Estão a fazer voos a pique sobre
nós", disse um dos sargentos. "E, se houver alguma atitude ameaçadora,
nós queremos rebentar com o avião."Otelo enviou então, como medida dissuasora, metralhadoras antiaéreas para os páras em autogestão.No
mesmo dia, às 5 da tarde, uma manifestação de trabalhadores da
construção civil cercou o Palácio de S. Bento, onde o Governo se
encontrava reunido, para apresentar ao primeiro-ministro o seu caderno
reivindicativo. Em frente do portão da residência do primeiro-ministro,
os trabalhadores colocaram uma enorme betoneira, obstruindo a saída.
Ninguém poderia abandonar o palácio antes de terem sido atendidas as
reivindicações, explicaram os delegados sindicais.No interior,
permanecia o Governo inteiro, mas também os deputados da Assembleia
Constituinte, que estava reunida, o público que assistia à sessão e os
funcionários do palácio. Uma delegação dos manifestantes foi falar com
Pinheiro de Azevedo, que declarou não tencionar ler sequer o documento
das reivindicações, enquanto se mantivesse aquela situação de pressão.
Em resposta, representantes dos trabalhadores entraram no salão nobre e
na varanda, onde instalaram um sistema sonoro e de onde iniciaram um
comício permanente. Não iriam "arredar pé", enquanto os seus problemas
não fossem resolvidos, gritaram aos altifalantes. E com isso assumiram
o sequestro do Governo e dos deputados, que duraria 36 horas, sem que
as forças de segurança, comandadas pelo Copcon de Otelo, fizessem coisa
alguma.Vendo a situação entrar num impasse, com os trabalhadores
a estenderem mantas e acenderem fogueiras para dormir e ficar ali por
tempo indeterminado, Pinheiro de Azevedo veio à varanda apelar à
dispersão, sob a promessa de estudar o caderno reivindicativo. Mas os
manifestantes não o queriam ouvir, e gritavam e insultavam mal o
primeiro-ministro abria a boca. "Fascista!", chamavam eles, e o
"Almirante sem Medo" perdeu a paciência: "Fascista uma caca!" Ou na
versão de outras testemunhas: "Vão todos bardamerda!"Só na manhã
de quinta-feira, dia 13 de Novembro, os manifestantes permitiram a
saída dos deputados, funcionários e elementos do público assistente à
sessão da Constituinte. Os ministros continuaram sequestrados até que
Pinheiro de Azevedo acabou por assinar um "compromisso" em que aceitava
certas reivindicações.Sexta-feira, 14 de Novembro. Os
líderes do PS, PPD e CDS fugiram para o Porto, onde participaram numa
manifestação de apoio ao Governo, que acabaria com o assalto à sede da
União dos Sindicatos. O país estava a dividir-se em dois. A região de
Lisboa estava dominada pelas forças comunistas, e cada vez se tornava
mais claro, para muita gente, que para as combater seria necessário
fazê-lo a partir do Norte, onde os moderados e a direita detinham a
supremacia, entre a população e nos quartéis. As forças democráticas
tomariam posições na zona do Porto e os comunistas declarariam a Comuna
de Lisboa. O país seria dividido em dois e seguir-se-ia a guerra civil.Não
chegou a haver consenso sobre esta solução, mas os líderes dos partidos
democráticos, pelo sim pelo não, fugiram para o Porto com as
respectivas famílias.Foi Vasco Lourenço quem sempre recusou esta
debandada das forças. A certa altura, numa reunião do Grupo dos Nove, o
próprio Melo Antunes, que era o autor do documento, assinado por nove
membros do Conselho da Revolução, que marcava posição contra o avanço
do totalitarismo esquerdista na vida militar e civil do país, já estava
a defender a retirada para o Porto. "Pronto, convenceram-me. Eu
aceito", disse Melo Antunes. Mas decidiu impor uma última condição:
"Desde que o Vasco Lourenço também aceite.""Não. Eu não aceito.
Isso seria a guerra civil", disse Vasco Lourenço. "Vamo-nos preparar
para reagir a qualquer tentativa que haja, e vamos manter o Costa Gomes
do nosso lado. Porque o primeiro a saltar perde."E o Grupo dos
Nove começou a trabalhar num plano militar para combater os comunistas
e a extrema-esquerda, sempre na perspectiva de uma reacção contra um
eventual golpe deles. Mantendo-se do lado da legalidade, teriam a
garantia do apoio da maioria das unidades militares. Por isso era
fundamental informar o Presidente Costa Gomes dos seus planos e ganhar
o beneplácito dele. E depois esperar por um deslize dos esquerdistas.Para
conceber o plano militar, os Nove designaram Ramalho Eanes, embora
Vasco Lourenço fosse o líder operacional do movimento dos moderados. Do
outro lado, estavam todas as forças militares controladas pelo Partido
Comunista e pelos partidos da extrema-esquerda, com a ajuda de todos os
civis a quem seriam distribuídas armas, em caso de confronto. No seu
total, contando com as lideranças organizadas e efectivas que possuíam,
não constituíam uma força capaz de levar a melhor num conflito armado.
Pelo menos era isto que os Nove pensavam. Mas as coisas já
seriam diferentes se Otelo assumisse a liderança de todo o sector da
esquerda. O prestígio do comandante do Copcon era imenso. Para muitos,
ele representava os trabalhadores, os mais fracos, os ideais do
Movimento dos Capitães, encarnava a própria revolução. Fora ele a fazer
o 25 de Abril, e a assumir as rédeas do poder quando todos disso se
demitiam. Foi ele que permitiu e protegeu as ocupações de casas, de
fábricas e de terras, que lançou as campanhas de dinamização cultural e
de alfabetização. Ele, com toda a sua loucura e exagero, as suas frases
bombásticas e assustadoras ("Fascistas para o Campo Pequeno"), era a
figura moral e romântica, o símbolo da infinita generosidade de Abril.
Mais do que ninguém, ele tinha a capacidade de arrastar as massas atrás
de si. De fazer cumprir todas as ordens que desse, por pura lealdade,
por puro afecto.Por isso, Otelo era cobiçado pelas várias forças
políticas. O Partido Comunista tentou por todos os meios tê-lo do seu
lado, os esquerdistas acreditaram poder contar com ele, aliciando-o com
os ideais de poder popular com que ele simpatizava. Até o CDS tentou
levá-lo aos seus comícios, para tirar dividendos do seu poder de
sedução. Mas Otelo, apesar de se ter deixado manipular em muitas
situações, sempre resistiu ao recrutamento político. Nunca perdeu a
independência. Naquela altura, era o comandante da Região Militar de
Lisboa e do Copcon, uma estrutura que tinha sob a sua alçada todas as
forças de segurança e especiais e ainda as unidades de todas as Forças
Armadas, em caso de emergência. O Copcon fora criado pelo Presidente da
República (Spínola, na altura). O seu poder era legal, além de imenso.
Antes de começar a perder o controlo de muitas das forças, devido à
acção e influência dos activistas civis da esquerda, Otelo foi o homem
mais poderoso do país. Agora era visto como o líder de todo o
sector da esquerda, o único homem capaz de a unir para qualquer
propósito, incluindo o de pegar em armas para defender "as conquistas
de Abril". Os apoiantes dos Nove (que incluíam desde a esquerda
moderada do PS até à extrema-direita do ELP e MDLP) viam-no assim. Os
comunistas e a extrema-esquerda viam-no assim. Só ele, Otelo, não
aceitava esse papel.Na semana seguinte houve manifestações
contra e a favor do Governo, reuniões dos moderados, do seu grupo
militar, reuniões do Copcon, com todos os elementos civis afectos ao PC
e à esquerda radical que cirandavam em torno de Otelo, reuniões dos
pára-quedistas em luta.Vasco Lourenço informou Otelo do plano
militar contra o eventual golpe da esquerda. "Eu garanto-te que nós não
tomamos a iniciativa do golpe", disse-lhe Vasco Lourenço. "Agora, não
te envolvas em nenhuma iniciativa, porque se alguém der o primeiro
passo, nós estamos em condições de lhe cair em cima. Toma cuidado com
isso."A ideia era ganhar Otelo para o lado dos Nove. Porque eles
estavam do lado da legalidade. Tinham, desde as remodelações havidas
meses atrás, em consequência do Pronunciamento de Tancos, apoio da
maioria do Conselho da Revolução, e tinham o apoio do Presidente da
República. Além disso, Vasco sabia que Otelo compreendia as ideias da
facção dos Nove. A liberdade, a realização de eleições e o respeito
pelos seus resultados, e até a circunstância de os Estados Unidos e as
potências ocidentais não tencionarem permitir a instauração de um
regime comunista em Portugal, tudo isto eram argumentos a que Otelo era
sensível. Mas o ideal do poder popular era mais forte. E também,
segundo os seus detractores, a disponibilidade para ser influenciado
pelos seus apaniguados.Sábado, 15 de Novembro. O
movimento dos moderados teve uma reunião alargada no Palácio das
Laranjeiras, em que volta a ser colocada a hipótese de fuga para o
Norte. Jaime Neves, o comandante do Regimento de Comandos, que estava
do lado dos Nove, mas tinha muitos apoios entre a extrema-direita,
declarou de súbito: "Se vamos avançar para o Norte, é melhor ser já.
Porque eu, neste momento, garanto que uns 200 homens vêm comigo. Daqui
a uma semana ou duas já não sei se me restam alguns."Vasco
Lourenço reagiu logo, saltando para o patamar das escadas onde muitos
se sentavam: "Afinal que caca de comandante és tu? Afinal és um bluff.
Vais mas é para a tua unidade e agarras bem os teus homens, e daqui a
15 dias vais ter os mesmos 200 todos contigo. Porque eu já disse que
veto quaisquer ideias de fuga para o Norte."Na mesma reunião,
discutiram-se as medidas a adoptar para fazer face ao agravamento das
situações política, militar e social. Foi decidido que era preciso
afastar Otelo do comando da Região Militar de Lisboa, substituindo-o
por Vasco Lourenço. O segundo passo seria retirar poderes ao Copcon e,
depois, extingui-lo. Sem poderes legais, Otelo (que tinha acabado de
chamar contra-revolucionário ao Conselho da Revolução) poderia ainda
ser perigoso, mas, pensavam os moderados, mais controlável."Um
comando é muito efectivo quando o seu comandante tem, cumulativamente,
muito prestígio e força legal", pensava Ramalho Eanes. "Entre os
subordinados, há um conjunto de homens extremamente determinados que
estão ligados ao comandante devido ao seu carisma, e obedecem-lhe
intransigentemente. Há outro número de subordinados, talvez maior, que
não tem dúvidas em seguir as ordens daquele homem de quem gostam e a
quem estão ligados, desde que isso não implique para eles e as suas
famílias um grande perigo. O que quer dizer que cumprem as ordens,
quando isso não implica consequências para as suas famílias, porque o
fizeram num quadro de legalidade."Por causa deste princípio da
sabedoria militar, Eanes acreditava que, fora da legalidade, Otelo
teria menos de metade dos potenciais seguidores, se desse uma ordem de
combate contra as forças apoiadas pelo Presidente da República.No
campo político, a decisão que se seguiu à reunião das Laranjeiras foi
ainda mais ousada. Foi tomada ao almoço, no restaurante O Chocalho. O
que deveria o Governo fazer para impor o respeito? Foi Gomes Mota, um
dos mentores do Movimento dos Nove, quem deu a ideia: o Governo poderia
suspender as suas funções até que lhe fossem dadas garantias. Entrar em
greve!Vasco Lourenço apoiou logo: "Compro! Compro essa ideia! O
Governo vai entrar em greve!" Melo Antunes, sempre mais ponderado,
ainda objectou: "Estás louco? O Governo entrar em greve? Onde é que já
se viu isso?""Nunca se viu, vai-se ver aqui", respondeu Vasco.
"O Governo vai entrar em greve." Logo a seguir telefonaram a Mário
Soares, que acabou por concordar e convenceu os outros ministros civis.
E Pinheiro de Azevedo partiu para Belém, para informar alegremente o
Presidente da República da original decisão. À saída, o
almirante explicou aos incrédulos jornalistas: "Estou farto de
brincadeiras. Eh, pá, fui sequestrado já duas vezes, pá. Estou farto de
ser sequestrado. Não gosto. É uma coisa que me chateia, pá. Estou
farto. Por isso entrámos em greve."Quinta-feira, 20 de Novembro. Na
reunião do Conselho da Revolução o Movimento dos Nove propôs a nomeação
de Vasco Lourenço para a Região Militar de Lisboa. Otelo protestou, mas
acabou por concordar. Vasco Lourenço também, com uma condição: que
Otelo aceitasse a solução. Porque achava que seria completamente
diferente Otelo chegar às unidades que o apoiavam e dizer: "Aceitei
esta solução, porque é a menos má", do que dizer: "Não concordei, mas
impuseram-me esta solução."Otelo disse que sim, mas, quando
chegou ao Copcon, deparou-se com a discordância dos seus oficiais.
Telefonou a Costa Gomes: "Ó meu general, está aqui um problema tramado.
É que grande parte das unidades não querem o meu afastamento, e não
aceitam o Vasco Lourenço. Eu acabei por aceitar a posição deles. Era o
meu voto contra todos.""É pá, mas isso já está decidido", responde o Costa Gomes."Pois é meu general, mas o que é que eu hei-de fazer?"No
dia seguinte telefonou a Vasco Lourenço: "Eh pá, afinal, falei com a
minha rapaziada, e eles não aceitam isso, pá. Tenho de ir explicar isto
ao Costa Gomes e gostaria que viesses comigo." Ao Presidente Otelo
disse que as unidades de Lisboa e os seus comandantes não aceitavam
Vasco Lourenço, que não tinha por isso condições para chefiar a Região
Militar. Vasco respondeu que os comandantes não o queriam porque, com
ele, acabaria a bagunça. O Presidente marcou nova reunião, para a
decisão final, para dia 24.No mesmo dia, no Ralis (Regimento de
Artilharia Ligeira de Lisboa), uma das unidades dominadas pela
esquerda, fez-se um estranho juramento de bandeira. De punhos erguidos,
os soldados gritaram: "Juramos ser fiéis à pátria e lutar pela
liberdade e independência. Juramos estar sempre, sempre ao lado do
povo, ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo
trabalhador. Juramos lutar com todas as nossas capacidades, com
voluntária aceitação da disciplina revolucionária, contra o fascismo,
contra o imperialismo. Pela democracia e poder para o povo, pela
vitória da revolução socialista."Durante o fim-de-semana o PS
organizou grandes manifestações contra o totalitarismo na Alameda
Afonso Henriques, em Lisboa, e segunda-feira, 24 de Novembro, o
Conselho da Revolução reuniu-se enquanto, em Rio Maior, os
agricultores, orientados pela CAP (Confederação dos Agricultores de
Portugal), cortavam os acessos a Lisboa, dispondo árvores abatidas ao
longo da estrada. O objectivo dos agricultores era exigir que o
Conselho da Revolução acabasse com a "anarquia em Lisboa".Receando
que as barricadas de Rio Maior provocassem alguma acção de resposta da
esquerda, Eanes e os operacionais do plano militar colocaram-se em
alerta. O Conselho aprovou, para o comando da Região Militar de Lisboa,
a nomeação de Vasco Lourenço, que entretanto se considerou desvinculado
da condição que impusera, em consequência da "traição" de Otelo.A
reunião acabou tarde. Otelo saiu e dirigiu-se ao Copcon. Eram 4h30 da
manhã, mas o forte estava cheio de gente. Oficiais de outras unidades,
civis, militantes dos vários partidos de extrema-esquerda. Otelo
atira-se para o sofá onde já estavam sentados Costa Martins, um oficial
da Força Aérea ligado ao PCP, e outros oficiais da sua confiança. Diz:
"Passei aqui só para vos comunicar que deixei definitivamente de ser o
comandante da Região Militar de Lisboa. O Vasco Lourenço assumiu o
cargo. Eu fico apenas comandante do Copcon."Costa Martins
levanta-se e diz: "Mas os pára-quedistas não vão aceitar esta situação,
e vão ocupar as bases aéreas!" Otelo olha para ele. "As bases aéreas? A
que propósito?""Isto cheira-me a golpada!", diz outro oficial,
Tomé Pinto. Otelo responde: "A mim também. Aguenta aí." E chamou o
major Arlindo Dias Ferreira, piloto aviador do Copcon, e o capitão
Tasso de Figueiredo, da Polícia Aérea do Copcon, levou-os para uma sala
à parte."Que significa isto? Que boca é esta do Costa Martins?""Otelo,
isso não é nada connosco", disse Arlindo. "É a luta dos pára-quedistas
com o Morais e Silva, que quer dissolver as unidades."Otelo
desconfia: "Se isso acontecesse, não poderia servir de pretexto para os
Nove, que já encomendaram um plano de operações ao Eanes, para lançarem
uma operação contra nós, e para liquidarem a esquerda? É que uma coisa
é o apoio que eu dou aos páras, na sua luta contra o Morais e Silva.
Outra coisa é eles ocuparem as bases aéreas, em resposta à minha
demissão da Região Militar. Não sei se vocês estão a ver a ligação.""Não, está descansado, não é nada disso. Nós vamos tomar providências", respondeu Arlindo."Então
tomem as providências todas, senão há bronca." E Otelo decidiu: "Estou
estafadíssimo, não estou para aturar esta pessegada, vou para casa
descansar. Vocês travem-me essa porcaria, se houver alguma coisa.""Vai, vai sossegado."Otelo atravessou a sala e saiu. "Já dei indicações ao Arlindo. Boa noite, rapaziada."Foi
acordado ao meio-dia, pelo seu chefe de Estado-Maior, com a notícia:
"Meu general, é melhor vir rapidamente para o Copcon, porque há aqui
uma situação muito grave. Os pára-quedistas ocuparam as bases aéreas,
de Monte Real ao Montijo, às 5h da manhã." Otelo dirigiu-se
imediatamente ao Copcon. Mal entrou, o seu chefe de Estado-Maior
apontou-lhe a sala ao lado: "Meu general, está ali o comandante da
Força de Fuzileiros do Continente, à sua espera."Ribeiro
Pacheco, capitão-de-fragata, de farda branca, impecável, fez
continência. "Sr. general", disse ele, "vim aqui para lhe dizer que tem
a Força de Fuzileiros do Continente ao seu dispor. Mande, que nós
obedecemos. Se quiser, nós vamos neste momento atacar o Regimento de
Comandos da Amadora. Vamos lá e destruímos aquilo tudo."No
Regimento de Comandos da Amadora, Ramalho Eanes tinha instalado o posto
de comando do contragolpe. Costa Gomes assumiu o comando supremo das
Forças Armadas e delegou os seus poderes em Vasco Lourenço, que
atribuiu a Eanes o comando operacional. Estava tudo a postos para o
combate. Se os fuzileiros atacassem os comandos, seria o início de uma
guerra que ninguém podia prever quando e como terminaria. Alem dos
fuzileiros, dos pára-quedistas, da Polícia Militar e do Ralis, não se
sabia exactamente que outras forças poderiam sair em defesa da
esquerda. Eanes, Costa Gomes, Vasco Lourenço, sabiam que tudo dependia
de Otelo. Por isso, a primeira coisa que Presidente fez mal soube da
saída dos páras foi chamar a Belém o comandante do Copcon.Mas
ele nunca mais chegava. Que iria Otelo fazer? Assumiria a liderança da
facção que o via como o seu líder e iniciaria a guerra?No Copcon, os dois homens olharam-se por escassos segundos. O capitão-de-fragata estava à espera da decisão, em sentido."Eh
pá, ó Pacheco, aguente aí", disse-lhe Otelo. "Não vai fazer nada disso.
O senhor vai mas é daqui, mete-se no carrinho, vai lá para a Força de
Fuzileiros, em Vale do Zebro, e fique lá, calmamente, a aguardar o
desenrolar dos acontecimentos. Eu vou ver o que se está a passar. Fique
a aguardar qualquer indicação do nosso general Costa Gomes."O
chefe dos fuzileiros saiu. O chefe de Estado-Maior de Otelo disse-lhe:
"O nosso general Costa Gomes já telefonou para cá duas vezes, pedindo
para o meu general se apresentar em Belém.""Diga-lhe que vou comer qualquer coisa e já vou para lá", respondeu Otelo."Ainda bem que chegou, já estava a ficar aflito", disse Costa Gomes quando Otelo entrou. E só então declarou o estado de sítio.As
operações foram lançadas por Eanes, usando os comandos de Jaime Neves.
À excepção da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda, onde o tiroteio que
se instalou provocou três mortos, todas as acções decorreram sem
violência. Na RTP, o golpe dos esquerdistas chegou a anunciar a
vitória, numa emissão rapidamente interrompida. "Aqui não há
meias-tintas, não tenho mais tempo para conversar", anunciou o jovem
oficial barbudo Duran Clemente, à entrada dos estúdios do Lumiar. "Isto
é tudo muito desagradável, mas, se for necessário matar, eu tenho de
matar." E, depois de ter trancado o director da RTP num gabinete,
avançou para o estúdio, onde iniciou um discurso sobre as delícias do
poder popular, acompanhado de slides alusivos. Às 21h10, os
telespectadores vêem Clemente começar a esbracejar, em protesto contra
os sinais que o técnico lhe fazia, e de seguida surgirem no ecrã as
imagens do filme O Homem do Diners Club, de Danny Kaye, já emitido dos estúdios do Porto.O
golpe tinha acabado. A fase louca da revolução também. Uma depuração
percorreria todos os níveis das Forças Armadas. Um reequilíbrio à
direita seria reposto no Conselho da Revolução. Otelo e os seus
oficiais seriam presos. O Partido Comunista obteve a garantia de que
não seria ilegalizado, desde que abandonasse os impulsos golpistas e
aceitasse o jogo eleitoral. Ramalho Eanes emergiria como o herói do 25
de Novembro. Pouco depois era eleito Presidente da República. A fase
totalitarista da revolução dava lugar ao período democrático, ainda que
à custa de uma boa parte do idealismo inicial. Entrou-se na época da
normalização, da revolução possível.Mas muito ficou por
explicar. Quem deu a ordem aos pára-quedistas para ocuparem as bases?
Foi o PCP que preparou o golpe da esquerda? Se sim, com que objectivo?
Fazer pressão para que houvesse um reequilíbrio à esquerda na
composição do Conselho da Revolução e Governo, depois da queda de Vasco
Gonçalves? E, nesse caso, porque desistiu? A URSS terá recuado na sua
promessa de apoio? Ou terá temido que a extrema-esquerda assumisse o
controlo? A ser assim, terá sido esta uma forma hábil de se
desembaraçar dos esquerdistas?E Otelo? Terá traído os
companheiros? Terá tido medo? Terá avaliado a correlação de forças e
concluído que perderia? Terá planeado tudo, lançando os páras na sua
aventura, para provocar a reacção dos Nove, porque previu que isso era
a única solução? Isso explicaria por que se fechou em casa, das 5 da
manhã ao meio-dia, sem atender o telefone. Terá sido genialmente
maquiavélico, ou terá sido enganado? Ou terá feito o jogo dos Nove
porque, no fundo, acreditava que eles representavam o regresso à
verdadeira essência dos ideais de Abril?Apesar de todos os
mistérios que persistem, visto de hoje o 25 de Novembro parece antes de
tudo uma imensa encenação, em que, tacitamente, todos, da
extrema-esquerda à extrema-direita, conspiraram para o mesmo desfecho.
Como se estivessem cansados, e optassem pela paz.O RALIS (Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa) era uma das unidades dominadas pela esquerda

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Contagem decrescente para uma guerra civil Empty Re: Contagem decrescente para uma guerra civil

Mensagem por RONALDO ALMEIDA em Dom Nov 22, 2009 10:57 pm

CUNHAL OU ERA PARVO ou FAZIA-SE. Como se a ESPANHA alguma vez PERMITISSE um REGIME COMUNISTA AO LADO DELES!!! SANTA INGENUIDADE!!! O que CUNHAL QUERIA era fazer o que os RUSSOS o mandaram fazer. ENTREGAR AS COLONIAS aos COMUNISTAS !!! nada mais!! DEPOIS que conseguiram o OBJETIVO, assim que as ORDENS foram CUMPRIDAS POR CUNHAL, os SOVIETICOS disseram-lhe para BAIXAR A BOLA!!!
RONALDO ALMEIDA
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