No reino das aparências

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Mensagem por TheNightTrain em Sex Fev 19, 2010 1:00 pm

No reino das aparências


Por Pedro Lomba


O que quer o propagandista não é controlar a realidade. A sua primeira ambição é outra: gerir a aparência.
Não lhe interessa refutar factos e suspeitas desfavoráveis, mas
manipular a forma como esses factos são lidos e interpretados pelo
maior número de pessoas. É nessa contra-informação metódica que o
propagandista cava a distância entre o que é e o que parece.Por
isso, o grande motor de toda a propaganda - política, económica ou
cultural - residiu sempre na criação sofisticada de aparências. As
aparências também assentam em opiniões. Mas essas opiniões são
distorcidas, falsificadas, enviesadas. São opiniões falsas que
pretendem gerar outras opiniões falsas. Nas sociedades de massas, as
aparências circulam como produtos tóxicos. E o mais difícil nisto tudo
é isolar e compreender a realidade.No caso do plano com que
alegadamente o Governo queria tomar conta da TVI - a que podemos chamar
plano A, porque resta apurar se a operação não acabou por ser executada
através de um plano B, com protagonistas diferentes -, é elucidativo
ver o empenho com que todos os intervenientes no negócio falhado
quiseram alimentar a ideia de que tudo seria na aparência algo
diferente daquilo que de facto era. O Sol conta, por exemplo,
que Zeinal Bava, obviamente para proteger a imagem da sua empresa, tudo
fez para que a operação se fizesse sem que a PT "aparecesse"; o
administrador Rui Pedro Soares mais o seu ajudante jurídico, Paulo
Penedos, também parecem ter conduzido esforços para que o negócio fosse
visto como uma "guerra entre empresas". Remover José Eduardo
Moniz antes de a PT entrar reforçaria o jogo de aparências. Até quando
Moniz verbalizou publicamente que ponderava candidatar-se a presidente
do Benfica, os "executores" do "plano" terão esfregado as mãos. Isso
significava que a posição de Moniz na TVI não estava certa e os motivos
da sua contratação poderiam ser mascarados com outra eficácia e
sucesso. A "guerra entre empresas" seria, em princípio, o contexto
perfeito para se esconder o carácter político do negócio.Quando
hoje pergunta o primeiro-ministro ou, dizendo rigorosamente, quando
outros perguntam por ele: eu menti ao Parlamento? Quem não mentiu? Eu
quis controlar a comunicação social? Quem não o quis no passado? Eu pus
os "meus" boys nas empresas públicas? Atire a primeira pedra
quem não o fez. Quando estes "argumentos" são soprados por ele e pelos
seus defensores mais desesperados, trata-se da mesma onda mistificadora
que abastece o reino das aparências. Quando ontem, o dirigente socialista José Junqueiro veio lembrar que o Expresso
e a SIC pertencem a fundadores do PSD - e de um ex-primeiro-ministro,
Francisco Pinto Balsemão, - e o PÚBLICO é propriedade de Belmiro de
Azevedo e o semanário Sol tem "como accionistas e ideólogos as principais figuras do PSD" (sic),
o enredo, cada vez mais implausível, passa a ser outro. Deixamos de
estar perante uma guerra entre empresas mas entre partidos e órgãos de
comunicação social. Assim se percebe por que José Sócrates
deixou ontem o Olimpo do Governo para, descendo às bases, incitar a
"família PS" a assumir as dores do cerco que lhe foi criado.
Interessa-lhe agora a aparência de uma provocação partidária para,
eventualmente, conseguir dissolver a sua própria responsabilidade. Uma
disputa PS contra o PSD é mais uma aparência conveniente.Neste
circo de aparências, a única coisa que não interessa enfrentar é a
realidade. Fez ou não o primeiro-ministro aquilo de que muita gente o
acusa? Enquanto tarda esta resposta, vamos apodrecendo como país no
reino das aparências, em que a prestação de contas e a responsabilidade
política não existem, não valem de nada. Belo regime. Jurista

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/18-02-2010/no-reino-das-aparencias-18820608.htm

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