A ameaça-fantasma

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Mensagem por TheNightTrain em Sex Abr 30, 2010 12:42 pm

A ameaça-fantasma


por Paul Krugman, Publicado em 30 de Abril de
2010 | Actualizado há 19
horas



É fácil fingir que a
crise financeira foi provocada por erros inocentes, mas não foi. É o
resultado de um sistema corrupto, em que as agências de notação têm
grandes responsabilidades


A ameaça-fantasma 0000160724

As de rating precisam
de mudanças
reuters




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Analisemos a Subcomissão Permanente de Investigações do Senado. O
seu trabalho relativo à crise financeira parece-se cada vez mais com o
da Comissão Pecora, que contribuiu para promover a regulamentação
financeira nos tempos do New Deal. Nos últimos dias, as escandalosas
mensagens de correio electrónico provenientes de Wall Street divulgadas
pela subcomissão têm feito os cabeçalhos dos jornais.

Essa é a
boa notícia; a má é que a maioria dos cabeçalhos se debruçou sobre as
mensagens erradas. O facto de os empregados do Goldman Sachs se
vangloriarem do dinheiro que tinham ganho com a manipulação dos títulos
do mercado imobiliário é feio, mas não constitui um delito em termos
jurídicos.

As mensagens de correio electrónico em que nos
devemos deter são as dos funcionários das agências de avaliação do risco
de crédito (credit rating agencies), que atribuíram uma classificação
AAA a centenas de milhares de milhões de dólares de activos duvidosos
que se viria a perceber mais tarde serem quase todos lixo tóxico. Não se
pense que se trata de uma hipérbole. Longe disso: dos títulos
hipotecários subprime classificados com AAA em 2006, 93% - 93 por cento!
- foram agora considerados lixo.

O que essas mensagens de
correio electrónico revelam é um sistema profundamente corrupto. Um
sistema que a reforma financeira, nos termos actualmente propostos, não
poderia consertar.

As agências de notação de risco de crédito
começaram a sua actividade como empresas de estudo de mercado: faziam
avaliações de dívidas institucionais e cobravam esse serviço a pessoas
que estudavam a hipótese de comprar essas dívidas. Porém, com o tempo,
foram-se transformando em empresas de cariz muito diferente: passaram a
ser contratadas por quem vendia as dívidas para aporem nelas o seu selo
de aprovação.

Essas certificações começaram a desempenhar um
papel vital em todo o nosso sistema financeiro, especialmente no que diz
respeito a investidores institucionais como os fundos de pensões, que
só compravam títulos se viessem acompanhados da cobiçada classificação
AAA.

Era um sistema na aparência digno e respeitável. E contudo
criou enormes conflitos de interesses. Os emitentes da dívida - que
eram, cada vez mais, instituições de Wall Street que vendiam títulos por
elas criados através de um esquema de partir e repartir e baralhar e
tornar a dar direitos existentes sobre, por exemplo, hipotecas subprime -
podiam optar entre várias dessas agências de notação, por isso podiam
encaminhar os seus negócios para aquelas em que tinham mais
probabilidades de obter uma opinião favorável e ameaçar preterir os que
se esforçavam por trabalhar com responsabilidade. Actualmente, quando
olhamos o que aconteceu, é claro como água que havia grandes
probabilidades de isso corromper todo o processo.

E corrompeu. A
subcomissão do Senado concentrou as suas investigações em duas das
maiores agências de classificação de risco de crédito, a Moody's e a
Standard & Poor's; o que descobriu veio confirmar as nossas piores
suspeitas. Numa mensagem de correio electrónico, um funcionário da
S&P explica que é preciso marcar uma reunião para "debater os
critérios de ajustamento da avaliação de títulos caucionados por bens
imobiliários, dada a ameaça constante de perder negócios". Noutra
mensagem, alguém reclama por ter de utilizar recursos "para 'trabalhar'
os números relativos ao subprime e aos títulos de hipoteca A
alternativos, de modo a manter a quota de mercado". Claramente, as
agências de notação estavam a distorcer as suas avaliações para agradar
aos clientes.

A existência dessas avaliações distorcidas, por
seu turno, levou a que o sistema financeiro assumisse riscos muito
maiores que poderia com segurança enfrentar. Paul McCulley, da Pimco, o
investidor em obrigações (que inventou o termo "bancos-sombra" para
designar as instituições não regulamentadas que estiveram no cerne da
crise), descreveu recentemente esse processo nos seguintes termos:
"bancos- -sombra com um crescimento explosivo, não sujeitos a
regulamentação, numa festa desregrada com as agências de classificação
de risco financeiro, em que entram com BI falsos."

Mas então o
que se pode fazer para evitar que isso volte a acontecer?

A
proposta de lei agora nas mãos do Senado tenta abordar o problema dessas
agências, mas na generalidade é muito branda nessa questão particular. A
única disposição que poderia ser eficaz é a que torna mais fácil
processar judicialmente as agências que se escusassem, "consciente ou
imprudentemente", a tomar as medidas correctas. No entanto, é óbvio que
isso não basta, dados os montantes em jogo - e o facto de Wall Street
poder pagar advogados muito, mas mesmo muito bons.

O que é
preciso é uma mudança fundamental nos incentivos das agências de
classificação. Tem de se fazer alguma coisa para acabar com a natureza
fundamentalmente corrupta do sistema em que o emitente da dívida é quem
paga a respectiva avaliação.

A proposta de Matthew Richardson e
Lawrence White, da Universidade de Nova Iorque, é um bom exemplo de
como as coisas poderiam funcionar. Richardson e White sugerem que se
crie um sistema em que as empresas emitentes de obrigações continuariam a
pagar às agências de rating a avaliação dessas obrigações, mas em que
seria a Securities and Exchange Commission, e não a instituição
emitente, a escolher a agências de rating que se encarregaria de fazer a
avaliação.

Economista Nobel 2008

Exclusivo
i/The New York Times



http://www.ionline.pt/conteudo/57720-a-ameaca-fantasma

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