O Conselho Europeu

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O Conselho Europeu

Mensagem por Viriato em Qua Fev 09, 2011 3:12 am

O Conselho Europeu

por MÁRIO SOARES

1 A reunião de sexta-feira parece não ter conduzido a nada de substancial. A não ser atribuir, uma vez mais, o protagonismo principal à chanceler Merkel e ao seu assessor às ordens, o Presidente Sarkozy. Tristes tempos em que o grande projecto comunitário, que tanto marcou a minha geração, vai desaparecendo, paulatinamente, e entre os Estados membros - e, em particular, os da Zona Euro - há quem mande (a Alemanha) e quem obedeça (todos os outros). A desigualdade entre os Estados membros começa a ser a regra. O resto, é "conversa fiada", como diz o nosso povo.

Claro que a chanceler Merkel só pensa nas eleições de Março e no regresso à grande Alemanha, dominadora do continente europeu. Vem do Leste totalitário, tem revelado não ter grande cultura democrática e está longe de ser, infelizmente, uma fiel europeísta, como o seu predecessor, Helmut Kohl.

Percebeu, com grande atraso, a importância da moeda única e proclamou a sua disposição de "não deixar cair o euro", no último Conselho Europeu. Foi um passo. Mas não foi capaz de ir além da esfera financeira. Prometeu criar um fundo financeiro europeu, para valer aos Estados vítimas dos mercados especulativos, sem necessidade de recurso ao FMI. Mas impôs medidas draconianas para reduzir o deficit e os endividamentos externos, públicos e privados, que, necessariamente, reduzem o crescimento das economias respectivas e atiram os Estados mais frágeis para a recessão económica.

No entanto, o que não deixa de ser curioso e paradoxal é que a rica e poderosa Alemanha será das últimas vítimas, mas, porventura, das que mais vão sofrer, se e quando os Estados europeus, que importam a maioria das exportações alemãs, deixarem de poder pagá-las...

Sócrates apareceu em Bruxelas, perante os telespectadores portugueses, sorridente e optimista. Aparentemente, se fizermos fé no que nos diz a imprensa internacional, não terá muitas razões para isso, apesar de no dia anterior ter conseguido conter, pela segunda vez, os mercados especulativos. Mas, como a política portuguesa, ultimamente, parece ser dirigida pela máxima de que o "segredo é a alma do negócio", talvez Sócrates tenha razões para estar optimista que a razão dos portugueses não conhece. Veremos.

Contudo, em matéria de cortes no despesismo do Estado, nas parcerias público-privadas, nas autarquias e nas regiões autónomas, impostos por Bruxelas, ainda a procissão vai no adro. Muita falta vai fazer, e vai doer bastante. O emprego e as desigualdades sociais mantêm-se, se não se agravarem, a incerteza do tempo é cada vez mais interiorizada pelos portugueses. Será que isso não terá consequências no plano do descontentamento social e político? Exemplos europeus e outros deviam obrigar-nos a reflectir mais.

É por isso que penso - e insisto - que seria prudente explicar o caminho do futuro aos portugueses para lhes dar confiança e os poder sensibilizar. Ora, não é com o marketing que isso se consegue. Nem com Congressos que se afiguram unanimistas. É com debate de ideias, ouvindo as pessoas e correspondendo às suas angústias.

O Conselho Europeu, por via do eixo alemão-francês, adiou para 24 e 25 de Março as medidas relativas ao fundo prometido. Os restantes Estados membros da Zona Euro fizeram contra a chanceler Merkel, que está a tornar-se insuportável, uma espécie de fronda, que não teve consequências práticas. Foi pena. A União tem necessidade urgente de acordar, com uma visão coerente para o futuro.

O vice-presidente do Governo espanhol, Alfredo Rubalcaba, em Madrid, declarou que não se pode sair desta crise do capitalismo pela direita, mas com medidas de esquerda. Tem razão. Era excelente que Zapatero e Sócrates dissessem o mesmo, em voz bem alta, em Bruxelas, concertadamente, em nome da Península Ibérica e da autoridade que tem, pelo contributo que deu à Europa, ao longo da história. E o Parlamento Europeu, com a legitimidade que lhe advém de ser o representante directo da vontade do povo europeu, bem podia pressionar a Comissão e o Presidente, nesse mesmo sentido.

Veremos como a situação irá evoluir até Março...

2 O mundo muçulmano está em ebulição, como as televisões nos mostram várias vezes por dia. Trata-se de uma viragem revolucionária inesperada, provocada por jovens mais ou menos cultivados, dos dois sexos, que manejam bem os computadores, os blogues, os telemóveis, e deles se têm servido para gritar a sua indignação, contra ditadores, há décadas no poder e contra regimes corruptos, que lhes fecham os horizontes do futuro. Revolução pacífica, portanto, em que os militares só apareceram a posteriori e os islamitas não foram o motor. Bem pelo contrário. Assim surgiu, inesperadamente, o movimento dos jovens (que contaminou os adultos) contra as ditaduras odiadas que os têm oprimido. Os jovens sofreram - e sofrem - na carne a falta das liberdades essenciais, que invejam à Europa e às Américas. E revoltaram--se, pacificamente, em movimentos de sentido totalmente original.

Note-se que, até agora, têm tido manifestações que não são dirigidas contra Israel nem expressam, como no passado, qualquer ódio ao Ocidente. Pelo contrário. Só reclamam um futuro de liberdade, onde tenham lugar e lhes abram horizontes de progresso. Nesse duplo sentido são contra o islamismo radical e anti-Al Qaeda.

Começou este movimento, inédito, na Tunísia, há três semanas, e a situação foi aplacada, embora não resolvida, com a fuga para a Arábia Saudita do ditador Ben Ali e da sua corrupta família. Comunicou-se depois ao Egipto, país-chave do Médio Oriente, onde a situação é muito mais complexa, dada a presença forte do islamismo. O ditador Mubarak continua em posto, cego, surdo e mudo, em relação ao que se está a passar à sua volta e aos apelos do Presidente Obama. As Forças Armadas, as mais poderosas da região, fizeram desaparecer a polícia, o que foi suspeito, mas, aparentemente, têm-se mostrado mais ou menos neutrais.

No momento em que escrevo, a situação ainda está longe de ser resolvida, apesar dos apelos cada vez mais explícitos e repetidos do Presidente Barack Obama, para que respeite a vontade popular. Sendo a América, até agora, o maior e mais importante aliado do ditador Mubarak. O menos que se pode dizer é que o mundo mudou muito e continua a mudar... Contudo, Mubarak continua no seu Palácio e recusa sair, embora tenha demitido a direcção do seu partido, incluindo o seu filho.

O mais interessante, porém, é que o contágio da Revolução do Jasmim (Tunísia) não se ficou pelo Egipto. Alastrou à Jordânia, onde as cedências do Rei Abdullah II, demitindo o Governo, não chegou para moderar os manifestantes. Nem no Iémen, onde o Presidente Saleh já anunciou que não se recandidatará em 2013. Mas também não chega, para as opiniões públicas em fúria, com os jovens à frente. E ainda à Síria, ao Sudão e ao Líbano, onde as manifestações que houve, quando houve, foram menos afirmativas. E também, ao que parece, ao Magrebe, na própria Argélia e em Marrocos, onde as respectivas juventudes surgem cada vez mais inquietas e participantes, embora recusando sempre a violência. Os mestres destes jovens parecem ser Gandhi, Martin Luther King e outros pacifistas e, a contrario sensu, o terrorismo islâmico!

Trata-se, portanto, de uma mudança radical e inesperada, tanto nos Estados do Magrebe, onde existem "democracias" muito musculadas, como no Médio Oriente, onde os ditadores se perpetuam no poder, há verdadeiras teocracias intolerantes, obsoletas e ditatoriais e as novas gerações, que conhecem o mundo pela comunicação social, se sentem discriminadas e sem futuro. Portanto, revoltadas.

Tudo isto faz-nos reflectir. O mundo árabe, que mediante as manifestações populares e pacíficas está a obrigar a mudanças na geoestratégia da região - incluindo Israel - embora não tenham sido detectadas, em tempo útil, no Magrebe, no Próximo Oriente, nem, sublinhe-se, na União Europeia, que alberga vastíssimas manchas de imigrantes dessas zonas. Nos Estados Unidos também suscitaram grande surpresa. E até na China - imagine-se! - que só agora está a tomar medidas contra eventuais contágios...

É, neste momento, extremamente difícil prever como todo este fenómeno evolui. No entanto, ninguém terá dúvidas de que pelo menos as sementes democráticas e da não-violência ficaram na região e, mais tarde ou mais cedo, darão frutos. O que em época de crise global, de conservadorismo serôdio e de pessimismo generalizado - pelo menos na União Europeia - representa uma lufada de ar fresco, contra a corrente...

Sabem os caros leitores quem foram os únicos dirigentes europeus que defenderam a manutenção de Hosni Mubarak no poder? Silvio Berlusconi, Il Cavaliere, e o não menos cavaliere Tony Blair, este último com a agravante de ser o representante da União Europeia para as relações com o Médio Oriente e para a melhoria de relações entre Israel e a Palestina... Nos Estados Unidos - é verdade - os republicanos ultraconservadores americanos abriram mais uma frente de combate contra o Presidente Obama, por querer mais democracia para o Egipto. É a luta entre os utópicos e os chamados realistas, por não terem princípios nem valores, o que, para eles, parece ser uma qualidade, porque os interesses materiais são o que conta.

3 A Igreja Católica, apesar da sua história duas vezes milenar, também sente a transformação do tempo. Na verdade, 144 professores de Teologia alemães, austríacos e suíços acabam de publicar uma carta aberta, dirigida a Sua Santidade, Bento XVI, alemão de origem, denunciando a situação de perigo moral em que incorre a Igreja Católica. Com efeito, reclamam o fim do "rigorismo moral", a ordenação, como sacerdotes, de mulheres e o casamento de padres.

Segundo escreve o Le Monde, "a ofensiva veio da direita católica alemã" e pode ter a ver com a terceira visita anunciada do Papa à Alemanha. Trata-se de uma carta subscrita por professores de universidades católicas, publicada pelo jornal Süddeutsche Zeitung pedindo "a renovação da Igreja" considerada indispensável em 2011. Os escândalos da pedofilia revelados em 2010 pela comunicação social suscitaram um grande descrédito que levou muitos católicos a abandonar a Igreja e, também, pela falta de flexibilidade demonstrada, à renúncia de muitos sacerdotes.

Contudo, Bento XVI parece ser inflexível quanto ao celibato dos padres. E ainda em Junho último, perante 15 mil sacerdotes reunidos no Vaticano, declarou: "O celibato é o melhor antídoto contra os escândalos causados pelas nossas insuficiências de mortais." Será?

No entanto, o que tem de ser tem muita força. O tempo está a mudar, aceleradamente, hábitos e comportamentos civilizacionais e religiosos do passado. E a Igreja, como ficou claro desde o Concílio Vaticano II e o aggiornamento que daí resultou, não pode nem deve ficar imune às mudanças das sociedades civis.

4 Foi um artigo de Vasco Pulido Valente que me alerto para o grupo pop Deolinda, que tem provocado um enorme entusiasmo na nossa juventude, com a canção "Parva que sou". Porquê? Pela mesma razão que está a ocorrer em toda a parte: foi ao encontro das inquietações e angústias da nossa juventude, que pode ter estudos superiores mas não tem emprego e já na idade adulta é obrigada a viver na "casinha dos pais". "Que parva que eu sou/E fico a pensar/Porque isto está mal e vai continuar/Que mundo tão parvo/Onde para ser escravo é preciso estudar."

É um sinal deste nosso tempo que está a perturbar - e a entusiasmar - esta nossa terra, dita, de brandos costumes. Mas atenção, cantam os jovens: sou da geração "eu não posso mais/Que esta situação dura há tempo de mais". Os dirigentes políticos que compreendam o sinal e não deixem que a canção se transforme num grito colectivo.

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