Um furacão varre o mundo árabe

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Um furacão varre o mundo árabe

Mensagem por Viriato em Ter Fev 22, 2011 2:54 am

Um furacão varre o mundo árabe

por MARIO SOARES

1. Começou mais ou menos pacificamente, na Tunísia, há cerca de um mês. Comunicou-se, depois, inesperadamente, ao Egipto. Com alguma violência inicial mas que acabou numa euforia generalizada, com a demissão de Mubarak e a neutralidade das Forças Armadas. Mas Mubarak ainda está no seu Palácio de Sharm el Sheikh, apesar das Forças Armadas terem prometido "eleições livres e justas". Não devemos esquecer que o Egipto é um país-chave do Próximo Oriente, cujo povo se revelou politicamente muito maduro.

Na Argélia, uma manifestação tentada foi desfeita pela violência policial, com bastantes feridos, um morto e muitos presos. Mas nem por isso os protestos acabaram, sendo cada vez maiores. Veremos se a semente do descontentamento vai germinar ou não, como parece nos últimos dias estar a acontecer. Há também manifesto mal-estar e inquietação em Marrocos, onde, no sábado passado, houve em várias cidades grandes protestos mais ou menos pacíficos. E na Mauritânia, onde o mesmo sentimento de revolta está a amadurecer.

Para Leste, o contágio dos acontecimentos da Tunísia, e depois do Egipto, foi mais rápido e muito mais violento. A repressão parece ter sido brutal e imediata, sobretudo na Líbia, onde Kadhafi estabeleceu um muro de silêncio para o exterior e provocou um verdadeiro massacre no plano interno. A polícia não bastou e o Exército teve de intervir, fazendo, segundo as agências, duas centenas de mortes, para evitar que em Bengasi e noutras cidades, mesmo em Tripoli, gritassem "Morte ao tirano!" Um militar que governa o país, com mão-de- -ferro, há mais de quarenta anos.

No Bahrein, um dos emirados, as manifestações começaram por ser pacíficas. Reclamavam, tão-só, liberdade, democracia, respeito pelos direitos humanos, como por toda a parte. Mas, após a morte de três manifestantes, os protestos endureceram, os reformistas que gritavam nas ruas tornaram-se revolucionários e o exército reagiu com fogo real, fazendo mais de cem feridos, alguns dos quais em estado muito grave. O príncipe Salman demitiu o primeiro-ministro e falou ao país, dizendo que a monarquia do Bahrein "nunca foi um Estado policial e que estava pronto a negociar". Mas alguns observadores acham que será demasiado tarde. Na Jordânia, as manifestações parecem ser menos violentas, dado que o Rei Abddullah II se tem mostrado mais aberto.

No Irão, pela voz do Presidente, Ahmadinejad, comparou-se a revolução vivida agora no Egipto com a revolução iraniana de 1979. Não têm nada a ver uma com a outra! Foi um erro tal comparação, num Estado teocrático cuja população está extremamente tensa desde as últimas eleições, que tiveram como resultado a prisão de alguns dos lideres da oposição. Os oposicionistas, em consequência, vieram para a rua a pedir liberdade e mudança do regime teocrático. Foram presos e espancados pelas forças repressivas. Na Assembleia, os deputados, favoráveis ao regime, pediram, a gritar, a pena de morte para os líderes da oposição. Foi como deitar gasolina numa fogueira...

No Iémen, a repressão foi enorme. Mas houve também contra-manifestações em favor do ditador Saleh. Na cidade portuária de Áden houve igualmente protestos que se saldaram por vários mortos.

No Iraque, onde há ainda forças americanas, também há sinais de que o tsunami egípcio, que varre o mundo árabo-muçulmano, o pode igualmente atingir. Assim como na Síria e na própria Arábia Saudita. Quer dizer, o mundo assiste a uma viragem histórica, como só sucede de longe em longe.

Trata-se, portanto, de um fenómeno político e social novo - que envolve fortemente a juventude - e que está a marcar a segundo década do século xxi, bem como o mundo complexo do nosso tempo. Diga-se que sem os progressos informáticos de telemóveis, Internet, blogues e Twitter, é possível que nada tivesse acontecido. Ninguém, com consciência política, pode ser indiferente às revoluções em curso. A América, de Obama, a segui-las com manifesta simpatia e atenção - sobretudo no que se refere ao Egipto -, mas também com a prudência que resulta das contradições internas americanas, da força do lobby judaico nos Estados Unidos e da situação de isolamento em que parece ficar Israel, face às manifestações de regozijo e incontido entusiasmo com que a Palestina tem saudado as mudanças na região.

Mudanças que, aliás, nada têm a ver com o fanatismo religioso nem, menos ainda, com o terrorismo islâmico. Por toda a parte onde se manifestam, ninguém atacou Israel nem, menos ainda, o Ocidente. Pelo contrário. Foram os valores do Ocidente - direitos humanos, democracia pluralista, justiça social, direito e dignidade no trabalho, valores éticos, etc. - que os jovens muçulmanos defendem, lutando contra os ditadores que se eternizam nos lugares, a corrupção e as teocracias obsoletas.

Por isso, talvez, a União Europeia dirigida por conservadores, em sociedades em que os valores éticos não abundam - e o supremo valor é o mercado - tardou tanto em reconhecer o que se passa no mundo árabo-muçulmano. O apoio que lhes tem dado tem sido escandalosamente discreto. Até parece que os dirigentes europeus lamentam que os ditadores corruptos, seus antigos aliados e amigos, que podem vir a cair como um castelo de cartas, lhes façam alguma falta... Sobretudo os que ganharam o hábito de passar férias na região.

Numa entrevista dada ao El País, de sábado, Javier Solana, que foi responsável, durante vários anos, pela diplomacia europeia, escreveu: "O esquema de só haver um Islão radical, desapareceu." E acrescentou: "Quem se levantou contra o regime de Mubarak não são perigosos islamistas radicais. São jovens que querem dignidade e exigem respeito." E ainda: "Israel não será mais a única democracia da região. Deverá adaptar-se para poder garantir de outro modo a sua segurança."

Palavras sábias. Pena é que a actual União Europeia - e os seus dirigentes - as não queiram compreender...

União Europeia continua sem norte

2. O Conselho de Ministros das Finanças não foi, mais uma vez, conclusivo. Adiou-se para o próximo mês a criação do fundo financeiro prometido para defender o euro, nossa moeda comum, dos ataques especulativos do mercado. E, em compensação, prometeu-se algum auxílio para os países considerados mais frágeis, como Portugal. Mas promessas, como diz o nosso povo, leva-as o vento, embora, no caso em análise, devamos ter alguma confiança, porque os ataques especulativos a Portugal podem repercutir-se em Espanha e aí fia mais fino, como os grandes da Europa sabem e temem.

A chanceler Merkel continua a pensar que a crise financeira global se resolve quando cada Estado- -membro reduza substancialmente o deficit - e, nesse aspecto, Portugal, segundo parece, está a fazer o seu melhor - e o endividamento externo, público e privado, o que é mais difícil e problemático. Esquece-se a chanceler que as medidas de austeridade preconizadas para conseguir tal objectivo provocam menos crescimento económico, mais desemprego, menos investimento, externo e interno, e, provavelmente, revoltas de tipo social - sobretudo entre os jovens que acabam os seus cursos e não têm trabalho - e, em consequência, arrastam os países em tais condições, necessariamente, para a recessão. Em Portugal, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, avisou que já estamos em recessão...

A chanceler Merkel - sublinhe- -se - está em maus lençóis, aliás, desde que resolveu coligar-se com o Partido Liberal, extremamente ortodoxo no plano economicista. Foi um "casamento" infeliz, que a obrigou a enveredar por um caminho anti-europeísta, que lhe causou alguns dissabores em termos europeus. Ninguém aceita a germanização da Europa. Mas o pior, para Merkel, está para vir, com as eleições em sete estados federais, que estão à vista. No domingo passado, em Hamburgo, o partido de Merkel teve a maior derrota de sempre. As sondagens apontam para um decréscimo acentuado da Democracia Cristã, da CDU (o seu partido) e do Partido Liberal (seu associado), contra uma subida provável do SPD (social-democratas) e dos Verdes.

De resto, por toda a União Europeia parece começar a manifestar--se uma corrente de opinião cívica, sobretudo entre os jovens, mais europeísta e, em absoluto, contrária à destruição ou ao desmantelamento do projecto europeu. Essa corrente cívica, transversal, passa por cima dos partidos e tende a animar associações, mais ou menos, adormecidas, como o Movimento Europeu, claramente de inspiração federalista. Mas, como é óbvio, representa também um impulso à sociedade civil independente dos partidos e aos partidos socialistas e sociais-democratas, como o SPD alemão e o PS Francês, em clara refundação ou, melhor, adaptação às exigências do tempo complexo de hoje. Os Verdes e as associações sindicais europeias estão igualmente a dinamizar-se no mesmo sentido. Porque salta à vista que a União Europeia deve sacudir urgentemente a sua actual paralisia política se não quiser entrar em insanável decadência e para, pelo contrário, desenvolver o papel a que tem jus na cena internacional. O conservadorismo economicista falhou e a União Europeia tem de avançar com um novo modelo de crescimento, orientado pelos valores éticos, pelos direitos humanos e pela justiça social, contra a corrupção, o negocismo e o mito do Deus mercado, que invadiu a política e, infelizmente, alguns políticos, desde o colapso do comunismo a nível mundial.

G20, um novo "flop"

3. Reuniu-se em Paris, presidido pelo Presidente Sarkozy, com a presença dos 20 países mais desenvolvidos do mundo e dos banqueiros dos bancos centrais, com o objectivo de pôr alguma ordem no sistema monetário internacional, dando um papel acrescido ao Fundo Monetário Internacional, com a intenção de cumprir promessas feitas aos países mais pobres - só intenção -, não chegou a nenhuma conclusão concreta, como de costume. A China não aceitou desvalorizar a sua moeda, o yuan, como desejavam que acontecesse, em especial os Estados Unidos. Mas, em compensação, convidou os presentes para se encontrarem na China, em Shenzhen, no fim de Março, para continuarem o debate. Foi um gesto simpático, à falta do compromisso desejado pelos seus pares.

Quanto ao outro tema abordado da reunião de Paris - a alta dos preços dos produtos alimentares e do petróleo, que tanto atinge os países menos ricos -, não houve qualquer progresso. Sarkozy limitou-se a dizer (cito): "não contesto os mecanismos do mercado, mas um mercado que não tem regras não é mercado". E ficou a intenção - sempre a intenção - de reforçar os mecanismos de segurança alimentar. Como? Ninguém o disse.

Contudo, a recuperação económica, segundo um correspondente em Paris, citado por El País, "deixou para trás a grande recessão - será? - mas não corrigiu os vícios prévios à crise". Verdade que salta aos olhos. Mas os dirigentes dos países desenvolvidos - e sobretudo a União Europeia - recusam vê-la e emendá-la.

Aliás, como tenho escrito nesta coluna, algumas vezes, nunca compreendi para que servem o G20, o G12 ou o G2, a não ser para tentar apaziguar os Estados mais pobres, com promessas não cumpridas. E talvez também para marginalizar e desprestigiar a ONU, como desejava o Presidente Bush. É tempo de mudar e de os Estados ricos abrirem os olhos, quando os pobres, com acesso à informática, começam a gritar nas ruas - e não só no Magrebe e no Próximo Oriente - os seus inalienáveis direitos. É tempo de reflexão e de os Estados-membros abrirem os olhos e procederem em conformidade. Quando não se tomam as medidas necessárias, surgem, inevitavelmente, rupturas inesperadas...

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