Espectadores inocentes

Ir em baixo

Espectadores inocentes  Empty Espectadores inocentes

Mensagem por TheNightTrain em Sex Maio 20, 2011 10:32 am

Espectadores inocentes
18 Maio2011 | 14:40
Andrés Velasco



Actualmente, se andarmos de táxi em São Paulo, enfrentamos um trânsito enlouquecedor e as ruas sujas de uma metrópole de um país emergente.
Mas quando chega a altura de pagar a viagem, pode parecer que estamos em Boston, Luxemburgo ou Zurique: o valor do real brasileiro, como a divisa de muitos países emergentes, é elevado – e pode continuar a subir.

Moedas fortes tornam os países fortes, dizia um antigo político norte-americano. Muitos exportadores dos países emergentes, que têm dificuldades para manter os seus clientes nos mercados instáveis dos Estados Unidos e da Europa, pensam de forma diferente.

Durante décadas, os países em desenvolvimento sonharam com um nirvana de preços das matérias-primas muito elevados e taxas de juro internacionais muito baixas. Mas talvez os ministros das Finanças em Lima, Bogotá, Pretória e Jacarta devem-se ter sido mais cautelosos com os seus desejos. O problema? Uma invasão de fluxos de capital de curto prazo, que fugiram do crescimento lento e das baixas taxas de juro dos países avançados.

O Banco de Desenvolvimento Interamericano, reunido no mês passado em Calgary, revelou que em 2010 entraram nas sete maiores economias da América Latina 266 mil milhões de dólares. Este valor compara com uma média de menos de 50 mil milhões de dólares por ano entre 2000 e 2005. Enquanto, em 2006, apenas 37% das entradas eram capital especulativo, que pode sair a qualquer momento, no ano passado representaram 69% do total.

Assim, o que está a acontecer? Os países emergentes da América Latina, Ásia Oriental, Europa de Leste e África são espectadores inocentes na luta entre Estados Unidos e China pelas divisas e desequilíbrios comerciais. E os espectadores estão a absorver alguns dos golpes mais duros.

Na última década, a economia mundial sofreu enormes desequilíbrios globais: enormes excedentes externos em países como a China, Japão, Alemanha, Suíça e em produtores petrolíferos, igualados por défices externos igualmente grandes nos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha e outros países. Os desequilíbrios diminuíram, temporariamente, à medida que a crise financeira global provocava uma queda da procura privada nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países. Mas, no início de 2010, os desequilíbrios regressaram e, de acordo com o World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional, não deverão diminuir até 2016. O G20 tem reiterado os compromissos para “ajustar” e “equilibrar” a economia, mas as promessas não foram cumpridas.

Os problemas do sistema financeiro e os enormes défices orçamentais estão a impedir um aumento da procura interna nos países ocidentais com défices, em especial os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, uma falta de vontade para renunciar ao crescimento impulsionado pelas exportações têm o mesmo efeito nos países orientais com excedentes, em especial a China. Assim, desde o início da crise, os países emergentes têm sido obrigados a suportar “um peso desproporcionado do reequilíbrio da procura”.

Os países com excedentes acumulam enormes “stocks” de activos estrangeiros e esses recursos têm que ser investidos em algum lado. Antes da crise, uma parte significativa desse dinheiro no mercado imobiliário norte-americano, espanhol e irlandês. Actualmente, esse mercado está morto e o dinheiro deve ir para outro lugar. A Europa, afectada por uma grave crise bancária e da dívida, não é um destino atractivo, enquanto nos Estados Unidos, a política monetária norte-americana tem gerado rentabilidades extremamente baixas. Assim, muitos países emergentes, com taxas de juro elevadas e perspectivas de crescimento promissoras, tornaram-se irresistíveis para os investidores.

Após os recentes acontecimentos na Tunísia, Egipto e Líbia, os analistas de Wall Street estão menos optimistas quanto à estabilidade política dos países emergentes. Além disso, o fraco desempenho de alguns mercados accionistas da América Latina e Ásia – após um excelente 2010 – apagou um pouco o brilho do investimento no mercados emergentes. Mas o dinheiro continua a chegar.

Esta invasão de dólares está a tornar a gestão macroeconómica destes países ainda mais difícil. Se os preços das matérias-primas continuarem elevados, será desejável e inevitável um certo fortalecimento das moedas. Mas uma linha muito ténue separa um ajustamento ordenado e uma reacção exagerada dos mercados. Em muitas capitais de países emergentes, pessoas sensatas questionam se não teremos já cruzado essa linha.

A perda de competitividade das exportações, em resultado de moedas extremamente fortes, não é o único problema. A maciça entrada de capitais provocou bolhas nos mercados imobiliários e de acções nos Estados Unidos e em partes da Europa. Actualmente, alguns políticos da América Latina estão preocupados que o mesmo possa acontecer nos seus países e procuram ferramentas políticas para o impedir.

Assim, a política da Reserva Federal norte-americana, a chamada “quantitative easing”, está a deslocar-se para sul, onde assume a forma de intervenção cambial. Se os bancos centrais dos países ricos podem comprar obrigações de longo prazo, os bancos centrais dos países emergentes podem comprar obrigações denominadas em dólares. Mesmo os países com metas de inflação e que deixaram as suas taxas de câmbio flutuar – Brasil, Colômbia, Peru e Chile, por exemplo – o fizeram e em grandes quantidades.

É de esperar que as políticas macroprudenciais também sigam para sul – e que sejam ajustadas ao longo do processo. Se comprar dólares não é suficiente para deter a apreciação, os bancos centrais dos países emergentes vão levantar outras barreiras para impedir que o dinheiro entre.
Todas estas políticas têm custos. Não são as melhores respostas da política local a um mecanismo ineficiente de ajustamento (ou não ajustamento) internacional. Um melhor sistema para reequilibrar a economia mundial é tão necessário, como improvável. Só podemos esperar pelo próximo G20.




Andrés Velasco, ministro das Finanças do Chile entre 2006 e 2010, ensina política púbica na Kennedy School of Government, Universidade de Harvard.

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=485357

TheNightTrain

Pontos : 1089

Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum