O catastrofismo como catástrofe

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O catastrofismo como catástrofe

Mensagem por Viriato em Qua Ago 10, 2011 5:21 pm

O catastrofismo como catástrofe


Uma das vantagens do estudo da História, e pode ser apenas pela rama, é a de nos imunizar contra os catastrofistas. Friso o vocábulo estudo, pois há quem utilize a História apenas como tela onde projecta as suas angústias e maldições. Estes não estão a estudar, estão a consumir estupefacientes sob a forma de historietas mal contadas e pior entendidas. Utilizam o passado para antecipar o futuro, assim provando que lhes escapa o presente.

A História consiste na colecção universal das catástrofes de que há memória e indício. Como as alterações ecológicas no século XXI. Como as Guerras Mundiais no século XX. Como a escravatura nos séculos XVI, XVII e XVIII. Como a colonização do Novo Mundo. Como a Peste Negra. Como a queda do Império Romano. Como o incêndio da Biblioteca de Alexandria. Como a destruição dos meios de subsistência na Ilha da Páscoa. Como a extinção dos mamutes pela caça. Como o adeus aos dinossauros à pala de um asteróide maiorzinho. Está-me a faltar alguma? Ah, o Big Bang, essa explosão do caraças que inquestionavelmente resultou de alguma coisa ter corrido mesmo, mesmo, mesmo muito mal mesmo. Logo, conclui-se que nós somos o belo fruto destas catástrofes. Ter medo delas é como ter medo dos próprios pais.

O catastrofista não é só um inútil, é também um peso-morto e um empecilho. Possuindo entranhada até à medula a arrogância dos ignorantes, permanece incapaz de aprender seja o que for. Para ele, aprender seria mudar, e mudar seria desaparecer. Por isso persegue furibundo aqueles que estudam, experimentam, pensam. São estes os seus inimigos. A possibilidade de o futuro estar em aberto assusta-o de morte, daí a segurança que encontra na catástrofe – a segurança de ter uma certeza. E daí o conforto melífluo e secreto do catastrofista – nada ter de decidir, por nada se responsabilizar.

Estamos rodeados de catastrofistas. Muitos fazem carreira profissional nessa categoria, seja na política-espectáculo ou na falsa religião. Antropologicamente, somos impelidos a dar atenção a quem traz más notícias, pois delas pode depender a nossa sobrevivência imediata. Mas quando as más notícias são apenas a expressão de uma inteligência atrofiada, de emoções descontroladas e de uma vontade débil ou inexistente, os catastrofistas devem ser implacavelmente ignorados ou combatidos. A sua influência é tóxica, os danos que provocam são extensos e prolongados.

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