Paraty: fé, histórias e as coxas das negras

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Mensagem por Vitor mango em Qua Set 12, 2012 8:15 am


Paraty: fé, histórias e as coxas das negras





Por: Rosiane Rodrigues
em 22/11/11 13:36










Na semana em que pautas sobre negritude assolaram as redações,
por conta da Semana da Consciência Negra, fui guiada a um passeio
por Paraty. Cidade histórica, única da região a preservar sua
arquitetura colonial - mais pela dificuldade de acesso que
propriamente pela consciência dos políticos - ostenta igrejas
construídas no século XVII. A de Santa Rita, onde só entravam as
mulheres brancas, teve sua fundação, mais exatamente, em 1635. Um
lugar onde o culto e o popular se misturam e se completam.


O que encanta é que em Paraty, além de todos esses pontos
culturais e históricos - que remontam o período do tráfico do ouro
das Minas Gerais para Portugal - é a manutenção do Quilombo do
Campinho. Foi lá que aconteceu o XII Encontro de Cultura
Negra, de 18 a 20 deste mês. O evento, que contou com palestras,
seminários, muita comida, dança e alegria, homenageou três mulheres
contadoras de histórias e portadoras do conhecimento ancestral
(chamadas de
griots), que faleceram este ano. O objetivo foi o de
justamente reverenciar as memórias dessas quilombolas e propor
aos participantes uma volta ao passado para o entendimento do
presente. O legado que essas "tias e avós" deixaram sobre o
conhecimento das ervas, das danças e suas rezas curativas, deram o
tom da festa. A todo momento, o papel da mulher foi
ressaltado, tanto para a construção daquele quilombo, quanto para a
perpetuação da religiosidade trazida pelos negros d'África.


Falo isso, dessa forma meio displicente, porque o que quero
mesmo é contrapor uma outra história. Uma das que ouvi, logo na
chegada a Paraty, foi a de que as telhas das casas construídas
no período colonial eram esculpidas "nas coxas" das negras
escravas. Estávamos eu, Jefferson (professor de História) e Decione
(amiga e socióloga das boas) andando de charrete, quando o cocheiro
nos pergunta:


- Vocês estão vendo que as telhas das casas do Centro Histórico
não são iguais? Algumas são mais largas, outras mais finas...


Nos entreolhamos e meio sem entender, ele mandou:

- É que elas eram feitas nas coxas das escravas. Pegavam a
argila e faziam o molde nas próprias pernas e depois colocavam para
secar. Daí é que deve ter vindo aquele ditado de tudo que é feito
nas coxas, não presta.


Meus amigos, faiscaram. Mas, mesmo assim, não disseram uma
palavra. A conversa seguiu sobre ruas e as casas dos famosos.


Quando o passeio de charrete terminou, Jefferson me disse para
não acreditar naquela conversa. Que não seria possível fazer
milhares de telhas em coxas de mulheres e que isso é apenas uma
"lenda de Paraty". Foi Decione quem comentou:


- Olha, eu acho que isso pode até ser uma lenda, mas percebam
que também é uma forma de desqualificação... Só porque as telhas
não ficaram iguaizinhas, não prestam? O trabalho dessas mulheres,
se é que essa história pode ter um fundo de verdade, é fantástico!
As telhas já duram mais de três séculos... As lá de casa não
chegam a três anos!


As risadas superaram aquela discussão sobre a veracidade
histórica da suposta lenda. E fomos aos sorvetes!


Ao voltarmos, ainda durante a viagem, percebi o quanto de
diferença existem nessas histórias. Enquanto no Quilombo do
Campinho, a saga daquelas três mulheres, descendentes de escravos,
era reverenciada e elas, aclamadas como as grandes portadoras
da cultura e da vida da comunidade, na cidade apenas as coxas das
negras eram lembradas.


*
Quilombo, para refrescar a memória, é o local para onde
africanos escravizados, libertos ou fugidos, tentavam construir
suas vidas longe da escravidão. Muitos deles, como o de Palmares,
teve sua fundação muito antes da Abolição, em 1822. Os quilombos,
por essência, se afirmaram como comunidades de resistência, de
perpetuação das culturas e religiosidades africanas e como refúgio
ao escravagismo. Admitiam não apenas africanos de dezenas de etnias
e seus descendentes, mas também indígenas e algumas pessoas que se
mantinham à margem da sociedade. Como se pode imaginar, os
quilombos foram locais onde muitas culturas, interpretações e
sociedades conviveram e coexistiram. E os que sobreviveram,
perpetuaram essa diversidade.

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Só discuto o que nao sei ...O ke sei ensino ...POIZ
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