Arthur Bispo do Rosário: inventário antes do apocalipse

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Mensagem por Vitor mango em Ter Dez 04, 2012 9:59 am

Arthur Bispo do Rosário: inventário antes do apocalipse






A três dias do Natal de 1938, Arthur Bispo do Rosário, um
nordestino, negro e semi-analfabeto, empregado numa família burguesa do
Rio de Janeiro, acordou e foi ter com o patrão: recebera uma missão de
Deus. Crendo-se guiado por anjos, saiu então pelas ruas até ao Mosteiro
de São Bento, o mais antigo da cidade, onde comunicou aos monges que ia
conduzir a Igreja até chegar o apocalipse.

A polícia deteve-o como indigente. Levaram-no para um hospício aos
pés do Pão de Açúcar e um mês depois para a Colónia Júlio Moreira, em
Jacarepaguá, periferia do Rio. Aí ficou por 50 anos, diagnosticado como
esquizofrénico paranóico. Era o número 01662 do Pavilhão 11 (doentes
perigosos). Ao morrer, em 1989, deixou mil obras em tecido, cartão,
lata, couro, todos os materiais a que teve acesso.

Hoje, é um dos nomes mais relevantes da arte contemporânea
brasileira, como se pode ver na 30º Bienal de São Paulo, até 9 de
Dezembro. Ocupando o coração do mítico edifício de Oscar Niemeyer, a
montagem de mais de 300 obras de Bispo do Rosário é o íman da bienal.

Para quem sobe a rampa ao centro, a primeira diferença em relação a
2010 é a depuração visual. Num espaço sempre tão fervilhante, o
venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador de 2012, favorece o recolhimento:
menos artistas, e separados por divisórias brancas. Esta rarefacção só
acentua o impacto das obras de Bispo, quando o visitante chega a meio do
primeiro piso. É como avistar de repente a feira da ladra ou o sotão de
uma casa: lençóis, colheres, peúgas, caixas de sabão, o estendal de uma
vida. Mas tudo o que era útil foi martelado, amassado, pintado,
composto, bordado com milhares de palavras em fio azul (desfiado do
uniforme do hospital), até se tornar oferenda, totem. Talvez seja,
afinal, um Génesis.





Arte e loucura



Van Gogh ou Artaud são exemplos recorrentes da relação entre arte e
loucura. Grandes artistas foram grandes por terem sido loucos ou a arte
foi aquilo que neles resistiu à loucura? Um louco não é artista por ser
louco, tal como um artista não é louco por ser artista, mas é possível
ignorar na arte de Bispo do Rosário a sua loucura? Diferentes respostas
têm sido dadas desde a sua revelação ao mundo, ainda em vida.

As biografias admitem duas datas de nascimento, 1909 e 1911, em
Japaratuba, Sergipe, um dos estados mais pobres do Brasil. Descendente
de escravos, Bispo era um homem fisicamente possante. Foi campeão de
boxe, operário da Light (a companhia de electricidade) e marinheiro, o
que o fez chegar ao Rio de Janeiro.

Já no fim do seu internamento desenvolveu um amor platónico pela
estagiária de psicologia Rosângela Maria, nome que passou a integrar
várias das suas obras, ao longo dos três anos em que mantiveram
contacto.

Foi nessa fase, 1982, que Frederico Morais organizou no Museu de Arte
Moderna do Rio uma colectiva integrando obras de Bispo. Passou depois a
inventariá-las, e quando o artista morreu, em 1989, organizou a
primeira exposição individual, no Rio, e logo depois em Estocolmo.
Deverá lançar em breve o livro “Arthur Bispo do Rosário: Arte além da
loucura”. Quando a actual bienal abriu, em Setembro, disse ao jornal
“Globo” que falar dos 50 anos de internamento do artista “não o diminui,
pelo contrário, mostra sua força”.

Curador do Museu Bispo do Rosário, no antigo hospício de Jacarepaguá,
e responsável pela montagem das suas obras na bienal, Wilson Lázaro
ressalvou: “Não quer dizer que não tenha sido louco, tinha surtos. Mas
não criou a obra a partir da loucura. A obra é vista como um sintoma de
doença, mas ela é um sintoma de saúde.”

Depois da Suécia, a expansão de Bispo continuou na Bienal de Veneza
de 1995. Paris acolheu uma exposição em 2003, no Jeu de Paume, e Londres
deu-lhe destaque no Victoria and Albert Museum durante as Olimpíadas de
2012, a mesma exposição que agora está no Museu da Cidade, em Lisboa
(ver caixa).



Moderno involuntário



“Bispo é o eixo transversal cortando as galerias”, resume ao PÚBLICO
o curador Luis Pérez-Oramas, na sua sala dos bastidores. Numa bienal
centrada em “obras que têm a ver com a linguagem e a sua relação com a
imagem”, Arthur Bispo do Rosário representa “um grande artista que
encarna um problema teórico, estético e histórico”: a dimensão
involuntária da arte. Ser moderno é querer ser moderno? “Bispo é um caso
assim, alguém que não tem como projecto sê-lo, mas é. No caso dele, a
questão complica-se pelo caso clínico. Mas eu queria tratar de vê-lo
como um artista, um projecto que responde a uma necessidade humana. Não
creio que a obra de Bispo dependa da sua loucura. A grandeza e o impacto
do que fez são testemunhos de uma inteligência que vai muito além das
circunstâncias clínicas. É mais uma prova de como a inteligência convive
com a loucura e quiçá a loucura é uma forma de exacerbação da
inteligência.”

Pérez-Oramas acredita que é preciso encarar Bispo como “uma das grandes produções simbólicas brasileiras do fim do século XX”,
com “efeitos transcendentes e transformadores a partir dos anos 90”,
incluindo todo “um conjunto de artistas que respondem à sua obra”.

“Um dos desafios desta bienal é abrir o
espaço da arte além da disciplina. Dizer que a arte não tem outro
sentido que não seja estar além da arte: na vida, na política. Então,
era fundamental trazer figuras de fora da arte, ter nomes que escapam ao
estereótipo da arte brasileira Hélio Oiticica-Lygia Clark-Lygia Pape,
enormes artistas mas que de nenhuma forma dão conta da complexidade da
cena artística brasileira.”

Nesse sentido, explica, a escolha de Bispo como eixo transversal
corresponde a “uma estratégia” triangular, de que os outros dois
vértices são Waldemar Cordeiro (1925–1973), pintor que evoluiu para um
trabalho em computador, e o fotógrafo Alair Gomes (1921–1992), que
construiu uma apoteose do corpo masculino, captado furtivamente ou como
modelo nu.

“Eles produziram a sua obra sempre nas
margens, numa economia dos limites. Waldemar porque sempre atravessou os
limites que ele mesmo estabelecia. Alair porque trabalhava no
voyeurismo, no olhar a partir da margem — foi assassinado por um dos
seus modelos. E o Bispo porque trabalhava fora dos limites da arte.”

Esta 30ª Bienal é política nesse sentido. “Estar contra o mercado é
tão tonto como estar contra a chuva. Mas daí a aceitar o mercado como
único regulador vai um passo abissal. A nossa responsabilidade como
curadores é que o valor simbólico gere o económico, e não o contrário.
Tratar de produzir um olhar que identifique o valor intrínseco para uma
comunidade.” As bienais têm assim, crê este curador, uma missão: “Buscar
a via entre a economia da arte e a consagração narrativa produzida pelo
museu. Uma zona onde as questões não estejam resolvidas, onde a
discussão exista como magma.”



Fracasso, pobreza



“Sempre me fascinaram os artistas que
produzem uma obra apesar do fracasso ou assumem o fracasso como
destino”, diz Pérez-Oramas. “A ideia de fracasso é fundamental na
história da arte, fruto de grandes obras desde sempre. A grande
literatura não é senão o grande fracasso humano. A banalização da arte
que produz o mercado gera uma ideologia que permite manter as coisas
como estão. O mercado faz-nos esquecer que a boa arte tem de enfrentar
cara a cara o fracasso. O festejo é perigoso porque perde o sentido
crítico. Também por isso quisemos ter na bienal artistas do Recife ou do
Pará, fora de São Paulo e do Rio.”

Depois o mercado fará o seu trabalho. “Sempre põe a obra onde deve,
porque quer o que vai sobreviver. E é importante que os artistas vivam
das obras, que existam boas galerias. Como também é importante que
saibam produzir outro olhar.”

E onde entra essa ideia forte da actual bienal, cruzar imagem e
linguagem? “A imagem está sempre pronta a produzir linguagem e
vice-versa. E toda a linguagem que quer abraçar a realidade vai terminar
por ser imagem. A imagem é algo que nos pertence como animais. Imagem
como corpo: tecidos, fios.”

Voltando ao estendal de Bispo do Rosário, nada será tão esmagador
como o tempo que ele gastou a desfiar os uniformes azuis do hospício, e
depois a bordar milhares de letras, que são todo um inventário de
países, profissões, nomes, datas. Quem seria “Antonio Rodrigues.
Pugilista português. 1929”? E Aníbal Fernandes? E comandantes de navio,
entregadores de pão, manobreiros de ônibus, pedreiros? E não apenas
letras: bandeiras, pessoas, casas, caminhos, tudo minuciosamente bordado
nos lençóis do hospício, agora suspensos do tecto como estandartes.

Parece uma tarefa para Deus, anotar todos os humanos. Por baixo de
uma figura, Bispo escreveu: “Eu preciso destas palavras escritas.”

Listas pobres (telhas, pratos de alumínio, cotonetes, capacetes,
fósforos, garrafas). Quadros pobres, feitos de fichas de ônibus, de
botões. Latas de talco, embalagens de margarina, uma tela de gravatas,
outra de pentes de plástico, outra de toalhas de rosto encardidas. A
cama de tamanho quase infantil que parece uma nau de noivado, com tiras e
fitas tombando de um varão. E o “Manto de Apresentação”, com os seus
bordados, os seus cordéis, preparado para o Apocalipse, para chegar
a Deus.



(Público, 29 de Novembro de 2012)






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