europeu da Grã-Bretanha

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europeu da Grã-Bretanha

Mensagem por Vitor mango em Qui Dez 06, 2012 1:44 pm

europeu da Grã-Bretanha

Tony Blair

06/12/2012 - 17:43

A Europa tem perturbado e dividido a política
britânica durante anos. Mas agora a maioria dos políticos do partido no
governo defende abertamente que a Grã-Bretanha abandone a União
Europeia, ou que mude radicalmente a relação que tem com a União – o que
pode querer dizer quase a mesma coisa – contando com a simpatia de
alguns dos líderes da nossa nação e um muito maior apoio do público.

A razão para o ressurgimento do cepticismo e
hostilidade relativamente à UE não é difícil de sondar. A Europa está em
crise. O erro de concepção do euro – uma união económica motivada por
razões políticas mas com uma expressão económica – tornou-se evidente.
Mudanças estruturais nas economias que experimentaram uma queda abrupta
nas taxas de juro quando se uniram a um bloco monetário dominado pela
Alemanha devem agora ser feitas rapidamente, em crise, e sem o luxo de
uma desvalorização monetária.
Com a Europa em crise, é popular ser
antieuropeu. Mas a liderança não deve consistir em concessões a
políticas de curto prazo. Deve consistir em gerir as políticas de curto
prazo, na prossecução da melhor política de longo prazo.
Na
verdade, hoje em dia a razão de ser da União Europeia é mais forte, e
não mais fraca, do que era há 66 anos, quando se iniciou o projecto. Mas
é diferente. Nessa altura, a razão de ser era a paz; hoje, é o poder. A
China tem uma população três vezes maior do que a da UE e uma economia
que acabará por se tornar a maior do mundo. A Índia tem mais de mil
milhões de habitantes. A Indonésia tem o triplo da população do maior
país europeu e uma série de outros países – incluindo a Rússia, o
Brasil, o México, o Vietname, as Filipinas e o Egipto – têm hoje mais
habitantes do que qualquer Estado-membro da UE.
Isto é crucial,
porque, à medida que a tecnologia e o capital se tornam globalmente
móveis, irá ocorrer um realinhamento do PIB e da população: quanto maior
for a população de um país, maior será a sua economia. Os Estados
Unidos permanecem extraordinariamente fortes, sendo o seu exército de
longe o maior e o mais bem equipado do mundo, mas o seu estatuto como
única superpotência do mundo tornar-se-á insustentável.
Este é o
cenário global. A questão actual para a UE é que os países-membros,
incluindo a Grã-Bretanha, precisam do seu peso de modo a alavancar poder
na economia, no comércio, na defesa e na política externa, bem como
abordar desafios globais como a mudança climática. A UE dá
colectivamente à Grã-Bretanha um peso que esta não possui sozinha.
É
realmente tão simples como isso: num mundo onde tanto a China como a
Índia têm populações 20 vezes maiores que a do Reino Unido, a
Grã-Bretanha precisa da UE de modo a perseguir eficazmente o seu
interesse nacional. Com a União, pesamos mais; sem ela, pesamos menos. E
se queremos participar na Europa, devemos fazê-lo como europeus, o que
depende da Grã-Bretanha reconhecer não somente a razão de ser
estratégica da Europa, mas também do interesse estratégico da
Grã-Bretanha em ser parte da Europa.
Por isso já não é suficiente para nós, pró-europeus, clamarmos que só os atávicos Pequenos Ingleses (NdT:
Little Englanders no original; termo aplicado aos ingleses que não vêem
com bons olhos as influências estrangeiras no seu país
) defendem o abandono da União, ou fingirmos que, fora da UE, a Grã-Bretanha colapsaria ou se desintegraria. A Grã-Bretanha poderia ter um futuro fora da Europa. A questão é se deveria tê-lo – e se o abandono seria sensato à luz dos interesses de longo prazo da Grã-Bretanha.
Comecemos
por demolir uma ilusão, nomeadamente que a Grã-Bretanha poderia ser
como a Noruega ou como a Suíça. A Noruega tem uma população de cerca de
4,9 milhões e um PIB de 485,8 mil milhões de dólares. Também possui um
fundo soberano, actualmente valorizado em mais de 600 mil milhões de dólares
e que se prevê que venha a crescer até 1 bilião de dólares em 2020,
devido às vastas reservas de petróleo e de gás natural. Se o Reino
Unido, com um PIB de 2,4 biliões de dólares, tivesse um fundo soberano
de cerca de 3 biliões de dólares, todos os argumentos mudariam. Mas não
tem. E não se pode defender seriamente que a Grã-Bretanha pudesse ser
como a Suíça, que é um caso único do ponto de vista político e
económico.
A Grã-Bretanha fora da UE enfrentaria três desvantagens
importantes. Primeiro, perderia o seu papel de liderança global. Não
pode haver ilusões a este respeito. Pensarmos que procuraria novas
relações com países como a China ou a Índia é rebuscada. Nenhum país
subordinaria alguma vez a sua relação com a Europa a uma relação com uma
Grã-Bretanha não-europeia.
Em segundo lugar, deixar a UE
excluiria a Grã-Bretanha do processo de tomada de decisão que determina
as regras do mercado único. As empresas britânicas sabem isto, assim
como as empresas globais que usam o Reino Unido como base europeia.
Finalmente,
a Grã-Bretanha perderia a oportunidade de cooperação e de uma força
acrescida em temas que lhe interessam – por exemplo, na mudança
climática, nas negociações comerciais, na política externa e nas
disputas bilaterais – numa altura em que outros aproveitam as
oportunidades oferecidas pela integração regional. Desde a Associação
das Nações do Sudeste Asiático – que agora conta com cerca de 600
milhões de pessoas e que procura estabelecer um mercado único – até à
União Africana e o MERCOSUR e UNASUR da América do Sul, países de todo o
mundo agregam-se em blocos regionais. Irá a Grã-Bretanha afastar-se do
bloco que está à sua porta?
Sejamos claros, também, sobre
“renegociar as condições da adesão”. Se a Grã-Bretanha se centrar nos
próximos anos não em como ajudar a Europa a recuperar e a prosperar, mas
antes em como mudar a sua relação com a Europa, não podem haver dúvidas
sobre o temperamento e o sentimento que os nossos actuais parceiros
trarão para essa negociação. A Grã-Bretanha não deverá percorrer este
caminho se não estiver preparada para percorrê-lo até às últimas
consequências.
Em 1946, quando a Europa debatia os seus primeiros passos no sentido da integração, Winston Churchill fez o seu famoso discurso
clamando por uns Estados Unidos da Europa, que ele acreditava ser o
caminho para a paz depois dos horrores da guerra. Ele desejou que o
projecto fosse bem-sucedido; mas não pretendia que a Grã-Bretanha
fizesse parte dele. Por isso, não fez.
Mas a Grã-Bretanha passou
as próximas duas décadas tentando unir-se a esse projecto; e quando
finalmente o conseguiu, muitas das regras e da infra-estrutura
institucional já eram inflexíveis. Não tenho dúvidas de que se
pudéssemos ter previsto o futuro em 1946, teríamos querido fazer parte
da Europa desde o início.
A Europa é um destino que a Grã-Bretanha
nunca abraçará facilmente. Mas fazê-lo é essencial para continuar a ser
uma potência mundial, política e economicamente. Seria um erro
monumental de estadismo virar as nossas costas à Europa e abandonar uma
posição crucial de poder e influência no século XXI.
Traduzido do inglês por António Chagas/Project Syndicate

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