Israel: Memórias de uma ilusão fatal

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Israel: Memórias de uma ilusão fatal

Mensagem por Vitor mango em Seg Dez 10, 2012 1:54 am

Israel: Memórias de uma ilusão fatal





04.12.2012






Paula Sacchetta entrevista Gerson Knispel, O Estado de S.Paulo, 25 de novembro de 2012

Artista plástico que chegou à Palestina
em 1935 diz que é preciso acabar 'com essa história de Israel grande' e
derrubar 'o muro da vergonha'

Paula Sacchetta entrevista Gerson Knispel, O Estado de S.Paulo, 25 de novembro de 2012

Toco a campainha da casa em Santana
algumas vezes, mas com a música clássica em alto e bom som, que dá pra
escutar do lado de fora, ele certamente não deve ouvir meu chamado. É o
ateliê de Gershon Knispel, artista plástico, de 80 anos. Telefono e ele
vem abrir a porta. Vai logo baixando o som, "desse jeito não dá nem pra
conversar, mas a música é minha inspiração, sem ela não consigo
trabalhar". Ele mora em um apartamento em Higienópolis com a namorada,
mas passa o dia no ateliê.



















De origem judaica, Gershon nasceu em
Köln, na Alemanha, em 1932 e, aos 3 anos, mudou-se para a Palestina.
Muitos acreditaram que Hitler não duraria tanto, mas seu pai sabia que
aquele que havia chegado ao poder pelo Partido Nacional-Socialista em
1933 seria uma ameaça à família. E assim, na Palestina, entre árabes e
judeus, começa a vida e a formação do simpático velhinho que hoje afirma
ser "um pintor de protesto". Tudo que viveu permeia nossa conversa e
nos rodeia em pinturas e gravuras espalhadas pelo sobrado de tijolo
iluminado por luz natural. Entre quadros e aquários, ele me recebe com
uma camiseta preta na qual dá para enxergar a etiqueta para fora com
letras em hebraico. No momento está organizando sua obra para um livro
que deve sair em abril, mas diz que odeia tudo que o faz parar de
pintar. Humanista e humanitário, afirma que sua rotina é reagir. Um dos
pioneiros na chegada dos judeus à "terra prometida", explica como
testemunha da história a origem dos conflitos de hoje, nos quais judeus e
árabes continuam se matando entre mísseis, homens-bomba e assassinatos
seletivos.

A hostilidade de um gueto
"O grande erro naquela terra foi que os primeiros judeus que chegaram,
russos e poloneses principalmente, vieram com uma cultura de gueto.
Chegaram sentindo-se ameaçados e assim se isolaram. Cercaram suas casas
com muros de madeira, pedras, sacos de areia. Compravam terras dos
fazendeiros árabes endinheirados, os efêndis, que não avisavam os
camponeses que nelas trabalhavam e iam embora para a Europa. Nelas, os
judeus faziam os kibutzim (kibutz no plural), com muros, todos cercados.
E foram, aos poucos, criando uma atmosfera hostil. Construíam torres,
diziam que era para a caixa d'água, mas eram torres de vigilância.
Tiravam as pedras e as usavam para cercar e delimitar o território de
cada um. Expulsavam camponeses que trabalhavam nas terras e as cercavam.
Esses pioneiros chegaram sem disposição para criar qualquer vínculo com
aqueles que já moravam ali. Os alemães, que chegaram pouco depois, eram
mais abertos, mas aí já era tarde.

Um outro povo na terra
"A partir desse choque e desse antagonismo foi surgindo um nacionalismo
árabe. Os judeus recém-chegados tinham sindicatos e organizações, e os
árabes, que começaram a se sentir mais fracos, queriam organizar-se
também - e o fizeram. Além disso, a língua falada nas ruas passou a ser o
hebraico e até o iídiche foi liquidado, pois era preciso fortalecer uma
espécie de orgulho nacional. Toda uma cultura forte que existia na
região foi ignorada e praticamente desapareceu. Quando cheguei à
Palestina não conseguia falar hebraico direito. Falava alemão na rua e
era chamado de nazista pelas outras crianças judias. Já com os vizinhos
árabes a coisa era diferente: as casas deles estavam sempre com as
portas e janelas abertas, não tinham muitos móveis, mas eram cheias de
tapetes e almofadas onde podíamos nos encostar e deitar. As casas tinham
mosaicos de azulejos coloridos e fontes no quintal. Era diferente da
minha própria casa, onde a gente entrava com os pés sujos de lama e
tomava bronca da mãe. Eles recebiam bem quem chegasse. Eu me comunicava
com eles em árabe, o pouco que aprendi na rua com as outras crianças.
Para mim já era claro: não haveria futuro se nos fechássemos. E eu
queria me adaptar. Minha família se estabeleceu em Haifa, uma cidade
portuária, de pequenas praias, e como meus pais não tinham muito
dinheiro, ficamos na parte mais pobre da cidade. Todos os meus vizinhos
eram árabes. Quando chegamos já havia outro povo na terra, não era um
deserto. Tinha um povo que era nosso irmão e precisávamos respeitá-lo. E
também eram donos daquela terra.

Dividir para reinar
"Nos anos 1930, judeus intelectuais da Palestina fundaram uma
organização política, a Brit Shalom, que pregava a coexistência pacífica
entre judeus e árabes. Era a primeira tentativa de negociação de paz na
região. Pregavam que o maior inimigo era o mandato britânico e que os
palestinos, árabes e judeus, precisavam se juntar pela paz permanente e
tirar os ingleses da terra. Lutavam pelo estabelecimento de um Estado
binacional onde árabes e judeus tivessem direitos iguais. Abdicavam do
sonho sionista da criação de um Estado puramente judeu. Mas não
conseguiram, pois já estava enraizada toda uma infraestrutura para
tornar Israel um Estado judeu. O Grande Levante Árabe de 1936, que chega
até nós, hoje, como um levante contra o povo judeu, era contra a
Inglaterra e seu mandato na Palestina, contra o domínio colonial. Para
piorar a situação, David Ben Gurion, que viria a ser o primeiro
primeiro-ministro de Israel, inventou o conceito de 'trabalho judaico'.
Os camponeses expulsos de suas terras e sem trabalho nas cidades, já que
judeus só empregariam judeus, começaram a sentir mais raiva ainda. Os
conflitos começaram a se aprofundar e a Inglaterra, obviamente, usava
isso a seu favor. Dividindo os povos, poderia dominar mais facilmente.
Em vez de nos juntarmos, nos separamos. Ben Gurion chegou à Palestina em
1908, e os judeus alemães, mais 'abertos' à convivência com os
palestinos, só nos anos 1920 e 30.

O primeiro choque

"Sou da chamada 'geração de 1948′. Participei de cinco guerras como
oficial do Exército, mas foi em 1953 que tive meu maior choque, que foi a
morte de todo aquele idealismo pra mim. Aos 12 fui morar em um kibutz
socialista ao norte de Israel. Meus pais ficaram em Haifa e fui recebido
por Shlomo e Tzilla Rozen. Eu era do Mapam, o partido socialista
sionista em 1953, quando um amigo me levou para visitar Nazaré. Passamos
por um hotel para peregrinos que se chamava Casa Nova. Fiquei
horrorizado. O hotel era sujo, tinha um cheiro horrível de urina e muita
gente e colchões amontoados nos quartos. Comecei a andar pelos
corredores e vi que conhecia a gente que estava ali. Eles eram de
Maalul, um dos centenas de vilarejos tirados do mapa e apagados por
Israel depois de 1948. Eles confirmaram que eram de lá, também me
conheciam e estavam esperando, me disseram. Estavam naquela situação
havia mais de cinco anos. Esperando o quê? Nas guerras contra o mandato
britânico seus vizinhos do kibutz, o mesmo onde eu morava, os tiraram da
aldeia para protegê-los, disseram. Eles ficariam longe de casa durante a
guerra, mas voltariam depois, sãos e salvos. Cinco anos haviam se
passado e eles continuavam esperando. Fiquei com raiva. Voltei ao kibutz
e perguntei a Shlomo o que significava aquilo. Contei tudo que havia
visto em Nazaré. Ele ficou branco e me respondeu: 'Você conhece Ben
Gurion? Ele é impossível. Não deixa que devolvamos as aldeias aos
árabes'. Mas essas aldeias ainda existem?, perguntei. E ele: 'Não vamos
entrar em detalhes'. Mas por que então ele fazia parte do governo de Ben
Gurion (Shlomo era ministro da Imigração)? 'É melhor assim porque sem
ele ficaremos pior', respondeu. Rasguei a carteira do partido na cara
dele e saí sem me despedir. Entrei no Partido Comunista logo depois.

Brasil, um painel e um passaporte
"Em 1958, Nina, que tinha sido minha namorada em Israel e veio para o
Brasil com a família, me avisou de um concurso promovido pela TV Tupi
para a execução de um mural no prédio deles. Eu já era artista plástico.
Me inscrevi, mandei os croquis e venci. O painel ainda está lá: são
índios de 7,5 metros de altura, no lugar mais alto de São Paulo, no
Sumaré, onde hoje funciona a MTV. Uma vez no Brasil, me juntei ao
pessoal do CPC, Centro Popular de Cultura, o Guarnieri, o Juca de
Oliveira, o Augusto Boal e, entusiasmado com eles, fui ficando. Fiz uma
gráfica para imprimir gravuras. O Brasil se tornou minha pátria também.
Me juntei ao Partido Comunista com Mário Schenberg, Villanova Artigas e
Oscar Niemeyer, que se tornou um amigo próximo. O prédio da MTV foi
tombado recentemente, recebi a notícia com muita alegria. É uma garantia
de que aquilo será preservado. Em 1964, no dia seguinte ao golpe
militar, já comecei a ser procurado. Estava envolvido demais com o
Partido Comunista e o CPC, era perigoso para eles. Peguei um cachimbo,
tabaco, um passaporte e um talão de cheques e fui atrás de gente do
Mapam, aquele mesmo partido do qual eu havia rasgado a carteirinha, em
São Paulo. Tínhamos divergências, mas numa hora dessas eles precisavam
me ajudar. Me transferiram para o Rio, onde ficava a Embaixada de
Israel. Fiquei lá alguns dias e arranjaram um voo para Israel. De 1964 a
1986 morei em Haifa e trabalhei como conselheiro de arte da prefeitura.
Em 1986, virei presidente do conselho dos artistas plásticos de Israel.
Em 1987, 20 anos depois da Guerra dos Seis Dias, fizemos uma exposição
com 67 artistas, metade árabes e metade judeus, contra a ocupação
israelense de terras palestinas. Voltei ao Brasil em 1995 e fiquei.

Reféns de um Estado distante
"O problema é que a política do Estado de Israel, desde sempre, foi de
derrubar tentativas de negociação de paz, pois eles não queriam um
Estado palestino ou um Estado binacional. Nós, da geração de 1948,
chegamos à conclusão de que a grande euforia por um Estado não levou em
conta que iríamos nos tornar um país ocupante e, com o tempo, um país
baseado nos princípios fascistas mais radicais. Temos agora uma bomba
atômica e um muro de 650 quilômetros de extensão e 8 metros de altura.
Nos jornais dos últimos dias, senti uma tristeza enorme ao ver fotos de
israelenses procurando abrigo nas ruas das cidades bombardeadas. Afinal,
os mísseis e foguetes que saíram de Gaza não passaram por cima do muro?
Então para que ele serve? Serve para separar famílias, tornar o caminho
dos palestinos mais difícil, e eles já estão fartos disso. Um pacifista
israelense, Gershon Baskin, disse que o assassinato de Ahmed Jabari,
líder militar do Hamas, foi um 'erro estratégico'. Não foi um erro
estratégico, é a estratégia de sempre. A estratégia é não querer a paz.
Yitzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel em 1974-1977 e 1992-1995) e
Yasser Arafat (líder da Autoridade Palestina) representavam os maiores
perigos para Israel, pois eram capazes de estabelecer uma paz de fato na
região. Rabin foi morto por um judeu ortodoxo de extrema direita e
Arafat terá seu corpo exumado ainda este mês porque suspeita-se que ele
tenha sido morto por exposição a substâncias radioativas pelo serviço
secreto israelense. Quando começaram esses últimos ataques jovens saíram
às ruas aqui em São Paulo, na Av. Paulista, para protestar contra o
Hamas. Eu me pergunto, o que eles estão fazendo? Aqui, por serem judeus,
ficam reféns de um Estado que pratica essas atrocidades. Não têm o
direito de votar lá, mas assumem, aqui, os crimes deles.

A ilusão final

"Manter Israel como é mantido hoje, como uma coisa única e completa, é
suicídio. Hannah Arendt, em seu relato sobre o julgamento de Adolf
Eichmann, nazista executado nos anos 1960, criticou a tendência dos
israelenses de fazerem uma expansão desenfreada, criando uma situação em
que todos os esforços se concentram em armas, transformando a cultura e
o Estado 'modelo' que eles queriam em uma ilusão fatal. Quanto tempo,
perguntou ela, vai durar um Estado que só sobrevive à base da força?
Precisamos acabar com essa história de Israel grande, precisamos
devolver os territórios ocupados e derrubar o muro da vergonha. Nossa
geração, que achava que estava libertando o Oriente Médio do
colonialismo, percebeu que aquilo era uma ilusão. Em 1956, na Guerra do
Suez, eu era paraquedista e fui enganado. Derrubamos o projeto do Nasser
para nacionalizar o Canal de Suez, que era legítimo. Achei que estava
ajudando, mas foi uma aventura colonialista ao lado da Inglaterra e da
França. Hoje somos usados de novo: Israel é o maior parceiro das
aventuras imperialistas norte-americanas no Oriente Médio. E eu não paro
de falar, escrever e pintar. Não paro porque é um bom jeito de ficar
vivo."



http://outrapolitica.wordpress.com/2012/11/27/israel-memorias-de-uma-ilusao-fatal/#more-37109

Israel: Memórias de uma ilusão fatal

Publicado em novembro 27, 2012 por Outra politica

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Re: Israel: Memórias de uma ilusão fatal

Mensagem por Vitor mango em Seg Dez 10, 2012 1:59 am

Manter Israel como é mantido hoje, como uma coisa única e completa, é
suicídio.

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