Adeus, Médio Oriente?

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Adeus, Médio Oriente?

Mensagem por Vitor mango em Qui Dez 13, 2012 9:10 am

Adeus, Médio Oriente?

















Zaki Laïdi


12/12/2012 - 17:01















Desde há algum tempo a esta parte tem ganho força uma
certa visão estratégica: os Estados Unidos estão a tornar-se
independentes em termos energéticos, abrindo o caminho para a sua
retirada política do Médio Oriente e justificando a sua "rotação"
estratégica no sentido da Ásia. Esta perspectiva parece intuitivamente
correcta, mas será mesmo assim?

A
fome de energia da América depende desde há muito do mercado global
para satisfazer a sua procura interna. Em 2005, os EUA importaram 60% da
energia que consumiram. Desde então, no entanto, a proporção de energia
importada diminuiu, e essa tendência deve continuar. Espera-se que os
EUA se tornem auto-suficientes em termos energéticos em 2020, e que se
transformem num exportador de petróleo em 2030.
Este
cenário proporcionaria aos EUA três vantagens enormes. Melhoraria a
competitividade económica dos EUA, especialmente no que respeita à
Europa, dados os menores custos envolvidos na extracção de petróleo a
partir do xisto betuminoso. Também diminuiria a exposição da América ao
crescente desconforto no mundo árabe. Finalmente, aumentaria a
vulnerabilidade do principal rival estratégico da América, a China, que
se está a tornar cada vez mais dependente dos fornecimentos de energia
do Médio Oriente.
É óbvio que estes factos necessitam de ser
seriamente encarados, mas as suas implicações para a política externa
dos EUA no Médio Oriente não devem ser elaboradas precipitadamente.
Acima de tudo, embora a dependência energética seja um elemento-chave da
política dos EUA na região, está longe de ser o único factor. A
segurança de Israel e o desejo de conter o Irão são igualmente
importantes.
Aliás, o papel do Médio Oriente na geopolítica
energética global aumentará de importância nas próximas décadas,
tornando difícil perspectivar que uma superpotência como os EUA possa
simplesmente afastar-se da região. Nos próximos 15 anos, os países da
OPEP serão responsáveis por 50% da produção global de petróleo,
comparado com os actuais 42%. Além disso, o país onde este aumento
provavelmente mais se baseará será o Iraque.
Poderiam os EUA
ignorar um país que, em cerca de 10 anos, se tornará o segundo maior
exportador de petróleo do mundo, gerando anualmente mais de 200 mil
milhões de dólares em receitas, sendo ao mesmo tempo cada vez mais
dominado por um regime xiita autoritário que está próximo do Irão?
Retirar-se-iam, perante a consequente ameaça estratégica aos seus três
aliados – Arábia Saudita, Turquia e – na região?
Uma tal
possibilidade parece ainda mais longínqua enquanto a crise nuclear
iraniana permanecer irresoluta e a crise síria continuar a alargar a
divisão existente na região entre xiitas e sunitas (reflectida numa
tensão crescente entre a Turquia e o Irão). Mesmo quando o Presidente
dos EUA, Barack Obama, visitou a Ásia em Novembro – uma viagem com o
objectivo de sublinhar a "rotação" da América – foi forçado a investir
tempo e atenção consideráveis a mediar um cessar-fogo em Gaza, entre
Israel e o Hamas.
De facto, se o petróleo fosse realmente o único
ou o mais importante interesse da América no Médio Oriente, a sua
relação especial com Israel seria incompreensível, devido aos danos que
provoca aos interesses dos EUA relativamente aos exportadores de
petróleo árabes. Mesmo no apogeu da sua dependência energética
relativamente ao Médio Oriente, os EUA raramente alteraram a sua
política de apoio a Israel.
Também é importante manter em mente
que, em 1973, os EUA sofreram menos com o embargo de petróleo da OPEP do
que a Europa, embora a América, que apoiara Israel na sua guerra com o
Egipto e a Síria em Outubro desse ano, fosse o alvo principal. Em última
instância, a posição dos EUA na região ficou fortalecida, depois de o
Egipto se ter tornado um aliado de Washington e ter feito a paz com
Israel.
O crescente interesse da China no Médio Oriente também
diminui a probabilidade de uma retirada norte-americana. Os EUA
permanecerão preocupados em garantir a segurança dos fornecimentos de
energia aos seus aliados asiáticos, que, como a China, estão cada vez
mais dependentes dos exportadores de petróleo da região.
Não
obstante, mesmo que um abandono americano do Médio Oriente pareça
altamente improvável, a exposição dos EUA à região deverá na verdade
decrescer; à medida que isso for acontecendo, o papel da América na zona
tornar-se-á provavelmente mais moderado – e talvez mais cínico. O seu
envolvimento no conflito israelo-palestiniano será provavelmente
limitado à manutenção do status quo, mais do que à procura de um acordo global.
Esta
postura - sugerida pela oposição da América em conceder à Palestina o
estatuto de Estado observador nas Nações Unidas - poderia ser
considerada como uma admissão, por parte dos EUA, que teriam desistido
da criação de dois Estados no Médio Oriente. Isso satisfaria certamente o
primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e a facção palestiniana
que procura enfraquecer a Autoridade Palestiniana. Mas vingaria
completamente aqueles que acreditam que Obama é mais um homem de boa
vontade do que um visionário.



Traduzido do inglês por António Chagas/Project Syndicate

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