Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro

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Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro

Mensagem por Vitor mango em Dom Fev 03, 2013 1:29 am

Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro



Filha do atual presidente de Cuba, a ativista pelos direitos gays falou sobre as polêmicas UMAPs



Mariela Castro Espín conseguiu se libertar da herança familiar.
Sobrinha de Fidel Castro, líder histórico da Revolução Cubana, e filha
de Raúl Castro, atual presidente de Cuba, Mariela ganhou reconhecimento
internacional não graças ao sobrenome, mas sim pela ação a favor do
direito à diversidade sexual.

Cubadebate

Mariela Castro: em Cuba, "zombar dos homossexuais era algo normal, assim como depreciá-los ou denegri-los"

Licenciada em Psicologia e Pedagogia, com mestrado em sexualidade,
Mariela tornou sua a causa dos homossexuais, bissexuais, lésbicas e
transexuais e possibilitou que essas comunidades saíssem da
marginalidade na qual fora colocada pela sociedade, como diretora do
Centro de Educação Sexual (Cenesex), cuja atuação tem sido coroada com
êxitos.

Leia as outras três partes da entrevista:
2: "PC era reflexo da sociedade cubana: machista e homofóbico", diz filha de Raúl

3: Mariela Castro: "uma nação socialista deve defender a igualdade de todos"
4: Mariela Castro: consenso é de que homofobia e "transfobia" são incoerentes com a Revolução

Desde 2007, o dia contra a homofobia é celebrado em Cuba, em 17 de
maio. O Estado se encarrega gratuitamente das operações de mudança de
sexo. A homofobia diminuiu de forma sensível, apesar de persistir em
alguns setores. Finalmente, importantes instituições, como o Partido
Comunista de Cuba ou o Ministério da Cultura, são agora aliados de
primeira ordem na luta pelos direitos de todos.

Mariela se parece com a mãe, Vilma Espín. Herdou ao mesmo tempo a
beleza natural e o caráter. De fato, como ilustra a conversa abaixo,
deprecia a linguagem estereotipada e não vacila em apontar as injustiças
que foram cometidas em Cuba no passado, ou em denunciar os obstáculos
institucionais ainda presentes na sociedade. Sua franqueza não suscita
unanimidade no poder cubano, particularmente no setor mais conservador.
Mas, cada vez que Raúl Castro recebe uma queixa a seu respeito, a
resposta é invariável: “Se você tem algo a dizer sobre a minha filha, vá
procurá-la diretamente”, conta ela. No momento, os críticos não
arrefeceram.

Além de não evitar nenhuma pergunta, Mariela não impôs condições
prévias à entrevista, dividida em quatro partes. Na primeira parte do
diálogo , aborda temas como a situação dos homossexuais após o triunfo
da Revolução, as tristemente célebres Unidades Militares de Ajuda à
Produção, o famoso “Quinquênio Cinza”, a Fundação do Cenesex, a luta
contra a homofobia, a prostituição, o fenômeno transexual ou o casamento
para todos.

Opera Mundi: Qual era a situação das minorias sexuais em 1959, após o triunfo da Revolução em Cuba?
Mariela Castro Espín: No início dos anos 1960, a sociedade cubana era o
reflexo de sua herança cultural, principalmente espanhola. Cuba tinha
uma cultura “homoerótica”, patriarcal e, portanto, homofóbica. Naquela
época, o mundo inteiro era patriarcal e homofóbico, tanto os países
desenvolvidos como as nações do Terceiro Mundo. Em todas as culturas
ocidentais baseadas na religião católica dominante essas características
estavam estabelecidas nos códigos culturais da relação homem/mulher.

No entanto, é curioso que o processo da Revolução Cubana, em cujo
programa político se reivindicava a luta contra desigualdades, racismo e
diferentes formas de discriminação contra mulheres, além do fim de
injustiças e brechas entre a cidade e o campo, não tenha se interessado
pelos homossexuais e os considerado vítimas de discriminações de todos
os tipos. A homofobia era a regra inclusive depois do triunfo da
Revolução.

OM: Então ser homofóbico era algo “natural”?
MCE: A homofobia era a regra. O que se considerava anormal era o
respeito a quem havia escolhido uma orientação sexual diferente. Mas,
repito, não era algo específico de Cuba. A homofobia institucionalizada
dos primeiros anos da Revolução refletia essa realidade e estava em
consonância com a cultura da época. Zombar dos homossexuais era algo
normal, assim como depreciá-los ou denegri-los. Era normal
discriminá-los no mercado de trabalho, em sua vida profissional, e esse
era o aspecto mais grave.

A Revolução permitiu ao povo cubano conseguir a soberania nacional e
colocou em xeque inúmeros paradigmas, como a virgindade da mulher como
condição prévia ao casamento, a ausência do divórcio, o status do homem
como chefe da família, a fidelidade natural da mulher frente à
infidelidade do homem, a desqualificação da família monoparental e da
mulher solteira, mas não se interessou pelo problema da diversidade
sexual.

OM: Entre 1965 e 1968, o Estado Cubano elaborou as Unidades
Militares de Ajuda à Produção, as Umap, às quais os homossexuais foram
integrados à força. Você poderia falar sobre esse obscuro episódio?

MCE: Primeiro, convém precisar que as Umap afetavam todos os homens em
idade de entrar no serviço militar, não só os homossexuais. Alguns,
inclusive, falaram de campos de concentração para homossexuais. Não
creio que seja necessário exagerar, é preciso ser fiel à verdade
histórica. As Umap afetaram a todo, menos aos que podia justificar [a
não integração] com um emprego estável. Os estudantes tinham que colocar
entre parênteses a carreira universitária para fazer o serviço militar.

É interessante também lembrar o contexto da época. Nosso país se
encontrava constantemente sob a agressão dos Estados Unidos: a Baía dos
Porcos em abril de 1961, a Crise dos Mísseis em 1962, e os grupos da CIA
compostos por exilados cubanos, que multiplicavam os atentados
terroristas. As bombas explodiam todos os dias em Cuba, queimavam
canaviais, sabotavam as ferrovias, atacavam teatros com bazuca. Não se
pode esquecer essa realidade, vivíamos em estado de sítio. Grupos
paramilitares agiam nas montanhas do Escambray e assassinavam
trabalhadores rurais favoráveis à Revolução, torturavam e executavam
jovens professores que tinham se integrado à campanha de alfabetização.
No total, 3.478 cubanos perderam a vida por conta do terrorismo naquela
época. Foi um período muito difícil, nós nos encontrávamos
permanentemente agredidos e a luta de classes estava em seu auge. Os
latifundiários tinham reagido com muita violência à reforma agrária e
não estavam dispostos a perder sua posição de poder na sociedade. Então
havia uma mobilização geral para a defesa da nação, e neste contexto
nasceram as Umap.

OM: Então porque as Umap foram associadas ao reino do arbitrário e da discriminação?
MCE: Como todos deveriam participar na defesa do país, grupos
marginais, como os hippies, por exemplo, e os filhos da burguesia que
haviam se acostumado com uma vida de ócio e não trabalhavam, pois tinham
recursos, tiveram que se integrar às Umap. Grupos que não se sentiam
comprometidos com o processo de transformação social iniciado em 1959 e
preferiam um papel de observador tinham que se integrar e trabalhar nas
fábricas ou na agricultura.

Reprodução
O
exército criou então as Umap para apoiar os processos de produção. Mas a
realidade foi outra. O Ministério do Interior tinha a tarefa de
identificar esses grupos e integrá-los à força, pois o serviço era
obrigatório.

Essas pessoas não tinham uma boa imagem na sociedade cubana, que os
rechaçava por sua falta de comprometimento na construção da nova nação
revolucionária, e os considerava parasitas.

Lembro, em minha juventude, de ouvir reflexões desagradáveis devido à
minha relação familiar com meu tio e meu pai. Alguns diziam: “É uma
menininha”, quer dizer, uma “filhinha de papai”, uma pessoa que gozava
de uma posição privilegiada, que não tinha o mesmo padrão de vida que o
resto por seus vínculos familiares. Eu sentia uma raiva terrível cada
vez que isso acontecia e me esforçava para fazer tudo o que os demais
faziam, rechaçando todo tipo de privilégio ou de favoritismo. Nunca
suportei esse qualificativo, que era muito depreciativo.

OM: Esse método de integração era muito arbitrário.
MCE: Convém recordar que o procedimento era arbitrário e
discriminatório. Houve vozes na sociedade cubana que se opuseram a essas
medidas, entre elas a Federação de Mulheres Cubanas, assim como muitas
personalidades. As denúncias que algumas mães fizeram desataram esse
movimento contra as Umap.

OM: E os homossexuais? Foram vítimas de muitos abusos nas Umap?
MCE: Em uma sociedade homofóbica, nesse contexto de hegemonia masculina
e viril, as autoridades consideraram que os homossexuais sem profissão
tinham que ser integrados às Umap para serem verdadeiros “homens”. Em
algumas delas, essas pessoas foram tratadas como todos os demais e não
foram vítimas de discriminação. Em outras, onde reinava a
arbitrariedade, eles foram separados injustamente dos demais jovens.
Havia então o grupo dos homossexuais e dos travestis, o grupo dos
religiosos e dos crentes, o grupo dos hippies, etc. Foi reservado a eles
um tratamento especial com chacotas cotidianas e humilhações públicas.
Em uma palavra, as discriminações que existiam na sociedade cubana se
tornaram mais vivas e mais cruéis nas Umap.

Não resta a menor dúvida de que o processo de criação e de
funcionamento das Umap foi arbitrário. Por isso, essas unidades foram
fechadas definitivamente três anos depois. Mas, repito, a situação dos
homossexuais no resto do mundo era similar, às vezes pior. Isso,
evidentemente, não justifica em nada as discriminações das quais os
homossexuais foram vítimas em Cuba.

OM: Qual era a situação das minorias sexuais no resto do mundo?
MCE: Há um estudo extremamente interessante de um pesquisador
norte-americano chamado David Carter sobre os movimentos LGBT na América
Latina e no resto do mundo. Por exemplo, no nosso continente, as
ditaduras militares perseguiam impiedosamente os homossexuais. Essa
realidade, no entanto, não deve nos impedir de analisar criticamente o
que ocorreu em Cuba.

OM: Qual foi a responsabilidade de Fidel na criação das Umap?
MCE: Fidel Castro é como o Quixote. Sempre assumiu suas
responsabilidades como líder do processo revolucionário. Em razão de seu
cargo, considera que deve assumir a responsabilidade de tudo o que
ocorreu em Cuba, tanto os aspectos positivos como os negativos. É uma
posição muito honesta de sua parte, ainda que me pareça não ser justo,
pois não deve assumir sozinho todos esses excessos, o que não aproxima
da verdade histórica. Era uma época na qual emergia uma nova sociedade
com a criação de novas instituições, em meio a agressões, traições,
ameaças contra sua vida. Fidel foi vítima de mais de 600 tentativas de
assassinato. Não podia cuidar de tudo e, portanto, delegava muitas
tarefas.

OM: Concretamente, qual é o vínculo entre Fidel e as Umap?
MCE: Fidel Castro não desempenhou um papel nesta criação. Na realidade,
o único vínculo dele com as Umap foi quando decidiu fechá-las, após
numerosos protestos da sociedade civil, e a investigação levada a cabo a
pela política das Forças Armadas, que concluiu que muitos abusos foram
cometidos. A partir dessa data, decidiu-se não incluir os homossexuais
no serviço militar para evitar discriminações em uma força marcada pela
homofobia, não apenas em Cuba, mas no resto do mundo. Também se poderá
argumentar que se tratava de uma nova discriminação em relação a eles,
mas sua incorporação às forças armadas foi tão nefasta por conta dos
preconceitos, que resultou nessa decisão.

OM: Qual era o ponto de vista do seu pai?
MCE: Falei muitas vezes sobre esse tema com meu pai e ele me explicou
que era extremamente difícil eliminar os preconceitos sem uma política
de educação. Por outro lado, o universo militar continua sendo muito
machista em Cuba. Lamentavelmente, é notório que, em nossas sociedades,
rechaçamos tudo o que se mostra diferente. Imagine então no contexto dos
anos 1960. A esse respeito, o Cenesex lançou um programa de pesquisa
sobre as Umap e estamos recolhendo os testemunhos das pessoas que
sofreram com essa política.

Leia as outras três partes da entrevista:
2: "PC era reflexo da sociedade cubana: machista e homofóbico", diz filha de Raúl

3: Mariela Castro: "uma nação socialista deve defender a igualdade de todos"
4: Mariela Castro: consenso é de que homofobia e "transfobia" são incoerentes com a Revolução

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Re: Sobre homofobia, Fidel sempre assumiu responsabilidades, diz Mariela Castro

Mensagem por Joao Ruiz em Dom Fev 03, 2013 7:32 am

.
Mas, cada vez que Raúl Castro recebe uma queixa a seu respeito, a
resposta é invariável: “Se você tem algo a dizer sobre a minha filha, vá
procurá-la diretamente”, conta ela. No momento, os críticos não
arrefeceram.

Gostei!

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