Jovens, mulheres e imigrantes são os principais alvos da crise na Itália

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Jovens, mulheres e imigrantes são os principais alvos da crise na Itália

Mensagem por Vitor mango em Dom Fev 10, 2013 12:49 pm

Jovens, mulheres e imigrantes são os principais alvos da crise na Itália



Depois da queda de Berlusconi, Monti impulsionou uma drástica reforma trabalhista e do sistema de aposentadoria
























Dario Anzani é educador na Cooperativa Social “Comunità del
Giambellino”. Há mais de 20 anos, trabalha pelas ruas do bairro
Giambellino, uma das zonas historicamente mais conflituosas de Milão,
cidade que, há algumas décadas, se gabava por ser a capital econômica e
industrial da Itália. “A crise econômica está castigando duramente e os
principais afetados são os (as) jovens”, disse.

Para Cristina Tajani, conselheira municipal de Milão para a política
trabalhista e o desenvolvimento econômico, os dados sobre o desemprego
nesta cidade, ainda que em níveis inferiores à tendência nacional (10%),
seguem sendo alarmantes, situando-se em 6%.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi
Tajani
(foto à esquerda) é a conselheira mais jovem (34 anos) da Junta
municipal encabeçada pelo prefeito esquerdista Giuliano Pisapia que, em
maio de 2011, pôs fim a 20 anos de “berlusconismo” na cidade. Também
para ela, a situação do emprego juvenil precisa de ações urgentes.

“Ainda que tenhamos registrado uma leve diminuição nos últimos dois
anos e estejamos muito longe da média nacional (35%), a taxa de
desemprego juvenil (entre 15 e 24 anos) em Milão ainda supera os 20%”,
explicou a Opera Mundi.

A conselheira adverte que, em meio à crise, as mulheres são as que mais
estão sofrendo com a queda de postos de trabalho, “em um mercado de
trabalho que se tornou mais flexível e precário como nunca antes se
havia visto, e que dificilmente protege a maternidade”. Uma situação
que, para Anzani, tem muito a ver com a evolução de uma crise
econômico-financeira, que nas últimas duas décadas se mesclou com a
deterioração dos valores em todo o tecido social. “Modelo individualista
de Berlusconi foi como um terremoto. Um modelo que contribuiu de
maneira determinante para a modificação do tecido social italiano”,
opinou.

Durante os últimos 20 anos trabalhando na educação de rua, Anzani disse
ter assistido a uma modificação brutal do território. “Anos atrás,
grupos jovens se encontravam em cada parque ou canto da cidade,
relacionando-se com sua própria história e linguagem. Nós intervínhamos
para reconhecer quais eram as dinâmicas de cada grupo e ajudar com a
evolução positiva de tais dinâmicas e o desenvolvimento de valores
compartilhados”, contou.

Hoje em dia, isso já não é possível. Os grupos praticamente
desapareceram e os poucos que ficaram se transformaram em “um conjunto
de sujeitos que apenas compartilham o consumo de substâncias ilegais. A
sociabilidade dos jovens já não existe.”

Segundo ele, contribuiu de forma determinante para essa situação não
apenas o advento das novas tecnologias e a comunicação virtual, mas
sobretudo “esse manto de indiferença e intolerância que se respira como
produto de um modelo individualista que fragmentou a sociedade.”

“É uma crise que precisa de uma resposta ampla e coordenada, que volte a
posicionar a importância do gasto público e das relações sociais”,
conclui Tajani, recordando os esforços que a prefeitura de Milão está
fazendo por meio de vários “pacotes de medidas anticrise”, como a
assistência direta às pessoas, os incentivos às empresas para reativar a
ocupação e o apoio para a criação de novas empresas (start-up), com um
claro enfoque juvenil.

Êxodos

Lutz Kühn é alemão, tem 60 anos e passou os últimos 26 na Itália, onde
trabalhou como engenheiro eletrônico no setor da telefonia. Em 1993,
começou a trabalhar para a empresa alemã Siemens, que, em 2005, criou
uma joint-venture com a Nokia.


Em 2008, a empresa de capital alemão-finlandês tomou a decisão de
reduzir as atividades e anunciou um excedente de pessoal. Faltavam a
Lutz – assim como para muitos colegas – seis anos para sua aposentadoria
(2014) e lhe ofereceram um “incentivo para o êxodo”.

Em troca da renúncia imediata e definitiva ao posto de trabalho, a
empresa lhe garantia 3 anos de “mobilidade” (2009-2011), durante os
quais receberia um salário reduzido (80%), além do pagamento, em apenas
uma parcela, do equivalente às 36 mensalidades que ainda faltavam para
chegar sua aposentadoria (2012-2014).

Depois da queda do governo Berlusconi em 2011, o governo técnico de
Mario Monti e sua ministra do Trabalho, Elsa Fornero, impulsionaram uma
drástica reforma trabalhista e do sistema de aposentadoria. Eliminaram a
aposentadoria por velhice, elevaram de forma progressiva a idade de
aposentadoria e passaram do sistema retributivo para o contributivo,
deixando milhares de trabalhadores, que haviam aceito o plano de
incentivo para o êxodo, sem os meios mínimos de sobreviver.

“No meu caso, a reforma impulsionada pela agora ex-ministra Fornero
estendeu minha idade de aposentadoria até o ano 2019, isto é, mais cinco
anos, durante os quais não terei nem salário e nem pensão”, afirmou
Kühn.

Segundo dados do INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), não
seriam menos de 390 mil os trabalhadores nessa situação. Até o momento,
os programas do demissório governo Monti preveem medidas alternativas à
reforma somente para 130 mil pessoas. Ninguém até o momento sabe o que
acontecerá com os outros 250 mil trabalhadores em “exôdo” e suas
famílias.

“Felizmente, eu vivo sozinho, tenho minha casa e alguns pequenos
investimentos. Vou poder aguentar essa situação até minha aposentadoria,
mas há muitas pessoas que estão desesperadas e não sabem o que fazer”,
explicou Kühn.



Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Kühn: "vou poder aguentar essa situação até minha aposentadoria, mas há muitas pessoas que estão desesperadas"

Mas ele não ficou de braços cruzados e, junto com a CGIL de Milão
(Confederação Geral Italiana do Trabalho), se envolveu no movimento de
protesto. “O que fizeram não é humanamente justo porque não podem mudar
as regras do jogo sem levar em conta as consequências, deixando centenas
de milhares de pessoas em uma situação muito difícil”.

É por isso que a sede central da CGIL em Milão abriu um espaço para
esses trabalhadores. “Todas as terças-feiras, escutamos as pessoas,
damos orientações e conselhos, tratamos de responder a suas inquietudes.
Estão preocupados, não sabem como poderão continuar pagando suas
dívidas e hipotecas, querem saber se estão a salvo ou se foram pegos no
pacotão dos exodados”, continuou o alemão.

Seguindo ele, é muito importante que as pessoas resgatem a dignidade
como trabalhador e cidadão. “O governo fala de 'salvar' as pessoas, mas
não devemos nos esquecer de que nos estão privando de um direito
adquirido. Não estão dando nenhuma esmola, nem queremos ser salvos,
simplesmente exigimos nossos direitos”, concluiu.

Últimos dos últimos

Paolo Oddi é advogado de imigração e membro da Associação de Estudos
Jurídicos sobre a Imigração. Não tem a menor dúvida de que quem mais
está pagando por essa crise são os setores mais desprotegidos, entre
eles, os imigrantes, ainda mais se são irregulares ou ilegais.

Durante as últimas duas décadas, a Itália adotou uma política
imigratória marcadamente proibicionista e um de seus efeitos tem sido a
impossibilidade de regularizar o estado migratório para centenas de
milhares de cidadãos extracomunitários (não pertencentes à União
Europeia). “Essa situação nos levou a buscar trabalhos precários e mal
pagos, expostos à chantagem dos empregadores e à ameaça de sermos
detidos e expulsos”, contou Oddi.

O mercado de trabalho, em plena crise, aproveitou essa grande
quantidade de mão de obra, engrossando os bolsos com trabalho irregular e
pobreza. A precarização trabalhista cresceu juntamente com a
precarização dos direitos dos imigrantes, e as políticas repressivas
levaram a uma maior inviabilização desses sujeitos sem direitos.

Embora recentemente a Corte Constitucional tenha declarado a
inconstitucionalidade de alguns dos aspectos mais nefastos da Lei 189,
de Regulação da Imigração (conhecida como Ley Bossi-Fini) – entre
outros, o “delito de clandestinidade” e a “ilegalidade migratória” como
agravante da pena –, a perda do trabalho, até para um imigrante regular,
“afunda as pessoas em uma espiral de chantagem e debilidade, e isso a
despeito do fato de os imigrantes constituírem uma força vital e um
recurso extraordinário para o país”, afirmou o advogado de imigração.

O Centro de Identificação e Expulsão (CIE)

“O CIE ou ex-CPT (Centro de Estância Temporal) é a abominação e uma
violação aos direitos fundamentais”, sentenciou Oddi. Com a Diretiva de
Retorno da União Europeia (2008), que entrou em vigor na Itália em 2011,
foram de fato unificadas as políticas de expulsão de imigrantes de
todos os países membros.



Giorgio Trucchi/Opera Mundi

Oddi, sobre os centros de identificação e expulsão: “São verdadeiras prisões, uma espécie de Guantánamo"

Com ela, determinou-se uma detenção administrativa, não superior a 18
meses, de pessoas extracomunitárias que não poderiam ser expulsas de
outra forma. “Na Itália, temos sido incapazes de criar condições civis
para a detenção dessas pessoas”, falou o advogado.

Com efeito, não apenas não há clareza sobre os direitos das pessoas
detidas, nem tampouco sobre a regulamentação dos procedimentos de
reclusão, mas também não há pessoas encarregadas da direção desses
Centros, nem uma instância judicial que fiscalize o que ocorre ali.

“São verdadeiras prisões, uma espécie de Guantánamo onde as pessoas
vivem em condições sub-humanas, e onde reina o caos e causalidade. Ali
se misturam criminosos que cometeram vários delitos com pessoas que
simplesmente perderam o emprego e não podem renovar sua permissão para
continuar no país”, explicou Oddi.

Muitas vezes, quando conseguem se salvar do processo de expulsão, os
imigrantes se misturam com os setores mais pobres da população italiana e
com os “novos pobres” da crise.

Casa della Carità

A Casa della Carità (Casa da Caridade) é uma fundação cuja sede central
surge fora de Milão e desenvolve suas atividades com apoio do
arcebispado e da prefeitura. Seu objetivo é zelar pelos direitos das
pessoas que se aproximam da estrutura residencial e criar novos caminhos
para a autonomia, assim como conscientizar as instituições e os
cidadãos sobre os direitos de cidadania.

A cada ano, oferece hospitalidade a mais de 300 pessoas e vários
serviços a milhares de cidadãos em dificuldade. Em seus 10 anos de
existência, a Casa atendeu necessidades urgentes de pessoas oriundas de
90 países no mundo.

Giorgio Trucchi/Opera Mundi
Emanuela
“Tea” Geromini (foto à esquerda) é assistente social e há sete anos
começou a trabalhar com a Casa della Carità. Ela explica que o Centro de
Escuta, onde desempenha seu trabalho, registrou entre 2009 e 2012 um
aumento significativo das demandas, sobretudo por parte de cidadãos
estrangeiros.



“Há muito mais gente que chega para buscar apoio e que vive em
situações extremamente difíceis. Os pedidos de emprego, por exemplo,
sextuplicaram e isso nos indica que o trabalho se converteu em uma
prioridade”.

Também houve um aumento substancial do número de famílias despejadas.
“Perdem o emprego e não conseguem continuar pagando a hipoteca, ficando
assim expostas ao despejo. Muitas vezes, essa situação gera formas
diversas de transtorno mental, aumentando a carga de sofrimento que já
os oprimia”, continuou a assistente social.

No caso dos estrangeiros, essa situação leva à perda da autorização de
permanência no país. “Pessoas que talvez tenham vivido legalmente na
Itália por até dez ou 20 anos se encontram de repente sofrendo uma
condição de clandestinidade, expostos à precariedade e até à detenção e à
expulsão”, explicou Geromini.

No caso das mulheres, há uma verdadeira perda de identidade. “Ficam
atadas a uma dupla ausência: de seu país de origem e da Itália, onde,
com muita dificuldade, tinham adquirido um status, uma razão de ser”.

Geromini adverte também para o perigo de um recrudescimento do racismo e
de novas formas de discriminação racial. “A crise e a necessidade de
encontrar a quem culpar por todas as suas desgraças acentuam a
intolerância em relação a grupos estrangeiros. Uma guerra entre pobres
em que somente há perdedores.”

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