O grande mal da economia

Ir em baixo

O grande mal da economia Empty O grande mal da economia

Mensagem por TheNightTrain em Ter Fev 12, 2013 9:21 am

O grande mal da economia
J. BRADFORD DELONG 04/02/2013 - 14:48

Em toda a região do Atlântico Norte, os bancos centrais e os governos parecem ser incapazes, na maior parte dos casos, de recuperar as condições de pleno emprego nas suas economias. A Europa caiu novamente numa situação de recessão, sem nunca ter recuperando verdadeiramente da crise financeira/da dívida soberana que teve início em 2008. Actualmente, a economia dos Estados Unidos apresenta um crescimento de 1,5% ao ano (cerca de um ponto percentual a menos do que o potencial) e o ritmo do crescimento poderá abrandar, devido a uma pequena contracção orçamental este ano.



A economias dos mercados industriais têm vindo a sofrer de crises financeiras periódicas, seguidas por um aumento da taxa de desemprego, pelo menos desde o Pânico de 1825, que quase afundou Banco de Inglaterra. Situações destas são negativas para todos – para os trabalhadores, que perdem os seus empregos; para os empresários e detentores de capital, que perdem os seus lucros; para os governos, que perdem a sua receita fiscal; e para os obrigacionistas, que sofrem as consequências da falência – e tivemos cerca de dois séculos para descobrir como resolver estas situações. Se assim é, por que razão não conseguiram os governos e os bancos centrais resolvê-las?

Há três razões que poderão estar na base da incapacidade das autoridades para recuperar rapidamente o pleno emprego na sequência de uma recessão. A primeira reside no facto de as expectativas de inflação deixarem de estar ancoradas e na existência de dificuldades estruturais que podem implicar que os esforços para estimular a procura se façam sentir quase inteiramente num crescimento mais rápido dos preços e apenas minimamente no aumento da taxa de emprego. Era este o problema na década de 1970, mas não o é actualmente.

A segunda razão pode assentar no facto de, mesmo estando as expectativas de inflação ancoradas (havendo, consequentemente, estabilidade de preços), os políticos não saberem como mantê-las ancoradas enquanto promovem o fluxo da despesa na economia.

E, neste ponto, detenho-me, desconcertado. Pelo menos de acordo com o que li nos livros de História, em 1829, os economistas tecnocráticos da Europa Ocidental tinham descoberto por que razão ocorriam essas convulsões económicas do tipo grande mal. Naquele ano, Jean-Baptiste Say publicou um livro intitulado Cours Complet d'Economie Politique Pratique (Curso Completo de Economia Política Prática, ndt.), onde constatava que Thomas Malthus tinha, em parte, razão quando afirmava que uma economia poderia sofrer durante anos de uma "oferta geral excessiva" de produtos de base, ao mesmo tempo que quase todas as pessoas tentavam reduzir as despesas para níveis inferiores ao rendimento – aquilo a que, na linguagem actual, se designa como desalavancagem. E, uma vez que a despesa de uns constitui o rendimento de outros, a desalavancagem universal apenas gera depressão e elevadas taxas de desemprego.

Durante o século seguinte, economistas como John Stuart Mill, Walter Bagehot, Fisher Irving, Wicksell Knut e John Maynard Keynes desenvolveram uma lista de medidas a tomar no sentido de evitar ou de curar uma depressão.

1. Em primeiro lugar, não entre nessa situação: evite tudo aquilo que possa criar o desejo de desalavancagem – quer seja a pressão externa sob o padrão-ouro das bolhas especulativas nos preços dos activos, ou os ciclos de alavancagem e de pânico, tais como os que se verificaram em 2003-2009.

2. Se já estiver nessa situação, evite o desejo de desalavancagem, conseguindo que o banco central compre obrigações para obter dinheiro, originando a diminuição das taxas de juro, de modo a que seja mais apelativo ter dívida do que ter numerário.

3. Se ainda estiver nessa situação, acabe com o desejo de desalavancagem, conseguindo que o Tesouro ofereça garantias relativamente aos activos de risco, ou que emita activos que sejam seguros, com o objectivo de elevar a qualidade da dívida no mercado, o que tornará igualmente mais apelativa a detenção de dívida.

4. Se as anteriores medidas falharem, acabe com o desejo de desalavancagem comprometendo-se a imprimir mais moeda no futuro, o que elevaria a taxa de inflação e que faria com que o facto de ter dinheiro fosse menos apelativo do que gastá-lo.

5. No pior dos casos, recorra à intervenção do Governo, faça empréstimos e compre coisas, reequilibrando assim a economia como as desalavancagens do sector privado.

Existem muitas subtilezas no modo como os governos e os bancos centrais devem tentar seguir estes passos. E, de facto, os governos e os bancos centrais da região do Atlântico Norte tentaram segui-los até certo ponto. Mas é evidente que não tentaram o suficiente: o sinal de stop relativamente às expectativas de inflação não ancoradas, ao crescimento acelerado dos preços e ao aumento das taxas de juros de longo prazo – aspectos demonstrativos de se terem atingido os limites estruturais e de expectativa da política expansionista – ainda não se fez ver.

Assim, continuamos muito aquém do pleno emprego pela terceira razão. A questão não reside no facto de os governos e bancos centrais não serem capazes de restabelecer os níveis de emprego, ou no facto de não saberem como fazê-lo; o problema é que os governos e os bancos centrais não irão tomar medidas de política expansionista numa escala suficientemente elevada para recuperar rapidamente o pleno emprego.

E aqui coloca-se uma reflexão sobre a década de 1930 e sobre a forma como os factos históricos se repetem, surgindo inicialmente como tragédia e posteriormente, ritmo Karl Marx, como mais uma tragédia. Keynes apelou aos políticos do seu tempo para que ignorassem as "almas austeras e puritanas", que defendem "aquilo a que educadamente designam liquidação prolongada para ficarmos bem" e declarou que não conseguia "entender como poderá a falência universal trazer algo de bom ou aproximar-nos da prosperidade".

Os actuais decisores políticos, ansiosos que estão por dar destaque às medidas expansionistas, deveriam fazer uma pausa e considerar a mesma questão.

Tradução: Teresa Bettencourt/Project Syndicate

J. Bradford DeLong, antigo subsecretário adjunto do Tesouro dos EUA, é professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e investigador associado do National Bureau for Economic Research

http://www.publico.pt/opiniao/noticia/o-grande-mal-da-economia-1583253

TheNightTrain

Pontos : 1089

Voltar ao Topo Ir em baixo

O grande mal da economia Empty Re: O grande mal da economia

Mensagem por TheNightTrain em Ter Fev 12, 2013 9:25 am

Iniquidades entre quem tem poder e quem não tem (estejam estes desalavancados, entalados, ou outros -ados).

Se me falarem em poder, puxo logo por uma pistola. Dizem os salvadores de si mesmos e às vezes nem isso!!!!

TheNightTrain

Pontos : 1089

Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum