Coração de D. Pedro IV está guardado a cinco chaves no Porto e precisa de mil cuidados

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Coração de D. Pedro IV está guardado a cinco chaves no Porto e precisa de mil cuidados

Mensagem por Vitor mango em Seg Mar 11, 2013 12:40 pm

Coração de D. Pedro IV está guardado a cinco chaves no Porto e precisa de mil cuidados

Lusa

11/03/2013 - 13:23

São precisas seis pessoas para chegar até ao coração, numa
operação que implica sempre riscos para a relíquia. Cientistas
brasileiros pretendem fazer biópsia ao coração de D. Pedro IV.





Coração do Rei de Portugal e Imperador do Brasil está na Igreja da Lapa desde 1837 Paulo Riccatá no Porto






O coração que D. Pedro IV doou ao Porto não está
guardado a sete chaves, mas são precisas cinco, mais mil cuidados e uma
complexa operação para o retirar do mausoléu da igreja da Lapa, como
aconteceu em 2009.


A descrição foi feita à
Lusa por Ribeiro da Silva, historiador e mesário da Ordem da Lapa,
alertando para a fragilidade do coração do “Rei Soldado”, que morreu em
Queluz em Setembro de 1834 e chegou ao Porto em Fevereiro de 1835. “Não
podemos vê-lo, porque o coração é órgão frágil e este tem muitos anos.
Receamos que possa estar em estado precário. As operações são muito
complexas, tudo isso agita muito e temos receio de um mau resultado.
Tentamos que se abra o menos possível”, observou o professor, em
entrevista à Lusa.
O alerta refere-se também à eventual
necessidade de “partir o vidro” para chegar ao coração doado à cidade
devido à gratidão pela resistência do Porto na luta das forças liberais
contra as tropas absolutistas de D. Miguel, irmão de D. Pedro IV. “Por
aquilo que me informou um mesário que já faleceu, aquilo está de tal
maneira que não é fácil tirar a tampa. É um problema acrescido que se
vai ter um dia”, observou.
Por tudo isto, parece difícil levar o
coração para o Brasil, como é intenção de cientistas brasileiros, que
pretendem fazer-lhe uma biópsia para detectar eventuais doenças no
miocárdio, inclusivamente as provocadas por processos infecciosos
noutros órgãos.
“Não me parece muito fácil”, avisa Ribeiro da Silva.
Um
investigador da Universidade de São Paulo disse à Lusa ter sido
retirado um “micro pedaço” de um osso da mão dos restos mortais de D.
Pedro IV, a partir do qual se tentará obter ADN, salientando que o
acesso a “um pequeno fragmento do coração ajudaria no processo” e
prometendo o seu regresso ao Porto.
“Sempre que vinha ao Porto uma
alta patente brasileira ou o presidente do Brasil, vinham ver o
coração. Agora, mesmo que venham, tem de haver alguma parcimónia”,
sustenta o mesário da Ordem da Lapa há 15 anos. “Não podemos estar a
abrir a cada ano porque podemos ter um desgosto e não queremos que isso
aconteça”, alerta.
Chegar até coração implica remover a pesada
placa de cobre pregada na porta de madeira que fecha o monumento, usar
uma chave de cerca de 15 centímetros e outras quatro até passar a grade
onde estão a urna, o estojo e o vaso de prata dourada com o recipiente
de vidro que conserva o coração em formol. “É preciso mobilizar seis
pessoas para o tirar em segurança. É uma operação que exige preparação”,
descreveu o historiador, relatando o que observou em 2009, na mais
recente “revisão” à conservação do órgão.
Na altura, o professor
de anatomia convidado para fazer a análise indicou alguma “segurança”
quanto à conservação “pelo menos nos próximos dez anos”, acrescentou. “É
um coração. Achei que estava um bocadinho dilatado, não me parece que
esteticamente seja uma coisa muito famosa. Mas estas coisas têm um
significado para além da estética e esse é que é o significado
profundo”, descreve o Ribeiro da Silva. Na ocasião, foram recolhidas
imagens que mostram que a doação foi mesmo literal. Essas imagens estão
disponíveis no Youtube e nos sites da Câmara do Porto e da TV Porto.
Autenticidade da relíquia nunca foi posta em causa
A
autenticidade do coração de D. Pedro IV nunca esteve em causa, mas foi
longo e conturbado o percurso que levou o órgão doado ao Porto até ao
monumento onde está desde 1837, na igreja da Lapa. “Depois da morte de
D. Pedro, em Setembro de 1834, a sua mulher, D. Amélia, fez encerrar o
coração num escrínio (uma espécie de vaso, ou guarda-jóias) com duas
tampas e entregou-o ao ajudante de campo do rei que veio de Lisboa para o
Porto num navio”, descreveu à Lusa Ribeiro da Silva. O coração chegou
ao Porto em Fevereiro de 1835, quase cinco meses após a morte do
monarca, foi “em procissão da Ribeira para a Lapa” e “toda a cidade
esteve presente”, acrescentou.
“D. Pedro ofereceu o coração ao
Porto porque viveu aqui durante os meses do Cerco do Porto [entre Julho
de 1832 e Agosto de 1833] e houve entre ele e a população uma
cumplicidade enorme”, assegurou o professor. “Foi um gesto único na
história de Portugal”, destacou.
Para o historiador, não se tratou
de amor à primeira vista: “No início a cidade não aderiu em massa, mas
depois o rei deu provas de grande abnegação e grande heroicidade e o
povo simpatizou imenso com ele”, justificou.
O coração chegou à
Lapa numa urna de madeira de mogno, dentro da qual estava um estojo (o
original foi a única peça substituída, mas mantêm-se na igreja) e, lá
dentro, um vaso de prata dourada com duas tampas. “Uma era uma espécie
de adorno e a outra, presa com parafusos, dava acesso ao coração,
inserido em líquidos conservantes desde a primeira hora”, descreve o
mesário. Na altura, “os professores da escola médico-cirúrgica
entenderam que o coração ficaria melhor conservado num recipiente de
vidro, por se tratar de um material mais estanque do que a prata.
Seguiram-se
“dois anos de espera” para a Câmara do Porto e a Irmandade da Lapa
“chegarem a acordo sobre sítio onde devia ficar o monumento”, período
durante o qual o coração “ficou na capela-mor à guarda de uma sentinela,
porque havia receios de que fosse roubado”, acrescentou.
Foi
edificado “do lado do evangelho por um arquitecto da câmara que tentou
representar o Brasil e Portugal, as armas da Casa de Bragança e as armas
militares. O granito é todo do Porto, foi escolhido o mais fino. É um
ex-líbris da cidade e da igreja”, descreveu Ribeiro da Silva.
O
coração foi doado à cidade e não à igreja da Lapa, motivo pelo qual foi
necessário que a filha de D. Pedro, D. Maria II, resolvesse o dilema
sobre o local onde devia ficar o legado, relatou. “Quando veio para o
Porto, D. Pedro ficou no Palácio dos Carrancas (onde está hoje o Museu
Soares dos Reis), mas era um sítio muito exposto. Teve de recolher para
um mais protegido. Ficou a morar na Rua de Cedofeita, mais ou menos no
local onde está hoje a esquadra da PSP”, acrescentou. A igreja próxima
era a da Lapa e o seu fundador “era um brasileiro”. “Pelo menos à missa
semanal vinha. Tenho visto escritos de que vinha à missa todos os dias
aqui. Daí que D. Maria II quisesse que o coração ficasse aqui”, explicou
o historiador.
Para Ribeiro da Silva, o coração “significou uma coisa importantíssima: o amor pela liberdade”.

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