Ferreira de Castro na Amazônia: uma vida resgatada

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Ferreira de Castro na Amazônia: uma vida resgatada

Mensagem por Vitor mango em Qui Abr 04, 2013 2:03 am

Ferreira de Castro na Amazônia: uma vida resgatada




03.04.2013


Ferreira de Castro na Amazônia: uma vida resgatada
Adelto Gonçalves (*)
I
Não se deve levar em conta livro de ficção como documento histórico,
ainda que tenha sido largamente inspirado na própria vida do autor. É
que na ficção o romancista ou o poeta se desprende de seu compromisso
com a realidade e deixa a imaginação voar, misturando tempos e
acontecimentos sem rigor cronológico. Mesmo assim, isso não significa
que não se possa ler determinada obra como à clef, como sabe quem já cotejou o poema Cartas Chilenas,
de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), com a documentação da época que
consta do Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, e dos arquivos
públicos de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais.

É por isso que Abrahim Baze, historiador e museólogo, não andou mal ao escrever Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia com base no romance A Selva
(1930), de Ferreira de Castro (1898-1974), tomando do personagem
Alberto muitas experiências que teriam sido vividas pelo próprio
romancista que deixou o lugar de Salgueiros, na freguesia de Ossela, no
concelho de Oliveira de Azeméis, em 1911, aos 13 anos de idade, para
embarcar no vapor inglês Jerome, rumo a Belém do Pará, onde seria despachado para o seringal Paraíso, nas margens do rio Madeira, no Estado do Amazonas.

O resultado do esforço de Baze foi um ensaio biográfico
livre das amarras metodológicas, como bem observou Almir Diniz de
Carvalho Júnior, professor de História da Universidade Federal do
Amazonas, autor de um dos prefácios deste livro, que acaba de ganhar
terceira edição revista e ampliada, depois de ter a sua primeira edição
publicada pela Revista Portugal, de Oliveira de Azeméis, em 2001, e sua segunda edição em 2005, já pela Editora Valer, de Manaus.

Como brinde, acompanha esta edição um DVD com o longa-metragem A Selva,
obra de adaptação do romancista Márcio Souza, responsável também pela
sua direção. Rodado em 2001, o filme contou com a participação de
artistas brasileiros e portugueses de renome, como Diogo Morgado, Maitê
Proença, Cláudio Marzo, Paulo Gracindo Júnior, Roberto Bomfim e Chico
Dias, além de outros 40 atores e três mil figurantes amazonenses.

II
É verdade que, ao levar em conta episódios ficcionais
como se fossem reproduções fiéis da realidade, Baze cometeu anacronismos
e alguns enganos, como já assinalou Maria Eva Letízia, professora do
Centre de Recherche et d´Etudes Lusophones et Intertropicales da
Universidade Stendhal, Grenoble III, da França, em crítica publicada na Revista Castriana, do Centro de Estudos Ferreira de Castro, de Oliveira de Azeméis, e reproduzida nesta terceira edição do livro.

Um deles foi ter colocado o jovem José Maria Ferreira de
Castro a imaginar-se, quando ainda vivia no seringal Paraíso, passeando
pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, local que teria sido freqüentado
pelo protagonista Alberto, mas que só seria conhecido pelo biografado em
seu retorno a Portugal em 1919. Armado com suas lembranças da época em
que vivia na Amazônia, Ferreira de Castro escreveu A Selva de
abril a novembro de 1929, quando já estava amadurecido e carregava uma
boa experiência no jornalismo diário. O livro saiu à luz em 1930 e
ganharia tradução alemã em 1933, alcançando grande difusão
internacional, tendo sido publicado também na França, Espanha,
Inglaterra, Rússia, Tchecoslováquia, Romênia, Suécia, Holanda, Noruega,
na antiga Iugoslávia (em croata) e em outros países.

Nenhum daqueles pormenores, porém, empana o brilho do
trabalho de Baze, que, profundo conhecedor da realidade amazônica, soube
como resgatar os anos verdes de Ferreira de Castro, suas primeiras
dificuldades logo ao chegar a Belém, a aventura que foi a viagem para o
seringal, as revoltas contra o trabalho (semi) escravo, a criminalidade,
as fugas para o interior da floresta, a medicina caseira baseada na
tradição indígena, a caça como sobrevivência, a politicagem, os mandões
locais, as pragas, as doenças, os dramas individuais, os sonhos, as
acomodações desumanas, os males da bebida alcoólica e a vizinhança
turbulenta com os índios Parintintins.


III
Para recuperar os primeiros passos de Ferreira de Castro,
Baze visitou não só a casa onde o escritor nasceu e que hoje está
transformada em museu, mas a escola de instrução primária que ele
freqüentou e que lhe daria a base intelectual que lhe serviria para o
resto da vida, seguindo uma tradição de autores autodidatas em Portugal
que chegaria ao auge com o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 atribuído a
José Saramago (1922-2010). Aliás, Ferreira de Castro teve o seu nome
proposto ao Prêmio Nobel em 1951 e em 1968, desta vez ao lado de Jorge
Amado, indicado pela União Brasileira de Escritores.

Na Amazônia, Baze saiu em busca de, praticamente, todos
os passos de Ferreira de Castro, localizando até a hospedaria em que ele
ficou em Belém, em frente ao cais do porto. Dessa época, o biógrafo
teve ainda o cuidado de republicar velhos cartões-postais que mostram a
Belém do começo do século XX e até do navio Justo Chermont que levou o futuro escritor para Manaus. Desta cidade, igualmente há fotografias de 1920, todas do acervo do próprio autor.

Por fim, Baze reconstitui a chegada de Ferreira de Castro
ao seringal Paraíso, que não existe mais desde a abertura da estrada
Transamazônica na década de 1970, à época da ditadura militar
(1964-1985), quando foi destruído, devastado e dividido em lotes pelo
governo federal e vendido a agricultores e pecuaristas do Sul do Brasil.

Na Amazônia, Ferreira de Castro vive o rescaldo da
"febre" da borracha, quando os melhores tempos já se haviam ido e o
trabalho dos seringalistas era desenvolvido em condições subumanas. No
seringal, José Maria era apenas um rapazola precocemente amadurecido
enviado para uma aventura por uma irresponsabilidade que só se justifica
pela extrema miséria em que vivia sua família.

Órfão de pai, era o primogênito que teria sido enviado ao
Brasil com a esperança de que fosse mais um "brasileiro" a retornar
enriquecido para sua vila natal. Que tenha obtido autorização para
viajar sozinho, sendo menor de idade, e, mais ainda, que tenha
sobrevivido em ambiente tão hostil são fatos que não se explicam e podem
ser atribuídos apenas ao imponderável. No ensaio de Baze, tem especial
relevo a família Teles Monteiro, proprietária do seringal Paraíso, e
Juca Tristão, gerente, especialmente retratados em A Selva, que aqui ganham maiores contornos.

De 1914 a 1918, época que coincide com a Primeira Guerra
Mundial, Ferreira de Castro sobrevive em Belém e Manaus na mais completa
miséria, embora em condições superiores à vida no seringal. Começa,
então, a viver de sua pena, trabalhando no jornal A Cruzada, de Belém. Fundou com um amigo o Jornal Portugal, que era dedicado à numerosa colônia portuguesa da cidade. Publicou reportagens e até um folhetim. Trabalhou ainda no Jornal do Commercio, de Belém, como atesta cartão de identidade funcional reproduzido no livro.

IV

Abrahim Baze (1949) é graduado em História pela Uninorte e pós-graduado lato sensu
em Educação a Distância pelo Centro Universitário Uniseb COC, de
Ribeirão Preto-SP. Dedicou boa parte de sua vida profissional a
organizar museus no Amazonas. É jornalista, apresentador e
documentarista de televisão, com vários trabalhos produzidos, em
especial sobre temas amazônicos.

É diretor do Museu da Rede Amazônica e do Memorial
Senador Bernardo Cabral, membro da Academia Amazonense de Letras, do
Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e apresentador dos
programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no Amazon Sat. Publicou ainda os livros Luso Sporting Club - Memória da Sociedade Portuguesa no Amazonas, História da Rede Amazônica e Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas.






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FERREIRA DE CASTRO: UM IMIGRANTE PORTUGUÊS NA AMAZÕNIA, de Abrahim Baze. Manaus: Editora Valer, 3ª ed. revista e ampliada, 2012, 266 págs., R$ 69,00. E-mail: editora@valer.com.br Site: www.editoravaler.com.br

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Re: Ferreira de Castro na Amazônia: uma vida resgatada

Mensagem por Vitor mango em Seg Abr 04, 2016 12:15 pm

amen

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