Quando as plantas são segredos de Guerra

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Quando as plantas são segredos de Guerra

Mensagem por Vitor mango em Dom Nov 10, 2013 10:47 am


Quando as plantas são segredos de Guerra
 
Em plena euforia de plantação de vinhedos no Alentejo , fui a França encomendar 2 milhões de videiras americanas para enraizar e depois vender para o Alentejo – isto em finais dos anos 60 .
Porquê videiras americanas ?
Para os que não sabem ,informo que , nos finais do últimos século ,as vinhas na Europa foram destruídas por um insecto que lhe inutilizava as raízes – a Filoxera  .
 O insecto tinha vindo da América , logo , o remédio , foi descobrir a razão porque o insecto não fazia mal nas vinhas americanas .A solução foi simples . Se o insecto não destroi as raízes americanas , plantamos  a videira americana e a “ cavalo “ nela , a videira da Europa – assim  nasceu a enxertia nas videiras .
Ao principio ,  utilizaram-se espécies puras ,  recolhidas ao acaso , nos EUA com os nomes de Rupestris , Berlandieri , Riparia etc. . Do cruzamento entre estas elas nasceram os Híbridos . Uns por cruzamentos naturais e outros por cruzamentos artificiais
A França dominava a técnica e os alemães e Italianos vigiavam , de perto os estudos realizados .
Em Portugal o Douro foi quase todo destruído pela Filoxera .
Nos anos 60 , fui ao maior centro de estudos de bacelos para estabelecer contactos .
Foi exactamente o Professor P. Galet da Ecole Nationale Superieure Agronomique de Montpellier ( abreviado EM )  que me recebeu e contou , que espiões alemães tinham roubado aos franceses sementes destes híbridos  em ensaio – isto durante a I Grande Guerra  . Essas sementes , saíram de França escondidas dentro de uma bengala , dando depois origem , na Alemanha ,  a outras Cv ( variedades ,  na Itália e na Alemanha ) .
A introdução de novos bacelos ( ou videiras ) americanas foi feita na Quinta da Serrada situada no Vale do Horto , como o S04 , 5BB , 34EM ( Escola Montpellier )
No mesmo dia em que fazia a encomenda , um viveirista espanhol carregava  6 milhões de plantas 34 EM – videira bem conhecida pela elevada resistência ao calcário total e activo
Os agricultores sabem que para se saber se a terra tem calcário , deitam no solo algumas gotas de acido clorídrico e em caso positivo  a terra ferve com bolhas .
Entre os dois milhões de plantas , havia 6 videiras oferecidas pelo professor, dotadas de poderes que na altura se duvidava . Essas plantas , resistiam á filoxera e a  doenças como o míldio – só que a sua entrada em Portugal não era legal .
A GNR vigiava e mandava arrancar tudo o que fosse produtor directo . Houve muitas mortes ocasionadas por esta lei e isto em todo o país (*).
Os fiscais aduaneiros que assistiam a descarga dos camiões TIR estiveram com as plantas na mão e para eles ,  elas eram todas iguais .
O nome de código das plantas eram SV 23410 e SV 20.473 Foram plantadas no Inverno de  1968 numa latada da Quinta da Serrada,  que o leitor pode ver na foto em anexo .
Trinta e quatro anos depois ,  uma destas  variedades  encontra-se espalhada por todo o distrito de Leiria , cedida de agricultor a agricultor para fazerem latadas ( poucos sabem a historia ).
Ao fim de 34 anos de ensaios,  podemos garantir que passou todos os testes de adaptação
Resiste á filoxera .NUNCA teve qualquer tratamento contra o míldio ou oídio ,  quando qualquer videira necessita de 10 a 12 tratamentos  por época . As uvas são brancas , doces , de sabor europeu nada tem a ver com o horrível sabor das uvas das videiras americanas
As plantas frutificam muito bem  todos os anos , sem os problemas de alternância .
O único defeito são as necroses folheares provocadas por deficiência em magnésio mas perfeitamente aceitáveis .
Pergunta o leitor porque é que esta videira não é conhecida ?
Para já , passados 34 anos ,  os direitos de autor caducaram !
Sendo resistente ao míldio e gastando o país milhões de contos em tratamento qualquer tentativa de “ legalizar” a variedade iria sofrer enormes pressões dos distribuidores e fabricantes de pesticidas para entrar no esquema das nossas plantações .
Vamos resumir
Estas variedades ,  foram obtidas através do cruzamento ( feita através da flor nos meados dos anos 50 ) entre videiras americanas e Europeias .Evitávamos assim as enxertias –O leitor mais interessado poderá consultar curtas referencias aos dois híbridos produtores directos no livro de P. Galet “ Precis D´Ampélographie Pratique , 3ª edição de 1971 - pagina 132 .
O diário de Leiria  é assim o primeiro órgão informativo de Portugal a divulgar um segredo com 34 anos – Um segredo guardado religiosamente e que pode tornar-se em breve objectivo de ávida procura de interessados vitivinicultores 


 
(*) Os produtores directos em causa , são facilmente identificados sendo o mais vulgar o Jacquez , Labrusca ,Isabelle etc.



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