Mudar o tom de pele gera milhões Da Índia à Ásia cresce a obsessão pelo clareamento da pele. E não são apenas as mulheres que alimentam este negócio milionário. Já lhe chamam o novo racismo branco. Nelson Marques 23:05

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Mudar o tom de pele gera milhões Da Índia à Ásia cresce a obsessão pelo clareamento da pele. E não são apenas as mulheres que alimentam este negócio milionário. Já lhe chamam o novo racismo branco. Nelson Marques 23:05

Mensagem por Vitor mango em Ter Nov 11, 2008 2:15 am

Mudar o tom de pele gera milhões
Da Índia à Ásia cresce a obsessão pelo clareamento da pele. E não são apenas as mulheres que alimentam este negócio milionário. Já lhe chamam o novo racismo branco.
Nelson Marques
23:05 | Segunda-feira, 10 de Nov de 2008

Mudar o tom de pele gera milhões A cantora Beyoncé esteve recentemente envolvida numa polémica acerca do tom da sua pele. Em Agosto último, o jornal The New York Post publicava um artigo acusando a marca de cosmética LOreal de ter clareado a pele à sex-symbol da pop num anúncio
A cantora Beyoncé esteve recentemente envolvida numa polémica acerca do tom da sua pele. Em Agosto último, o jornal The New York Post publicava um artigo acusando a marca de cosmética LOreal de ter clareado a pele à sex-symbol da pop num anúncio

A cena é tocante, ao bom estilo do cinema de Bollywood. No ecrã, duas das superestrelas do cinema indiano, a bela Priyanka Chopra e o popularíssimo Saif Ali Khan, interpretam um casal que se reencontra após anos de separação. Ela deixa cair ao chão uma metade de um coração de prata, dividido anos antes quando trocaram juras de amor, ele traz ainda a sua parte pendurada ao pescoço. Correm lágrimas de felicidade. Abraçam-se. Por fim, a união ansiada após anos de separação, em que ele a trocou por outra beldade dos "plateaux" indianos, Neha Dhupia.

Adivinha-se um beijo, mas quem aparece é a verdadeira estrela do anúncio: o "White Beauty" (Beleza Branca), um produto para o branqueamento da pele comercializado na Índia pela Ponds, do grupo Unilever, o mesmo que comercializa a marca Dove. O destaque é inteiramente merecido. Afinal, sem o creme, percebemos agora, nunca Priyanka teria conquistado Saif, mesmo sendo uma das mulheres mais bonitas do Planeta (foi Miss Mundo em 2000). Honra lhe seja feita então, até porque o anunciante não pagou milhões para não ver a imagem do seu produto no ecrã. Que se dane o beijo.

O polémico triângulo amoroso promovido pela Pons relançou o debate sobre a obsessão indiana com a pele clara, símbolo milenar de status social no país. "É um escândalo", afirmou Subashini Ali, presidente da Aidwa, ala feminista do Partido Comunista da Índia, taxando o anúncio de "racista" e acusando-o de "aumentar os preconceitos pelo tom de pele num país com complexos pós-coloniais". Em sua defesa, a empresa apressou-se a negar qualquer intenção de discriminar e lembrou que na Índia se usam de forma tradicional remédios caseiros para branquear a pele. Ou seja, mais não faz que "fornecer um produto que o mercado quer". Não é a única. Nas prateleiras das lojas e supermercados indianos multiplicam-se os produtos clareadores com preços e marcas para todos os gostos.

Em cinco anos, a venda destes cosméticos cresceu 65%, ao mesmo tempo que nasceram como cogumelos clínicas de estética que oferecem serviços de branqueamento da pele. E não são apenas as mulheres que alimentam este negócio milionário. Três em cada dez clientes são homens. Chamam-lhe o novo racismo branco, mas as suas raízes são históricas. No sistema de castas do hinduísmo, os indianos de pele clara sempre dispuseram de privilégios superiores aos de tez escura. Ainda hoje, as mulheres mais morenas têm maior dificuldade em encontrar marido e o seu dote encarece.
Mudar o tom de pele gera milhões A actriz Priyanka Chopra, Miss Mundo em 2000, fez publicidade aos cremes comercializados na Índia para clareamento da pele
A actriz Priyanka Chopra, Miss Mundo em 2000, fez publicidade aos cremes comercializados na Índia para clareamento da pele

Nos anúncios matrimoniais, onde os pais procuram companheira para os filhos, ter pele clara é cada vez mais um requisito. Mas há um outro aspecto salientado pelos críticos: a influência desempenhada pelos padrões de beleza ocidental. Veja-se, por exemplo, a recente polémica criada pelo alegado aclaramento, com recurso ao Photoshop, da pele da cantora Beyoncé num anúncio da L'Oréal.

A nova forma de racismo global estende-se também à Ásia, onde, além da expansão dos branqueadores, há cada vez mais clientes da cirurgia às pálpebras para obter uns olhos arredondados que confiram um aspecto mais ocidental. Mesmo em África, onde aclarar a pele é visto como algo embaraçoso, porque tido como a manifestação de um complexo de inferioridade, os cremes vendem-se clandestinamente.

Trata-se de produtos mais baratos, geralmente tóxicos. Um componente comum a muitos destes cremes é a hidroquinona, que, se usada em elevadas concentrações e durante muito tempo, pode ter efeitos adversos. "A pigmentação não é regular. As pessoas podem ficar com um efeito de pele de leopardo", alerta Manuel Marques Gomes, presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia.

A União Europeia proibiu a comercialização de cremes cosméticos que tenham concentrações superiores a 2% desta substância, mas não existe qualquer controlo sobre os produtos ilegais, muitas vezes vendidos através da Internet, especialmente no Reino Unido, onde existe uma elevada população asiática, africana e caribenha.

"Este tipo de produtos só deve ser usado para os fins a que se destinam [tratamento de manchas na pele], com regras e sempre sob supervisão médica", adverte o clínico.

Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 08 de Novembro de 2008
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