júlio Machado Vaz: "Sou um preguiçoso militante mas só por algum tempo"

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júlio Machado Vaz: "Sou um preguiçoso militante mas só por algum tempo"

Mensagem por Vitor mango em Sab Dez 19, 2015 4:44 am

úlio Machado Vaz: "Sou um preguiçoso militante mas só por algum tempo"

André Carrilho


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Almoço com Júlio Machado Vaz
Júlio Machado Vaz é um homem de hábitos e tem de perguntar ao Sr. João Costa há quantos anos vai àquele restaurante. "Há 17", responde o solícito proprietário da casa, enquanto o professor de Psiquiatria e sexólogo relembra que ao Franganito vai há mais de 40. E ele tem 66 anos de vida, dois filhos, dois netos, reformado como catedrático mas longe de se reformar do resto. "Eu vivo do meu trabalho, antes de mais. E continuo a ter o meu consultório, continuo a fazer televisão e rádio no Porto Canal e na Antena Um, e muitas outras coisas, nomeadamente uma que é a que me preocupa mais hoje: a Comunidade de Inserção Paulo Vallada, da Fundação da Juventude, que ajuda jovens grávidas, que é um problema terrível."
Depois de concordarmos com a sugestão de comer um robalo, foi servido em lambreta um vinho de pressão sui generis, "que não é maduro nem verde, é de transição, de Castelo de Paiva", elucida o Sr. João. Para o Prof. Machado Vaz é um hábito, para mim uma boa surpresa e por isso vai acompanhar-nos até ao fim da refeição. Como nos vai acompanhar a sua preocupação com a comunidade e conta como precisam muito de dinheiro e como o ministro do anterior governo ignorou uma carta. "Escrevi em maio ao ministro Mota Soares a falar das necessidades de uns parcos milhares de euros. Convidava-o a visitar, a vir ver. Quer saber que nem o quinto assessor teve tempo de nos responder? Uma carta que fosse a dizer que não? Isto é inaceitável." E lembra como chegou a colaborar com ações do governo de Passos Coelho, nomeadamente com a secretária de Estado da Igualdade, Teresa Morais.
Militante de partidos? Nunca
Se toda a gente o conhece pela sexologia, foi mais de política que se falou à mesa ontem. "Eu sempre fiz política, do ponto de vista dos direitos das pessoas muito diretamente, mas nunca do ponto de vista de lugares ou partidário." De resto é muito firme a dizer: "Nunca farei parte de um partido." Isto porque leva as coisas a sério e "num partido é preciso cumprir regras, não faz sentido de outra forma e eu sou pouco dado a isso". O pai, Júlio de Sousa Vaz, catedrático de Bacteriologia de Medicina no Porto, era do PS. "Para ele, que tinha muitos amigos fundadores do PS, que era amigo do pai de Jorge Sampaio, o PS era mais do que um partido, era mais do que política, era algo afetivo. E militante. Lembro-me de, já casado e pai de filhos, me telefonar a dizer. "Meu filho, tomei a liberdade de o inscrever, a si e à senhora sua mãe - era assim que ele falava -, no jantar da candidatura do general Ramalho Eanes à Presidência, espero que não se importe"." E lá iam, ao Pavilhão do Académico, salvo erro. Ou de lhe telefonar num domingo de manhã: ""Meu filho, era só para lembrar que hoje é dia de eleições. Vai votar, não é verdade?" Claro que eu ia votar - nunca deixei de votar, mesmo que fosse em branco. Não votar seria trair a herança familiar. Porque me lembro de como era dantes, porque me lembro de que o meu pai durante dez anos não podia ser catedrático até que um ministro aceitou e ele disse que já não valia a pena, que isto e aquilo, e foi a minha mãe quem se impôs: "Claro que vai ser, porque é isso que quer e porque foi para isso que se preparou e tem esse direito.""
A família é, visivelmente, um dos temas preferidos. E não era nada comum um professor catedrático casado com uma cantora, Maria Clara. "Foi uma história muito bonita. O meu pai apaixonou-se por ela a vê-la atuar no teatro. Casaram-se, ele com 39 e a minha mãe com 26, e a minha mãe nunca atuou profissionalmente no Porto. Ela era lisboeta, veio para o Porto para se casar e dizia que no Porto era mãe de família e só atuava em coisas de beneficência - olhe, ia quase todos os anos ao Lar do Comércio, mal sabendo nós que ia acabar lá. Mas o meu pai achava que ela devia atuar no Porto, onde todos a tinham tratado tão bem, mas ela recusava sempre. O problema é que se espalhou o rumor de que era o meu pai que não a deixava atuar, quando de facto não era."
Define-se politicamente como "um conservador de esquerda - odeio mudanças, angustiam-me, mas ainda odeio mais as injustiças", numa fórmula curiosa. Nas últimas eleições aceitou ser mandatário do Livre - Tempo de Avançar, de Rui Tavares. Ainda lhe disseram que devia ser mesmo candidato a deputado, que podia ser eleito pelo Porto, "mas esse era o problema - eu não quero ir viver para Lisboa, quero viver no Porto, é aqui que tenho as raízes, os amigos, as minhas coisas". Até seria mais difícil por exemplo dizer que não a um cargo na vereação da cidade do Porto, diz. Mas acha que o Bloco de Esquerda mudou de posição, "abriu-se mais ao PS, por causa também do Livre, pelo menos é assim que eu vejo e houve voto útil no Bloco". Tavares não foi eleito "por poucas centenas de votos" e "no meu pessimismo militante pelo menos esperava que o líder fosse para o Parlamento". Voltou na campanha ao Mercado do Bolhão onde não ia há anos, talvez desde que foi mandatário de Jorge Sampaio. "Desta vez também houve ainda uma vendedeira que me disse "olha o filho da Clarinha". Quando foi do Jorge Sampaio lembro-me bem, havia o Sexualidades, e uma das vendedeiras dizia: "Tu és o filho da Clarinha, o que sabe muito de sexo, não és? Anda cá que eu quero dizer-te umas coisas..." e eu fugia dela, claro."
E já é também mandatário no Porto da candidatura de Maria de Belém. "A Maria telefonou--me a dizer que ia ser candidata e tal e que gostava que eu fosse mandatário dela. Eu tentei fazer uma finta à Maria, dizer-lhe que qualquer dia era profissional de mandatário, mas claro que não consegui e ela foi muito direta e eu tive de aceitar." De resto, acha que está tudo feito para Marcelo Rebelo de Sousa ganhar à primeira volta. "Se tenho uma visão catastrofista do Prof. Marcelo na Presidência? Não, não tenho. Tenho de resto uma cordialíssima relação com ele, a quem devo algumas gentilezas. Mas a minha obrigação é outra, é olhar para os candidatos e ver qual é, daquilo que conheço, o que tem melhor currículo para ser PR. E isso na minha opinião é a Maria." De resto, acha que há uma grande injustiça: os outros candidatos são vistos pelo currículo enquanto Marcelo "é visto como o tipo lá de casa que toda a gente conhece". É um problema difícil para os outros candidatos.
É melhor adoecer por cá
As pataniscas eram boas, o pão e o presunto também, o vinho refrescou bem nestes dias de dezembro sem frio. O professor começa por recusar o creme queimado, pelas calorias - tem de ter cuidado, nasceu pré-diabético - mas depois de ouvir as sugestões acabámos mesmo num belo creme queimado. "Sou um preguiçoso militante, mas ao fim de pouco tempo já não consigo estar parado", diz a certa altura. Tanto que, para um hipocondríaco como ele se assume, há uns meses os médicos disseram que estava em boa forma mas devia acalmar um bocadinho. "E eu fui para Nova Iorque. Fazia 50 anos que lá tinha ido a primeira vez, com a minha mãe, e 35 da morte do John Lennon e lá fui. E fui falando com muita gente e olhe, felizmente o nosso Serviço Nacional de Saúde compara bem com o de muitos outros países." Mesmo depois da troika? "Sim, continua a comparar bem. Meu caro, quem tenha a sorte de adoecer por cá, não é mau. Nos EUA há muitos que nem estão doentes porque nem existem." Mas diz que este foi talvez o ano em que trabalhou mais, sente isso e é capaz de continuar porque sabe que ser mandatário ainda dá trabalho.
Se se pode estar duas horas e meia com Júlio Machado Vaz sem falar de sexo (quase), é impossível não falar do Benfica. "Luís Filipe Vieira é muito gentil comigo. Eu estou no Porto, rosno às vezes através de sms e ele responde sempre. Sobre Jorge Jesus, ele diz que faz segundas voltas melhores do que as primeiras e não faz - na época passada um FC Porto normal teria ganho o campeonato a certa altura. Na minha incomensurável ignorância futebolística do 4-3-3 e do 4-5-1, eu teria preferido Marco Silva como treinador mas agora é Rui Vitória e Rui Vitória é o meu treinador. Mas neste momento já não acredito que vamos ganhar o campeonato, a Taça já foi, a Taça da Liga é uma competição menor e na Champions poderemos passar o Zenit mas não será fácil ir muito mais além. E por isso..." Para ele, a contenção de despesas "é essencial, para o Benfica e para os outros - os três grandes, se fossem empresas normais, já podiam ter fechado". Mas diz que a pré-época foi um caos, com aquela digressão "Fly Emirates" e agora com o União da Madeira a equipa "falha num jogo que não podia falhar porque se tivesse ganho estava ali próximo". É a favor de jogadores da formação "mas não pode ser só formação" e essa aposta quando se contratam Tarabt, Carcela, Jimenez por nove milhões por metade do passe "é uma contradição". Ser tricampeão é que não acredita "até pela atitude que vi neste jogo na Madeira". É a vida...
Petisqueira do Godinho
- 1 pratinho de presunto
- 8 lambretas de vinho de pressão
- 2 pataniscas de bacalhau
- 1 pão
- 1 robalo na brasa
- 2 leites-creme
- 2 cafés
Total: 38,33 euros

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