“Principal lugar de transformação não é o de Deus, mas o da pertença religiosa”

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“Principal lugar de transformação não é o de Deus, mas o da pertença religiosa”

Mensagem por Vitor mango em Ter Jan 12, 2016 1:03 am

“Principal lugar de transformação não é o de Deus, mas o da pertença religiosa”
Nuno Ribeiro e Lurdes Ferreira
12/01/2016 - 07:50
O lugar da futura religiosidade das sociedades vai colocar em causa tanto a laicidade dos Estados como as próprias hierarquias das igrejas, diz o antropólogo e sociólogo Alfredo Teixeira.
“A possibilidade de agir no contexto [religioso] tem as mesmas dificuldades que para agir na economia” RICARDO CAMPOS


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Alfredo Teixeira, antropólogo e sociólogo, responsável do Centro de Estudos de Religiões e Culturas na Universidade Católica Portuguesa, antevê que o lugar futuro da religião tende a ser cada vez mais uma escolha de "radical" liberdade individual.
Meio milénio depois de Thomas More, como é possível que a milhões de pessoas não seja permitida a liberdade religiosa?
Não há uma explicação única para todos os contextos em que a liberdade religiosa sofre limitações. Em alguns casos advém de um paradigma político, em que uma certa ideia política tentou substituir a função de agregação da religião na sociedade, a construção de uma ideia de futuro para a vida das pessoas. Em outros casos, advém da hegemonia que uma determinada tradição religiosa tem num espaço e da relação que estabelece com as outras dinâmicas sociais.
Nas sociedades que fizeram a experiência histórica da modernidade, onde o lugar da religião sofreu uma alteração importante a partir dos séculos XVI e XVII, temos formas bastante diferentes de inscrever essa liberdade religiosa no espaço público. Temos uma identidade nacional fortemente vinculada a uma entidade religiosa nas sociedades do Norte da Europa em que a própria ideia de Nação foi configurada religiosamente - a Dinamarca, por exemplo -, embora depois a sociedade seja muito secularizada e a religião tenha um impacto diminuto no quotidiano. Mas quando se pensam como Nação essa referência luterana torna-se muito preponderante. Na sociedade britânica temos como chefe de uma igreja um monarca. Nas sociedades do Sul temos a contratualização do Estado com as igrejas maioritárias, portanto modelos concordatários, ou sociedades bi-confessionais, onde a pluralidade religiosa tem um forte equilíbrio, como a Alemanha. O Estado regula e faz da religião uma espécie de serviço público: as universidades têm faculdades de Teologia católicas e protestantes sustentadas pelo próprio Estado, os ministros de culto são como funcionários públicos.
Qual é hoje o número de pessoas que no mundo são perseguidas ou privadas da sua religião?
Falar de números é difícil. Por exemplo, numa sociedade como a China é difícil falar de população privada de liberdade religiosa quando tivemos um século de construção de práticas onde a socialização excluiu o universo da expressão religiosa. O que subsiste hoje ou é muito ligado ao Estado ou, então, quase um religioso selvagem, que invade a China e preocupa o Estado. É um fenómeno novo, uma emergência do religioso não a partir da erosão das religiões tradicionais mas da erosão de uma determinada política sobre a religião que se configura como um vazio religioso.
Podemos falar de uma geopolítica das religiões?
Claro. Hoje, as religiões têm essa escala. Quando pensamos em realidades como o evangelismo pentecostal, as igrejas chamadas neopentecostais, que são dentro do cristianismo o fenómeno religioso que mais se expandiu nas últimas décadas, não é independente da mundialização, de dinâmicas de expansão do mercado. Em muitos casos são igrejas que se vão aproximar muito de dinâmicas de crise.
Pode concretizar?
Por exemplo, a expansão destas igrejas na África subsariana. Estas sociedades que tinham sido regiões de missionação tradicional, onde as igrejas protestante, católica e o próprio Islão tinham uma inscrição muito ampla, conheceram recentemente estes novos fluxos e, em particular, nas complexas periferias urbanas. No quadro pós-colonial, as estruturas tradicionais destas sociedades desmoronaram-se e leva-as a não ter um stock da tradição e, por outro lado, não têm o Estado providência, securitário, que ajuda a construir uma certa coesão. Estas igrejas são muito marcadas pela lógica da conversão individual. Ser crente, neste contexto, é aderir individualmente a um conjunto de convicções e de propostas. Não há, como no caso das igrejas cristãs mais tradicionais e do próprio islão, uma lógica de transformação da sociedade, de inclusão numa sociedade mais ampla. Há, sim, uma palavra dirigida ao indivíduo que está numa situação crítica…

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