A ABSTENÇÃO "QUEIROZIANA" DO PS NO "CASO ALBUQUERQUE"

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A ABSTENÇÃO "QUEIROZIANA" DO PS NO "CASO ALBUQUERQUE"

Mensagem por Vitor mango em Qui Abr 14, 2016 12:55 am

Alfredo Barroso
11 h ·

A ABSTENÇÃO "QUEIROZIANA" DO PS NO "CASO ALBUQUERQUE"
A abstenção do PS no caso da contratação da deputada Maria Luís Albuquerque pela ARRROW, fez-me lembrar aquela famosa crónica de Eça de Queiroz sobre o «partido reformista», publicada em Maio de 1871. Crónica que, na versão original, também assentaria como uma luva no governador do Banco Central Europeu, Mário Draghi, assim como no ex-PR Cavaco Silva e, sobretudo, no triunvirato de direita, Passos-Portas-Albuquerque, que «despachou este país ao longo de quatro anos. Mas resolvi introduzir na crónica do Eça uma pequena alteração, substituindo a expressão «Economias!» pela expressão «Abstenho-me!». Aqui vai ela, na íntegra:
«O partido reformista apareceu um dia, de repente, sem se saber como. sem se saber por que. Era um estafermo austero, pesado, de voz possante. Ninguém sabia bem o que aquilo queria. Alguns diziam que era o sebastianismo sob o seu aspecto constitucional; outros que era uma seita religiosa para a criação do bicho-da-seda. Corriam as mais desvairadas opiniões. Apresentava-se tão grave, tão triste, tão intransigente, que no Chiado afirmava-se ser um personagem da história romana - empalhado!
«Ninguém se aproximava dele, no meio da imensa impressão que causava nos moços de fretes. Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a torcar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.
«- Senhor - disseram - espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um princípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
- Abstenho-me! - disse com voz potente o partido reformista
«Espanto geral.
- Bem! e em moral?
- Abstenho-me! - bradou.
- Viva! e em educação?
- Abstenho-me! - roncou.
- Safa! e nas questões de trabalho?
- Abstenho-me! - mugiu.
- Apre! e em questões de jurisprudência?
- Abstenho-me! - rugiu.
- Santo Deus! e em questões de literatura, de arte?
- Abstenho-me! - uivou.
«Havia em torno um terror. 'Aquilo' não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
- Que horas são?
- Abstenho-me! - rouquejou.
«Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
- De quem gosta mais, do papá, ou da mamã?
- Abstenho-me! - bravejou.
«Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente...
- Abstenho-me! - gania.
«Foi necessário reconhecer, com mágoa, que o partido reformista não tinha ideias. Possuía apenas uma palavra, aquela palavra que repetia sempre, a todo o propósito, sem a compreender. O partido reformista é o papagaio do Constitucionalismo».



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