Guterres, de picareta falante a máquina diplomática

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Guterres, de picareta falante a máquina diplomática

Mensagem por Vitor mango em Qui Abr 14, 2016 12:58 am

Por Ricardo Costa
Diretor de Informação da SIC
 
13 de Abril de 2016
 
Guterres, de picareta falante a máquina diplomática
 

Bom dia,

Quem acompanhou a carreira de António Guterres, na política nacional e depois como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, não pode ter ficado surpreendido com a qualidade da prestação do ex-primeiro-ministro (resumo da SIC Notícias) nas primeiras audições para secretário-geral da ONU, ontem em Nova Iorque.

Quando anunciou que ia abandonar o governo, no célebre discurso do pântano na noite da pesada derrota autárquica de 2001, Guterres era um líder cansado, desiludido por ter falhado a maioria absoluta por apenas um deputado em 1999 e já muito longe da sua primeira vitória de 1995. O homem dos consensos, do diálogo e da descompressão pós-Cavaco tinha ganho fama (e algum proveito) de hesitante, de fugir de ruturas, de facilitar na condução orçamental, de ser melhor a pensar que a governar.

Mas António Guterres era, em simultâneo, um dos políticos mais fulgurantes que Portugal tinha visto em décadas e décadas. Aluno brilhante do Técnico, tinha uma velocidade de raciocínio incrível, o dom da palavra e do argumento parlamentar, um absoluto à vontade na televisão, uma cultura geral enciclopédica e um dom natural para a diplomacia e para as línguas estrangeiras.

A facilidade com que falava sobre tudo e mais alguma coisa deu-lhe direito a um magnífica alcunha – “picareta falante”, por Vasco Pulido Valente – e a pelo menos um episódio embaraçoso, o da gafe do PIB, de que eu e o meu colega Luís Pinto fomos responsáveis, numa reportagem que fizemos para a SIC em 1995 e que ainda hoje corre no Youtube, envolvida em vários mitos urbanos e versões fantasiosas (O PIB de Guterres contado na primeira pessoa é a minha versão do que se passou).

Se a facilidade de falar lhe causou um ou outro embaraço, garantiu-lhe muitos mais sucessos. A prestação de ontem foi mesmo muito boa e em absoluto contraste com o que se costuma ver na ONU. Se a diplomacia assentasse na simples escolha do melhor, António Guterres estaria muito bem lançado para ser o próximo secretário-geral. Mas a luta é muito mais renhida, sobretudo quando as prioridades vão para alguém que represente a Europa de Leste e preferencialmente seja mulher.

Guterres não cumpre nenhum desses requisitos, mas ontem confirmou que a “picareta falante” é uma máquina diplomática. Num processo longo e com várias fases, é perfeitamente natural que passe esta primeira fase com distinção e siga por mais algum tempo na corrida. Mas o seu sucesso vai depender também dos nomes que forem caindo, ou por má prestação diplomática ou por vontade de países do Conselho de Segurança e que mantêm o direito de veto. Vai ser uma corrida longa.

 

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