A embaixada e o muro Adriano Moreira

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Mensagem por Vitor mango em Qua Fev 01, 2017 1:11 am

A embaixada e o muro





O grave problema do binómio Israel-Palestina, numa lembrança breve, não pode omitir, como ponto de partida, a missão do capitão Thomas E. Lawrence, que na lenda ficou recordado como Lawrence da Arábia. Esta traduzia-se em mobilizar a revolta árabe contra o então Império Turco, ainda hoje repudiando a Turquia ter praticado um genocídio contra os arménios, e prometendo a autodeterminação "definida e clara", com a garantia do Reino Unido, tudo objeto da análise recente de Moniz Bandeira, o ilustre e severo analista do que chamou no livro Formação do Império Americano (2014). Uma lembrança provocada por duas decisões do recente governo americano, a primeira sendo construir o muro que separará o México dos EUA a expensas do primeiro, a segunda determinando à transferência da embaixada americana para a Cidade Santa de Jerusalém, o que faz prever como preço o aumento do risco para a desejada paz entre as duas comunidades, Israel e Palestina. Estes factos, inscritos na desordem internacional de que todos somos vítimas, com expressão maior na crise económica e financeira mundial, que não conseguimos eliminar, relembram, desde a guerra de 1914-1918, a relação que o mesmo historiador volta a trazer à atualidade, entre os princípios dos conceitos estratégicos americano, francês, e do Reino Unido, os quais, implicando o incumprimento dos resultados conseguidos por Lawrence da Arábia, provocaram a angústia que este deixou expressa nas suas memórias, e o descontrolo do breve fim da sua vida. A criação do Estado americano foi uma extraordinária emergência de vontade, talento e criatividade, com inevitáveis violências que nenhum Estado deixa de ter registado na própria história, mas com um conceito estratégico que se tornou paradigmático: destino manifesto, o que inclui a expansão do Atlântico ao Pacífico, o resto da história sendo corolários; a doutrina de Monroe, de 1823, segundo a qual nenhum país europeu seria admitido a intervir no continente americano, assim como os EUA não poderiam intervir nas disputas europeias. De facto, o não cumprimento das instruções e os resultados da missão de Lawrence, avaliados com a debilitação do Pacto da Sociedade das Nações, destruição dos impérios europeus (Alemanha, Austro-Hungria, Rússia e Turquia), significou no tempo reservar para os EUA uma exclusiva influência no Sul do continente, a famosa reserva sonhada pelo abade Correia da Serra para a proeminência do Brasil. Práticas que nos tempos recentes explicam o frequente antiamericanismo dos países do Sul do continente podem ter a questão de Cuba como símbolo e agora o muro como um facto que inevitavelmente vai tornar mais difícil esquecer o passado em favor da harmonização do mundo tumultuoso em que nos acontece viver. Os defensores da paz, que hoje acompanham o Papa Francisco, vindo dessa região semeada de problemas sociais, vão enfrentar novas dificuldades. Por outro lado, a questão da embaixada em Jerusalém, a Cidade Santa onde se encontram várias religiões em coexistência nem sempre fácil, vai agravar todos os gravíssimos incidentes daquela região, que pelo menos desde 1970, data marcada pela tentativa de assassínio frustrada do rei Hussein bin Talal da Jordânia, por um militante da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), porque o acusava de apoiar Israel, é inquietante. Não exige grande esforço evidenciar o que não devia ser provocado, que é um golpe de enfraquecimento da esperança dos sacrificadores palestinos, em cuja geração viva será difícil encontrar quem tenha crescido em paz, com dignidade e liberdade desde o seu nascimento, com esperança, pelo menos, na formação de dois Estados, que na ONU encontrou apoios. O sentido da decisão não é o de contribuir para essa solução, que exigiria concessões reciprocas, e talvez remetesse para o esquecimento a frustração de Lawrence da Arábia, e o custo em vidas mal vividas que tem acontecido desde que a Inglaterra, talvez pela primeira vez na sua longa história, abandonou de facto o exercício do protetorado. Uma solução autónoma na política da formação de dois Estados, e que, sem fazer desaparecer o projeto, ajudaria à paz, seria talvez que a comunidade internacional, isto é, a ONU, sobretudo o seu Conselho de Segurança, conseguisse instituir o já proposto e esquecido estatuto de Cidade Livre para Jerusalém, uma forma jurídica que teve bons exemplos no passado. Não é aceitável que uma intervenção de uma soberania da cultura cristã ocidental, ao tomar a iniciativa de transferir a sua embaixada para a Cidade Santa de Jerusalém, agrave de maneira evidente a dificuldade de finalmente restabelecer a paz, antes contribuirá para agravar os conflitos.

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