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POMPAS FÚNEBRES

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Mensagem por Viriato Ter Fev 01, 2011 9:17 am

POMPAS FÚNEBRES

POMPAS FÚNEBRES Estoril+Sol+Byrne

Agora que o n.º 99 [Fevereiro] da LER está na rua, deixo aqui a crónica Pompas fúnebres, publicada no n.º 98 na minha coluna Heterodoxias:


Inês não esquece o dia em que fez 15 anos. A mãe tinha-lhe dito para pedir o bacalhau à professora de inglês. O filho de Eunice Gardiner estava colocado na base das Lajes. Era de lá que mandava o bacalhau mais o whiskey e o Uncle Ben’s. Inês tinha vergonha. As suas amigas não entravam em esquemas daqueles. E as que iam à Casa do Príncipe vinham de lá com histórias divertidas. Havias de ver a Champas a discutir com a Mizé com um salmão inteiro entalado no sovaco...

Inês escondia os embrulhos do trambique enquanto ria um riso amarelo. Uma manhã em que chegou mais cedo apanhou o gerente do banco no alpendre do colégio a encher a bagageira do carro com embalagens de Marlboro. Corria que a Tabacaria Purvis era da amásia.

A crise tem costas largas. Inês não quer saber dela.

Na tarde do dia em que fez 15 anos o Rui levou-a de mota para as dunas do Abano. Vais gozar muito. Não tenhas medo. Gozou. Pensava que daquele modo só entre rapazes. Afinal as mulheres davam. Ela deu. Confirmou que era verdade o que ouvira dizer acerca dos dedos grossos dos homens. Voltou dorida e feliz.

Sozinha em casa (os pais têm sessão de terapia grupal no Chequers) toma consciência da condição de fêmea. Enche o bidé de argila fresca e senta-se. Repousa até perder a noção do tempo. É muito tarde quando sai do banho para ir ter com o grupo à Choupana.

Inês tem 25 anos no dia em que o pai mete a pistola a boca e dispara. A mioleira deu cabo do Noronha da Costa. Negócios fora-da-lei? O pai? A Sociedade de Corretagem falida? Então a casa já não era deles? Em que parte da história entrava o broker preso pelo FBI num hotel de Atlanta? O tal que foi a Fátima pedir desculpa pelo incómodo.

Hoje tem 43 anos.

Aos domingos vê o Rui na varanda do Albatroz. Ele com a Manecas e uma erecção discreta. Ela com o Abílio e o Abílio com a metafísica do balneário. Dadinha Vacarothko (em solteira Mergulhão) comprou um T5 na fortaleza do Byrne. Cada cêntimo investido é uma paráfrase bíblica. Onde vão os linguados do João Padeiro. Agora não faz a coisa por menos que olhos de boga envolvidos em crème fraiche mergulhados em azoto líquido.

Inês está cercada. A escola do filho come dois terços do salário do marido. Aguenta porque o imobiliário classe AA+ passa incólume à derrocada geral. Cinco milhões de euros? Seis? Who cares? Os que vêm de Angola trazem o dinheiro em sacos tartan-cíclame do Roque Santeiro. Os de São Petersburgo e Novgorod tomam cautelas de offshore. Inês jurou que não voltava às punhetas de bacalhau. Venham mais ovimbundus e capos da Orekhovskaya pois com Braganças é pura perda de tempo. E não é que um Chipenda lhe comprou um duplex para uma manicure ruiva da Quinta do Bau-Bau? A mulher transferiu-se da Sobreda para o Parque das Nações rodeada de tanta coreografia que provocou uma reunião urgente da comissão de condóminos. Isto é um condomínio respeitável!

Suportou tudo. A candonga de Mrs Gardiner. As punhetas de bacalhau da mãe. O suicídio do pai. A absolvição do yuppie. O tédio do casamento. A perda dos activos do BPP. Agora tratava-se do filho. Um miúdo de 17 anos. O Zé Maria anda a vender mefedrona a outros alunos. Não queremos publicidade nem vamos avisar a polícia. Mas ele tem de deixar a escola imediatamente. Mefedrona? Inês sente-se aturdida. É a primeira vez que ouve o palavrão. O advogado diz que se trata de uma droga sintética muito popular. É a prima judia do MDMA. Prima? MDMA? Desiste.

O Abílio desinteressa-se. Pelo menos não é maricas. Zé Maria diz para quem o quer ouvir que o seu melhor cliente é o filho do director da escola. Pudera! Sem fertilizante o gajo não a põe de pé. Inês sente o chão a rodopiar. Então é para isto que trabalha como uma mula.


[O texto contrapõe a crise económica e financeira de 1983 à de 2010. Na imagem, parte do edifício Estoril Sol Residence, do arquitecto Gonçalo Byrne.]

posted by Eduardo Pitta

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