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Mensagem por Vitor mango Qui Ago 18, 2011 12:14 am

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ESCRAVA


Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.
Capturada em África e embarcada com destino à América,
é vendida num mercado da Venezuela.
Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,
na qual aprende depressa, demasiado depressa…
Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.
Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.
Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…




Nos
finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha,
contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios
espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.

Todos
os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal
porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos
usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da
terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as
tarefas domésticas.

Tal
como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram
tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não
hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do
país, ainda muito despovoado.



Sobre
o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os
olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de
obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente
como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas
curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.

A
travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os
tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos
companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento,
completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas,
observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.

No
seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos, que
parecia alheada de tudo o que a rodeava. A sua cara bonita, emagrecida
por todas as provações que sofrera, tinha um ar totalmente ausente, e
esta impassibilidade ainda a tornava mais patética do que os outros. Não
manifestou qualquer tipo de emoção quando o traficante a puxou pelo
braço para a apresentar a um homem muito moreno, cujos traços duros eram
pontuados por um fino bigode.

― Leve esta miúda, senhor. Não posso baixar o preço do lote, mas dou-lha de graça.
― É muito magrita! ― protestou o homem. ― E nem sequer parece acordada.

Ouça, señor Ricardo, é pegar ou largar. Os três homens são robustos e
as duas mulheres são jovens e sadias. Cinco belas “peças” por mil e
duzentos pesos, com a miúda a completar, eis o que eu chamo um belo
negócio!

O
homem chamado Ricardo fingia hesitar, enquanto observava a rapariguinha
sem qualquer piedade. Don José Mijares de Solapado y Pacheco, de quem
era intendente, tinha necessidade de novos criados e tinha-o incumbido
de comprar alguns boçais. O intendente tinha viajado de propósito de
Caracas, a capital, que ficava para lá das montanhas, a fim de assistir à
chegada desta carga.

Claro
que iria comprar o lote. Era preciso aproveitar a ocasião. À parte a
miúda, tinha seleccionado os melhores exemplares e tinha negociado um
bom preço. Don José ficaria satisfeito.

― Está bem ― disse lentamente. ― Põe a miúda junto dos outros.
Os
seis boçais foram colocados na casa principal de Don José, a fim de se
habituarem à língua. Também era preciso saber quais deles estariam aptos
para o serviço doméstico. Após algumas semanas, foram mandados embora
dois homens e uma mulher, que se mostravam rudes e teimosos.
Enviaram-nos para uma plantação de café, onde o chicote do capataz os
poria no lugar.

Eram
precisos escravos dóceis e inteligentes para o serviço da casa. Só
ficaram com um dos homens, que parecia ter jeito para a jardinagem, e
com uma mulher, que confiaram à cozinheira, também ela negra. A miúda,
que os medos e os sofrimentos passados pareciam ter estupidificado,
ficou também na casa. Era demasiado débil para trabalhar no campo.

As
criadas tentaram conquistá-la, mas ela parecia um animal acossado num
canto. Quase não pegava na comida que lhe davam. Na casa, havia escravos
de várias origens, e todos os que ainda se lembravam do seu dialecto
africano tentavam falar com ela. A cozinheira, a ama, a criada de passar
a ferro, um criado, todos tentavam fazê-la falar.

Mas
a rapariga não reagia. Parecia nada compreender e olhava-os apenas com
uns belos olhos cheios de medo. A sua existência passada parecia-lhe
agora extremamente longínqua. Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão
da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do chefe, seu pai, durante
a batalha.

Depois,
tinham sido feitos prisioneiros e forçados a caminhar durante dias a
fio: ela, a mãe, os dois irmãos, e muitos outros. Separaram os homens
das mulheres e os irmãos desapareceram. A mãe e ela tinham ficado
fechadas numa casa abafada, juntamente com outras mulheres, antes de
embarcarem numa horrível prisão flutuante, onde eram guardadas por
homens brancos.

Quase
todos os prisioneiros, acorrentados e amontoados no porão abafado do
navio, tinham enjoos horríveis. O cheiro de vómito e de excrementos era
insuportável e a escuridão ressoava de lágrimas, gritos e gemidos.
Contudo, após alguns dias de travessia, Ana tinha-se sentido um pouco
melhor, e tinha engolido um pouco da ração que lhes davam duas vezes por
dia.

A
mãe não comia, porém. Tinha o corpo a arder, os olhos sempre fechados, e
era violentamente sacudida por tremuras que a filha tentava em vão
acalmar, apertando-a nos bracitos magros. Nem conseguia pensar no que
sucedera depois. Com um olhar cansado e os lábios gretados, a mãe
murmurara:

― Não te esqueças, minha filha, de que o teu pai era um grande chefe. Sê corajosa, como ele.
― Prometo! ― dissera a filha.
Quando
ouviu a respiração fraca da mãe transformar-se num gemido assustador, e
sentiu o seu corpo acolhedor e quente transformar-se em algo de rígido e
frio, a coragem abandonou-a e a noite apoderou-se do seu espírito. O
mundo em redor tornou-se confuso e obscuro, como se as máscaras sagradas
da sua aldeia a tivessem conduzido às profundezas da floresta
interdita, onde só reinava o caos e as trevas.

Não
se lembrava do que acontecera em seguida. Mesmo o sol e o ar livre não
conseguiram libertá-la da noite permanente em que estava mergulhada.

Pascale Maret
Esclave !
Toulouse, Milan Poche Junior, 2007
(Tradução e adaptação)

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Só discuto o que nao sei ...O ke sei ensino ...POIZ
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Vitor mango
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