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A fonte da paciência

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   A fonte da paciência Empty A fonte da paciência

Mensagem por Vitor mango Sex Set 05, 2014 11:00 am

 
 

[center]A fonte da paciência
 
Quando o carro entrou na ladeira que leva à praia a algazarra deles cessou. Silêncio de gato a farejar rato. Mas ali o rato era a expectativa dos quinze dias de férias que tinham à frente. O automóvel descia devagar, engatado em segunda, à direita o mar bem pertinho, ali em baixo no abismo talhado a pique, à esquerda a mata espessa da Arrábida. Cheiro a maresia e a resinas perfumadas do arvoredo.
Estacionam no largo à sombra das palmeiras. Um de setembro, nove da manhã, ainda não havia chegado a força dos novos veraneantes e os de agosto tinham já partido. O arrumador, barba e cabelos brancos, pele tisnada do sal e do sol, calções curtos, pés descalços, apita a indicar o lugar, bonezinho de pala preta, camisa axadrezada, um velho lobo-do-mar,
Abrem-se as portas e a vozearia. Já vinham em fato de banho desde Lisboa. Os rapazes correm logo até a beira do cais a ver a água. Ondinhas mansas, chape-chape no casco dos barcos de recreio e de pesca, floresta de mastros, cores berrantes a refletirem-se na ondulação.
— Vá! — diz a mãe. — Cada um com as suas coisas.
A tralha é muita, a do costume quando se vai viver quase como Robinson Crusoe numa barraca de madeira a meio do monte. O que vale é que eles são seis. Uma escadinha, como na fotografia: a Né, a Bibi, a Naná, o Nando, o Tuta e a Filó, por ordem de idades. Mais os pais.
E a aventura principia. Para encontrar a barraca, que lhes fora emprestada por um amigo, só têm um papel com um desenho tosco, que o pai, ajoujado com uma mala ao ombro e uma data de objetos debaixo do braço, segura na mão livre: «Por aqui.»
Deixam o cais, a sombra, as mesinhas cheias de conchas raras, recordação de, seguem por detrás dos restaurantes que sobre estacaria estendem as esplanadas pelo mar, e metem por uma senda de terra batida entre a água e uma série de casinhas baixas de aluguer. Sobe-lhes por ali arriba a montanha coberta de árvores e arbustos. No meio de alfarrobeiras, zimbros e carvalhos, aqui e ali pequenas barracas de madeira que ostentam gradeamentos de ripas com pretensões a balaustres de palacete.
Parar, consultar o mapa do tesouro, olhar ao alto. Há ali à esquerda um trilho estreito com vagos degraus cavados na terra dura entre murta e aderno.,.
— Deve ser por aqui.
A subida é custosa, às curvas no túnel de zambujeiros e folhados. Um patamar! Ufa! Uma abertura desvenda-lhes o primeiro deslumbramento: o areal em baixo, toldos alinhados, areias limpas, as ondinhas a marulhar-lhes espuma pela borda fora até lá ao fundo. Além, a Pedra da Anicha, muito ao longe a linha da costa a esfumar-se num traço de anil... nas narinas o respiro forte das algas e da serra... Os tagarelas nem falam...
Um esforço mais e de repente a barraquinha aparece na clareira a meio da encosta, assentada em quatro grossos barrotes no terrado abobadado de pinheiros mansos que se vergam e abrem como janela gótica virada ao mar. Pousar de malas e embrulhos, correrias, desaparecer no bosque, gritaria:
— Aqui! Aqui!
A mãe e o pai que arrumem, claro!
Três corpos: um central, que servia de cozinha, sala de jantar e sala de estar; os laterais, cada um com dois beliches e uma cama. Cá fora, uma tábua comprida faz de mesa servida por dois bancos corridos. Todos sonham com saborear ao ar livre a sardinhada com pimentos assados, jantar à noitinha ao luar sob a miosótis das estrelas, porque lá dentro na cozinha mal cabem à volta da mesinha redonda.
— Não falta nada? — pergunta a mãe.
Botija de gás para fogão, candeeiro de petromax, abastecimento para esse dia... Sem eletricidade não há frigorífico e é preciso ir quase todos os dias de carro ao mercado de Setúbal... Não, não falta nada. Televisão, viste-la. Mas perdoa-se algum desconforto pelo bem que sabe aquela vida primitiva.
— Mãe, quero ir ao quarto de banho! — grita a mais pequena.
Que problema! Como é que os outros, os donos da barraca o tinham resolvido? Mas a malta mais crescida já batera o campo e achara a secreta: um assento de madeira com tejadilho sobre uma fossa cavada na terra, tudo muito escondidinho lá para trás da mata entre a folhagem das aroeiras e o mosquedo.
Mais tarde comprou-se cal viva para combater aquela pestilência.
— Aprendamos, — sentencia o pai — que a idade das cavernas está mais próxima de nós do que pensamos.
 
Passam a tarde na praia, no mar, estirados ao sol na areia. À tardinha regressam. A noite caía. Lá dentro voejava uma borboleta em redor do candeeiro.
— É uma bruxa que te vem comer, Filó!
— Ó mãe, olhe a Naná!
Ao jantar, cá fora, são convidados os moscardos e as vespas. Os miúdos dão-se sapatadas uns aos outros a pretexto e riem perdidos.
— Preciso de água para lavar os pratos! — diz a mãe depois da ceia. — Esqueceu encher o bidão de plástico…
— Eu vou por ela — levanta-se o pai.
— Eu também, eu também, eu também...
— Se pensam que eu fico aqui sozinha, estão muito enganados! — desaperta a senhora o avental.
Acabam por descer todos. No bar de um restaurante, enquanto se bebe o café, refrescos, gelados, perguntam onde poderão encher o depósito de água.
— Há uma bica aí atrás, a fonte da paciência...
— Da paciência?
Riu-se o empregado com um sorriso sorna:
— Lá verão porquê! — E indica-lhes o caminho.
Atravessam o parque de estacionamento mal iluminado e metem pela escuridão de uma vereda por trás das casas. O luar coava pela ramaria alta dos medronheiros e uma réstia de luz alumiava a fonte. Uma bica encravada na rocha pingava lenta para a pia de pedra... ping... ping... ping... Colocam o bidão a jeito e o pingo de água soa diferente no fundo vazio... plac... plac... plac...
— Por este andar nunca mais daqui saímos… — diz a Né.
— Ó pai, conte uma história! — pede o Tuta.
... plec... plec... plec...
— Já sei porque se chama fonte da paciência… — atira o Nando.
Ouve-se lá no alto uma coruja piar.
— E se vem aí o Medo? — diz a Naná tentando amedrontar os irmãos.
— Deixa-o comigo, que eu lhe digo! — afirma decidida a Bibi.
... plic... plic... plic...
— Por cada gota uma história — quer a Filó.
— Não dá tempo, apesar de lentas.
— Por cada noite que a gente venha à água...
— As quinze e uma noites! — exclama a Bibi, satisfeita com a descoberta.
— Para fonte da paciência só uma história de tartarugas — sai-se a Né.
— Conhecem a história daquela tartaruga que venceu na corrida Aquiles, o homem mais rápido do mundo?
— Conte, conte!
... plof ... plic ... plec ... plof ... plic ... plec ... plof ...
 «Era uma vez...»
 
 
Fernando Campo 
Boletim Cultural
Fundação Calouste Gulbenkian
VIII Série, Nº1 dez., 1994
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Só discuto o que nao sei ...O ke sei ensino ...POIZ
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Vitor mango
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