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A Exploração do Homem pelo Homem A Escravatura Ontem

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Mensagem por Vitor mango Sex Jul 31, 2015 7:44 am

 [size=37]A Exploração [/size]
[size=37]do Homem[/size]
[size=37]pelo Homem[/size]
 
 
[size=35]A Escravatura Ontem[/size]


   
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Rosetta, Rosetta, senta-te ao meu lado!
 
Frederick Douglass nasceu em 1818, numa região pobre de Maryland. A mãe, Harriet Bailey, era uma escrava doméstica que pertencia ao capataz de uma plantação. O pai era um homem branco, cuja identidade Douglass nunca conheceu. Mal Frederick nasceu, a mãe foi enviada para trabalhar numa plantação distante e não pôde cuidar do filho, que ficou a viver com a avó, Betsy.
Quando Frederick fez seis anos, Betsy teve de o levar à plantação, onde, como Douglass escreveu mais tarde, “as crianças eram tratadas como porcos.” Frederick sentia frio com frequência, e só recebeu calças e sapatos aos nove anos, idade em que viajou para Baltimore, com o consentimento do patrão e por vontade da filha deste.
Enquanto viveu na cidade, Frederick aprendeu a ler e a escrever, com a ajuda da patroa e de alguns dos rapazes brancos com quem brincava na rua. Certo dia, um dos colegas de rua falou-lhe de um livro de discursos. Com os cinquenta cêntimos que ganhara a engraxar sapatos, Frederick comprou um exemplar do livro, tendo ficado muito excitado com alguma das ideias nele contidas, tais como liberdade, democracia e coragem.
Enquanto trabalhava em Baltimore, conheceu Anna Murray. Anna era livre, por isso podia casar. Mas Douglass não, pois era escravo. Por muito dinheiro que ganhasse. Decidiu então fugir para o Norte, na esperança de vir a ser um homem livre. No Norte, Douglass construiu uma sólida reputação, fazendo palestras sobre os horrores da escravatura. Era um orador tão convincente que conseguia prender a atenção do público durante duas horas.
Em 1845, escreveu o seu primeiro livro Narrative of the Life of Frederick Douglass, Written By Himself  (1) , no qual contou a história da sua vida, incluindo nomes, datas e lugares. O livro vendeu milhares de cópias. Contudo, dado que a biografia de Douglass incluía detalhes da sua recente vida de escravo, ele corria perigo de ser capturado pelo antigo amo. Seguindo o conselho de alguns amigos, fugiu para Inglaterra. Enquanto Douglass esteve ausente, alguns abolicionistas ingleses compraram a sua liberdade junto do patrão. Na primavera de 1847, regressou à América para continuar o seu trabalho. Já não era um escravo em fuga, que corria o risco de ser recapturado, mas um homem livre. Quando chegou a casa, a família ficou feliz por estarem de novo juntos. Mas Frederick ficou preocupado por ver que a filha, Rosetta, não frequentava a escola…
 
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Capítulo 1
O primeiro dia de escola
 
A escola de Miss Tracy ficava perto de nossa casa, mas a mim parecia-me muito distante. Tinha de ir sozinha e estava com medo, porque as alunas eram todas brancas. O meu pai dizia-‑me para não ter medo das pessoas brancas, e eu bem que tentava. Só que, apesar de já ter nove anos, nunca tinha ido à escola.
Nesse dia, nenhum dos meus pais me pôde acompanhar. O meu pai estava a fazer um discurso no Ohio e a minha mãe não se sentia bem. Eu também não queria que ela me acompanhasse. As pessoas podiam rir-se do seu vestido florido e do seu lenço vermelho e ela ficaria triste. De qualquer forma, ela não queria que eu fosse à escola.
Sabia o caminho de cor, porque o meu pai o tinha feito comigo no mês anterior. Em agosto, tínhamos ido à escola de Miss Tracy e ele tinha-me inscrito, depois de um teste que fiz para mostrar que estava apta. “Não há nada a temer”, repetia para mim mesma, enquanto passava debaixo das árvores frondosas que bordejavam a rua. Por todo o lado, via casas pintadas com relvados amplos e canteiros floridos.
Oxalá houvesse raparigas da minha idade na sala. Tinha uma certa vergonha de nunca ter frequentado a escola. A minha mãe tinha-se oposto quando eu tinha seis anos, e o meu pai estava em Inglaterra, para onde tinha viajado depois da publicação do seu primeiro livro. Como o livro dizia qual era o seu nome de escravo, onde vivia e quem era o seu dono, este podia procurá-lo e capturá-lo de volta. Assim, os amigos do meu pai persuadiram-no a embarcar para Inglaterra e a viver lá durante algum tempo. Eu fiquei com minha mãe e os meus irmãos na América, no Massachusetts.
 
Capítulo 2
Os meus pais
 
Como o meu pai estava fora, vivíamos numa casa pequena. A minha mãe trabalhava numa fábrica de sapatos e precisava de ajuda com os meus irmãos mais novos: Charles, Lewis e Frederick. Costumava trazer couro e formas de sapatos para casa, e sentava-se perto da janela a coser. Eu fazia o almoço e entretinha os meus irmãos. A nossa mãe trabalhava dias a fio, findos os quais levava os sapatos à fábrica e recebia o pagamento. Também fazia algum dinheiro com a venda do livro do meu pai. Às vezes, este enviava dinheiro das palestras que fazia em Inglaterra, e mandava cartas, que os amigos vinham ler a nossa casa.
Eu queria aprender a ler e a escrever para poder ler as cartas do meu pai. Embora uma senhora Quaker que nos visitava me tenha ensinado algumas letras, a minha mãe precisava de mim e não me deixou frequentar a escola. Não conseguia ler, mas geria bem as contas. Era muito poupada e fez todas as cortinas e tapetes da nossa casa.
Quando o meu pai voltou de Inglaterra, abraçou-nos com força. Tinha tido muitas saudades nossas. Queria que eu tivesse ido à escola, que aprendesse a ler e que tivesse amigos, incluindo amigos brancos. Como este era um assunto em que discordavam, os meus pais discutiam bastante e eu ouvia as suas discussões, em alturas em que pensavam que já estava a dormir.
Quando fiz oito anos, fui viver com as irmãs Mott, Miss Abigail e Miss Lydia, umas senhoras Quaker de Albany. Morei com elas vários meses. Tinha um quarto sossegado e estudava todos os dias com crianças brancas e negras. Mas a minha mãe queria-me em casa e o meu pai acedeu. Quando nos mudámos para Rochester, o meu pai tentou inscrever-me na escola pública, mas não conseguiu. Disseram-lhe que eu só podia frequentar a escola para negros, que ficava do outro lado da cidade.
No nosso bairro havia uma escola pública, mas era só para brancos. Por isso, tinha de ir para a escola privada de Miss Tracy. O meu pai era o escravo fugitivo mais famoso do país e o único negro a ter um jornal, o Northern Star. O jornal era publicado em Rochester e seguia por correio para toda a América. Todos conheciam a nossa família. O que me diriam as meninas brancas, hoje pela manhã, quando me vissem chegar à escola delas?
Eu tinha engraxado os sapatos duas vezes e entrançado o cabelo de três maneiras diferentes. A minha mãe passou a ferro a minha saia e a minha blusa. Vi que as alunas vinham para a escola em carruagens elegantes. Todas vestiam saias de corpo e tinham laços bonitos no cabelo. Algumas viram-me subir as escadas.
— Disseram-nos que vinhas! — exclamou uma rapariga ruiva.
— Vem brincar connosco na hora do recreio! — pediu outra.
Estava demasiado envergonhada para falar. Será que ia ser feliz? Continuei a subir os degraus.
 
Capítulo 3
Sozinha
 
Uma vez na escola, dirigi-me ao gabinete da diretora. Miss Tracy era uma mulher de aspeto simples.
— Vejo que conseguiste cá chegar, Rosetta — disse-me. — Vai com esta professora.
Segui a professora e, enquanto passávamos pelo corredor, vi raparigas a espreitar de uma sala de janelas grandes. Fui conduzida a uma sala sossegada e vazia. Não estava lá ninguém. A professora mostrou-me uma secretária e deu-me vários livros.
— Estuda estes livros — pediu, saindo em seguida.
A sala cheirava a giz e a cera. Sentei-me. As borboletas do meu estômago mais pareciam tartarugas. A professora tinha ido embora antes de eu conseguir sequer falar. Nem tinha tido tempo de lhe perguntar nada.
Continuei sentada, à espera de que alguém se viesse juntar a mim. De certeza que em breve me poriam numa sala com outras meninas. Talvez estivessem a pensar em que sala… Passou-se muito tempo. Será que tinha percebido mal? Estava apenas a fazer o que a professora me mandara. Decidi não voltar ao gabinete da diretora. Como não podia sair e ir lá para fora, abri os livros. Conseguia ler um pouco, devido ao que as irmãs Mott me tinham ensinado, mas ainda me sentia nervosa.
Após muitas horas, ouvi o barulho de passos. As raparigas riam enquanto pegavam nos casacos e se encaminhavam lá para fora. Era hora do recreio. Miss Lydia tinha-me explicado que numa escola a sério as crianças saíam para brincar no intervalo. Eu também queria correr e saltar à corda. Já me doíam as costas e os braços de estar sentada há tanto tempo.
De repente, entrou uma professora na minha sala.
— Será que posso ir brincar agora?
— Não, Rosetta, vim ver o que fizeste. Resolve este exercício — disse, abrindo uma página do livro.
Senti-me triste e envergonhada. O meu primeiro dia de escola foi muito duro. O meu pai não me tinha dito que estaria sozinha. Mas não chorei ou discuti. Fiz o exercício. Quando o recreio acabou e a escola estava de novo em silêncio, a professora voltou. Viu o meu trabalho e disse:
— Muito bem. Podes ir lá para fora brincar.
— Mas já todas foram para a sala. Não terei ninguém com quem brincar.
— Não te importes com isso. Aproveita o teu recreio.
Sentei-me no baloiço, debaixo de uma grande árvore. Vi meninas a olharem para mim e uma delas acenou-me. Depois, veio uma professora à janela e mandou-as sentar. Chamaram-me para dentro algum tempo depois. Fui à casa de banho e bebi água. Tinha a blusa engelhada e os sapatos arranhados. O meu pai queria que eu fosse à escola para aprender com bons professores e estar com outras crianças. Mas esta escola era praticamente uma prisão. O que diria à minha mãe quando regressasse a casa?
Uma vez na sala, deitei a cabeça na secretária e pus-me a pensar. Não podia dizer nada à minha mãe. Se lhe contasse, ela ia ficar tão furiosa que nunca mais me deixaria ir à escola. Teria de esperar em casa pelo regresso do meu pai e faltaria a muitas aulas. Decidi esperar pelo meu pai. Ele queria que eu fosse corajosa e havia de ajudar-me. Faltavam só duas semanas para ele regressar.
 
Capítulo 4
À espera do pai
 
Foram as duas semanas mais compridas da minha vida. Todos os dias ia à escola e sentava-‑me naquela sala sozinha. Ia ao recreio sozinha e almoçava sem companhia. Ninguém me dava aulas. Ouvia as raparigas brancas a tagarelar e a rir, enquanto faziam os exercícios de aritmética, e chamava a mim toda a coragem que tinha. Não fugi, não chorei e não desobedeci aos professores. Também não disse nada à minha mãe. Esperei pelo meu pai.
Contei a mim mesma todas as suas histórias favoritas de criança. Assim, o tempo passava mais depressa. Quando era criança e escravo em Maryland, o meu pai tinha aprendido a ler sozinho. No início, a patroa branca tinha-lhe ensinado as primeiras letras, mas depois o patrão tinha-a proibido e ela tornara-se má para ele. Tirou-lhe todos os livros, o que não o impediu de continuar a aprender sozinho.
As únicas pessoas que o ajudavam eram uns rapazes brancos que tinha encontrado nas ruas de Baltimore, além de alguns estivadores do estaleiro onde brincava. Tinha muitos amigos negros em Baltimore, e eles encorajaram-no a continuar. Contudo, não podiam ajudá-lo, porque não sabiam ler nem escrever. O meu pai sabia que havia uma relação direta entre ser instruído e ser livre.
Enquanto eu agora tinha livros com imagens e palavras fáceis, que funcionavam como livros de iniciação à leitura, o meu pai nunca tinha tido livros em criança. Pegava na Bíblia da patroa, quando esta não estava em casa, e também costumava dar uma espreitadela nos livros do filho mais novo, Tommy. Alguns jornais que encontrava na rua serviram-lhe igualmente de apoio.
O seu primeiro livro custou cinquenta cêntimos e foi comprado aos doze anos. Comprou-o numa livraria, com o dinheiro que tinha ganho a engraxar sapatos. Se o meu pai não tinha tantos livros quanto eu, tinha algo que não tenho: amigos brancos! Não fazia ideia de que Miss Tracy não queria que as raparigas brancas me ajudassem, ou rissem comigo, ou brincassem comigo no recreio.
Algumas pessoas chamavam ao meu pai o Leão Negro, por causa da sua voz forte e da sua coragem para falar abertamente. Oxalá pudesse ser tão corajosa como ele!
 
Capítulo 5
O pai vai à escola
 
O meu pai voltou, finalmente. Entrou de rompante em casa, carregado com uma mala, papéis e embrulhos. Corri para ele e abracei-o com força. Todos tivemos direito a abraços e beijos. Depois, sentou-me nos seus joelhos e olhou-me nos olhos. Sabia que me perguntaria pela escola. Os seus olhos brilhavam e sei que esperava boas notícias.
Não consegui reter mais as lágrimas e desatei a chorar. O meu pai ficou muito admirado:
— Rosetta, filha, o que aconteceu?
A minha mãe veio à entrada da sala, limpando as mãos ao avental.
Contei-lhe tudo:
— Põem-me numa sala sozinha e ninguém me ensina. Não me deixam brincar com as outras meninas no recreio e almoço sempre sem companhia. Sinto-me tão só!
— Quem fez isso? A própria Miss Tracy?
— Sim, foi ela que me mandou sentar sozinha no primeiro dia.
— Amanhã vou contigo à escola.
O meu pai escreveu mais tarde no seu jornal: “Fiquei chocado, magoado e indignado.” Miss Tracy tinha-nos enganado. Recebera dinheiro do meu pai, mas não me deixava frequentar as aulas. Tinha-me colocado numa prisão, numa “cela disciplinar”, segundo as palavras do meu pai.
No dia seguinte, todas as raparigas olharam para nós, quando cheguei à escola acompanhada pelo meu pai. Subimos de mãos dadas os degraus e fomos ao gabinete da diretora.
 
Capítulo 6
A ajuda das crianças
 
O meu pai foi direto ao assunto:
— A minha filha diz que a mantém afastada das outras alunas. É verdade? — perguntou.
— Sim, é verdade. Se não o tivesse feito, teria manchado a reputação da escola e o meu nome.
— Porquê?
— Algumas das famílias opor-se-iam a que ela estivesse na mesma sala das suas filhas. Somos uma escola privada, por isso temos de ter em atenção os desejos dos pais.
— Se tencionava excluir a minha filha, devia ter-mo dito logo no início — prosseguiu o meu pai.
As palavras dele caíam como pedras. Lembrou a Miss Tracy que pagara uma propina como os outros pais, numa voz firme na qual não havia vestígios do seu passado de escravo. Parecia um senador ou um congressista.
Miss Tracy ficou atrapalhada.
— Haveria de certeza quem se opusesse a que a sua filha se sentasse junto das alunas brancas.
— Não acredito — retorquiu o meu pai. — Perguntemos às alunas.
— Muito bem, perguntar-lhes-ei — anuiu Miss Tracy. — Venham comigo.
A diretora levou-nos pelo corredor e bateu à porta de uma sala de aula. Depois, entrou na sala connosco, para admiração da professora e das alunas. O barulho das folhas cessou e os rostos ficaram imóveis. O sol do entardecer entrava pelas janelas grandes e iluminava alguns problemas escritos no quadro preto. Olhei para as alunas. Nenhuma parecia inquieta. Algumas sorriram para mim.
Miss Tracy pediu atenção.
— Meninas, o Sr. Douglass quer saber se a sua filha pode frequentar esta turma. Quantas querem que a Rosetta fique aqui? Levantem os braços, por favor.
Todas as raparigas levantaram os braços. Miss Tracy achou que as alunas não tinham compreendido.
— Não compreenderam bem. Eu perguntei quantas acham que a Rosetta deve ficar aqui a ter aulas.
As raparigas levantaram de novo os braços.
— Eu concordo!
— Eu também!
Miss Tracy ficou vermelha e atrapalhada. Chamou as meninas uma por uma, para ter a certeza.
Uma delas disse que não se importava que eu ficasse.
— Estás habituada a brincar com meninas negras? — perguntou a diretora.
A aluna não respondeu.
— E onde é que ela se sentaria? — quis saber Miss Tracy.
As alunas manifestaram-se em uníssono:
— À minha beira!
— Não, à minha!
— Rosetta, senta-te ao meu lado!
Todos os braços se levantaram.
O meu pai olhou para mim e sorrimos ambos abertamente. Ele tinha-me dito para confiar nos brancos. Nenhum de nós esqueceria este dia. Mais tarde, numa carta a Mark Twain, o meu pai escreveu “Os corações das crianças estavam certos.”
Porém, Miss Tracy disse:
— Isto não fica assim!
 
Capítulo 7
As objeções do Sr. Warner
 
Este seria o meu último dia na escola de Miss Tracy. As alunas queriam que eu ficasse, mas a diretora não estava disposta a ceder. Poderia ter sido feliz naquela escola, se não estivéssemos em 1848.
Sem nos avisar, Miss Tracy convocou uma assembleia de pais, que encheram, nessa noite, a sala de reuniões. Não estivemos presentes, mas os nossos amigos contaram-nos o que tinha sucedido. A diretora perguntou aos pais se concordavam com a minha inscrição. Todos os braços se levantaram, exceto um. Quando ela perguntou quem discordava, Mr. Horatio G. Warner levantou-se. Era um homem poderoso, editor do Rochester Courier, um jornal com algumas centenas de leitores. O jornal do meu pai, o Northern Star, que se publicara pela primeira vez em 1847, era enviado para toda a América e tinha milhares de leitores. O jornal de Mr. Warner era local e ele nunca tinha escrito livros ou viajado, como o meu pai. Fora de Rochester, ninguém conhecia Mr. Warner.
Nessa noite, este disse:
— Não creio que esta inscrição seja adequada, porque trai os limites que a sociedade e a natureza traçaram para a educação dos nossos jovens.
Depois iniciou um longo discurso, no qual dizia que não queria que a sua filha frequentasse a escola da filha de Frederick Douglass. Falou como se o meu pai fosse um agitador, a soldo dos abolicionistas. Afirmou mesmo que o meu pai nem sequer era de Rochester e que tinha vindo de outro estado para perturbar o sossego de cidadãos pacatos. E continuou com o mesmo tipo de acusações.
Depois deste longo discurso, Miss Tracy voltou a perguntar quem era a favor da minha inscrição. Os pais votaram no mesmo sentido. Contudo, segundo as regras da diretora, a inscrição só poderia ser aceite se não houvesse nenhuma objeção.
— Sou uma boa cristã e discordo da escravatura. Contudo, sou também responsável por um ambiente seguro e tranquilo na escola, e a presença de Rosetta não o favorece.
 
Capítulo 8
Saio da escola
 
  Enquanto esta reunião secreta decorria, explicávamos à minha mãe a atitude maravilhosa que tínhamos presenciado na escola. Na manhã seguinte, dirigi-me para lá com os livros debaixo do braço. Mal continha a alegria.
Quando cheguei aos degraus, encontrei Miss Tracy a barrar-me a passagem.
— Rosetta, já não és nossa aluna. Vai para casa, por favor.
Como não compreendi o que ela dizia, fiquei ali especada, até que ela o repetiu. Corri com muita força para que ninguém visse as minhas lágrimas de vergonha. Nem sei como não deixei cair os livros. Corri para dentro de casa, incapaz de respirar. Desta vez, contei à minha mãe tudo o que tinha acontecido.
— Eu sabia que isto te causaria tristeza — disse-me.
Depois, pediu a um rapaz que fosse chamar o meu pai ao escritório. Quando ele chegou a casa, já eu tinha enxugado as lágrimas e estava a brincar com o Lewis e o Charles. O meu pai entrou na sala e deu-me um abraço.
— Não te preocupes, Rosetta, não te preocupes.
— Vou para a escola dos negros, pai?
— Não, vou arranjar-te uma escola melhor.
A minha mãe estava triste e deu-me um abraço.
— Frederick, eu disse-te que a nossa filha não precisa de sair de casa. Precisa de se sentir protegida. Neste momento, há sobressaltos a mais no seu coração.
O meu pai olhou-me nos olhos e perguntou-me:
— Rosetta, és corajosa?
— Sou, pai.
— Queres os melhores professores que eu te puder arranjar?
— Quero, pai.
— Muito bem. Vou mandar um telegrama e veremos o que se pode fazer.
Depois de o meu pai sair, a minha mãe falou comigo na cozinha.
— Sabes, filha, ler não é o mais importante da vida. Eu não sei ler e a minha vida é feliz. O teu pai tentou ensinar-me, mas não consegui aprender. Sinto-me feliz assim.
— Mas eu já sei ler um bocadinho, mamã. E todas as crianças negras terão um dia de aprender.
— Eu sei que o mundo está a mudar. Mas prefiro que fiques em casa, para que não te magoem.
— Mamã, as meninas brancas queriam-me ao pé delas. Gostavam de mim, tenho a certeza. Até votaram contra os professores para poderem ter-me com elas na sala.
— Eu sei, eu sei.
— Quero brincar com elas. Espera até me verem a saltar à corda.
— És uma menina muito corajosa.
 
Capítulo 9
Rumo a Albany
 
Os sonhos dos meus pais eram diferentes: a minha mãe não queria ver-me magoada, o meu pai queria que eu fosse bem sucedida. Estava tão inquieta naquela tarde que a minha mãe me deixou ir ter com o meu pai ao escritório, onde o ajudei a compor as notícias do jornal. Que excitação! Eu adorava o ambiente do escritório. O Sr. Delaney também lá estava, a falar com o meu pai sobre alguns artigos e a tomar notas.
Em breve chegou um telegrama, que um mensageiro fardado veio entregar. Enquanto o meu pai o lia, um sorriso desenhou-se na sua face. Mostrou-o ao Sr. Delaney.
— As irmãs Mott são uma escolha excelente — disse este.
O meu pai anunciou:
— Rosetta, fiz planos novos para ti. Miss Abigail respondeu prontamente ao meu telegrama e vou enviar-te para Albany. As irmãs Mott vão gostar de te ter com elas e frequentarás a sua escola.
— Albany é longe — disse eu.
— É verdade — concordou o meu pai. — Trezentos e sessenta quilómetros. Levar-te-ei no comboio da noite.
Mandou alguém avisar a minha mãe de que eu precisava de uma pequena mala de roupa. Não havia tempo a perder. O ano escolar já tinha começado e ele não queria que eu me atrasasse mais. Mais tarde, o meu pai publicaria uma carta no seu jornal, dirigida a Mr. Warner. Nela diria que uma escola de brancos me tinha aceitado cinco horas depois de Miss Tracy me ter expulso. O que ele não disse foi que a minha nova escola ficava a trezentos e sessenta quilómetros de distância!
Fizemos um jantar de despedida. A mamã serviu o meu prato de frango favorito, com abóbora e puré de batata. Quase chorei, mas a excitação levou a melhor. O meu pai descreveu a viagem como se fosse uma aventura. Costumava viajar em grandes carruagens e ter sempre milhares de pessoas a ouvir os seus discursos.
Esta noite, eu deixaria o meu belo quartinho, com as cortinas que a minha própria mãe fizera, a minha cama fofinha, a minha mãe e os meus irmãos. Iria com o meu pai apanhar um comboio, que estaria à nossa espera na estação, envolto numa nuvem de fumo branco. Passaríamos a noite nos lugares forrados a veludo e veríamos o céu estrelado. Deixava a minha família para ir estudar entre estranhos. Era muito importante que eu aprendesse a ler, escrever e contar. Só era pena que tivesse de ir para longe por causa de Horatio Warner.
— Vou embrulhar algumas maçãs e queijo para comerem no comboio — disse a minha mãe.
Tinha lavado e engomado as minhas roupas todas, com a perfeição do costume. Dobrou-as cuidadosamente dentro da mala grande. Depois deu-me um par de luvas e um chapéu.
— Sê sempre educada e asseada, Rosetta, e ajuda as irmãs Mott. Não és uma princesa — disse-me.
— Elas sempre te trataram bem — acrescentou o meu pai.
Dirigimo-nos à estação, e o meu pai levou a minha mala. Ajudou-me a subir para a carruagem e subiu a seguir.
— Todos a bordo! — gritou o guarda-freio, agitando a lanterna.
Nessa noite, olhei os campos e as colinas que desfilavam diante dos meus olhos e contemplei as estrelas. Não dormimos. Pensei no quanto a minha vida tinha mudado no decurso de um ano. Antes de partir, a minha mãe tinha-me contado a novidade. Na próxima primavera, iria ter outro bebé. Pensei que seria bom ter uma irmãzinha, uma vez que já tinha três irmãos.
Na manhã seguinte, as duas irmãs Mott esperavam-nos com um carrinho puxado por uma cavalo. Comemos juntos e, mais tarde, o meu pai despediu-se, antes de apanhar o comboio de novo.
— Escrever-te-ei com frequência — prometeu, antes de me dar um grande abraço.
Vivi aquele inverno todo com as irmãs Mott. Embora tivesse um quartinho só meu, e um bonito edredão na minha cama, tinha saudades da minha família. Mas sabia que estava a fazer o que devia. Fui a casa no Natal e regressei de novo à escola.
As casas dos Quaker são muito simples. No meu quarto não havia adornos, cores vivas ou brinquedos. Mas aprendi a amar os livros e tinha muitas meninas com quem brincar. As irmãs Mott tinham um primo em Filadélfia chamado James Mott. A mulher dele, Lucretia, vinha visitar-‑nos com frequência. Era amiga do meu pai e escrevia sobre os direitos das mulheres. O meu pai dizia que as mulheres deviam votar. Sentávamo-nos a tomar chá e falávamos de tudo aquilo que as mulheres fariam um dia. Eu incluída!
Fiquei orgulhosa de conseguir ler as cartas do meu pai, pouco depois de estar na escola. Comecei a escrever-lhe também. Embora estivesse muito ocupado, respondia sempre. Em março disse-me que eu tinha uma nova irmãzinha chamada Annie. Tinha saudades da minha mãe. Com esta nova bebé, decerto que precisava da minha ajuda. Por volta da primavera, as irmãs Mott acharam que eu já sabia o suficiente para poder ir para casa mais cedo. Agradeci-lhes a ajuda e despedi-me delas. Quando cheguei a casa, pus os braços à volta do pescoço da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos e da minha irmã, novinha em folha.
 
Capítulo 10
O meu pai reage
 
Durante a minha ausência, o meu pai não tinha desistido de criticar Mr. Warner e as escolas de Rochester. Na mesma altura em que eu partia para Albany, ele dirigia-lhes críticas duras no seu jornal. Usava a caneta como quem usa uma espada, e lutava com palavras. Queria que as escolas de Rochester – que tinham alunos exclusivamente brancos – aceitassem crianças negras que vivessem perto.
O meu pai achava que uma pessoa deveria ser exposta publicamente, se tivesse agido de forma injusta. “O público tem o direito de exigir que a conduta de Mr. Warner seja objeto de investigação por parte do governo”, escreveu. Queria que o país todo soubesse o que se tinha passado comigo. Em Springfield, no Illinois, um jovem advogado chamado Abraham Lincoln leu o Northern Star. As minhas duas semanas na escola de Miss Tracy ficaram conhecidas em todo o país.
O meu pai escreveu a Mr. Warner: “É verdade que diferimos na cor, mas quem pode dizer que cor é mais agradável a Deus, ou mais honrada entre os homens? Contudo, não desejo gastar palavras ou argumentos com alguém que se mostrou tão cheio de orgulho e preconceito.” Chamava a Mr. Warner “a desprezível minoria de um”, uma vez que apenas ele se tinha oposto à minha inscrição na escola de Miss Tracy. Mas o meu pai não esgotava os seus argumentos apenas em cartas. Também solicitava entrevistas com a Direção das Escolas de Rochester, pedindo-lhes que reconsiderassem a sua atitude. Todos os anos, as escolas recusavam aceitar os meus irmãos na escola pública junto de nossa casa. O meu pai ripostava:
— Mas eu pago a contribuição autárquica como toda a gente!
A recusa mantinha-se, todavia. E o meu pai continuava os seus discursos inflamados. Como uma torneira que não para de pingar, repetia os seus objetivos vezes sem conta. “O direito não pertence a nenhum sexo e a verdade não é exclusiva de nenhuma cor. Deus é o nosso pai comum e somos todos irmãos.”
O meu pai não usava só a caneta para lutar pela igualdade entre brancos e negros. Quando eu era criança, recusava sentar-se nos lugares para negros nos comboios. Sentava-se sempre nas carruagens reservadas a brancos. Alguns guarda-freios tentavam expulsá-lo, mas ele agarrava-se com força ao lugar. Era tão forte que eram precisos seis homens para o levantar e escorraçar. Com o assento agarrado a ele. Enquanto a companhia encomendava um novo assento, o meu pai sentava-se no chão, numa confortável almofada.
Na semana seguinte, voltava a fazer o mesmo. Após vários incidentes deste género, o comboio deixou de parar na nossa cidade. Tinham medo de que Frederick Douglass o apanhasse. Ele embaraçava as pessoas que eram preconceituosas, porque acreditava que a vergonha é um sentimento poderoso. O meu pai contava-nos muitas histórias. Umas vezes, riamo-nos; outras chorávamos, ao ver quão difícil lhe era abrir caminho para nós no mundo.
 
Capítulo 11
Boas notícias!
 
Quando regressei a casa, o meu pai contratou uma professora, Miss Phoebe Thayer, para vir a casa dar-nos aulas. Por ser ainda pequenina, a minha irmã mordia os lápis e fazia os seus próprios desenhos em folhas no chão. Enquanto ajudava os meus irmãos, dei-me conta de que gostaria de ser professora um dia.
Quando já era demasiado crescida para frequentar as aulas de Miss Thayer, o meu pai enviou-me para o Ohio. Em 1854, com quinze anos, frequentei pela primeira vez uma escola superior, onde estudei para ser professora. Naquela altura, Oberlin College era uma das poucas escolas que aceitavam mulheres. Estudei lá durante um semestre e fui dar aulas na Pensilvânia. Dois anos depois, mudei-me para Salem, em Nova Jérsia, onde fiz os exames necessários para me tornar uma professora qualificada.
Em Nova Jérsia, dei aulas a trabalhadores. Os meus alunos eram jardineiros, cozinheiras e criadas durante o dia. À noite, vinham à minha escola aprender aritmética, geografia e história.
Tanto em Filadélfia como em Nova Jérsia, fiquei em casa de amigos ou parentes dos meus pais. Os meus tios Perry e Lizzie eram tão pobres que eu, por vezes, nem jantava para lhes poupar essa despesa, e comprava as minhas próprias velas e sabão com o dinheiro que o meu pai me dava. Em 1857, aquando de uma visita que fiz à minha família, o meu pai entrou na loja onde eu estava e disse:
— Rosetta! Conseguimos! A Direção das Escolas de Rochester vai deixar a Annie frequentar a primeira classe. Acabou a segregação em Rochester!
Vi lágrimas nos olhos do meu pai. Nove anos de protestos constantes tinham feito a diferença. A minha irmã mais nova ia poder frequentar a escola pública da nossa zona. Não haveria propinas a pagar, nem nenhum Mr. Warner que a obrigasse a sair. Todo o trabalho árduo do meu pai tinha valido a pena.
 
Capítulo 12
Um futuro risonho
 
Quando a minha irmã começou a frequentar a escola, falava-se muito de uma guerra iminente. O Norte e o Sul tinham discutido amargamente se os estados que queriam fazer parte da União deveriam tolerar a escravatura. O meu pai continuava a criticar a escravatura e a pedir a liberdade para os negros. Em 1859, vivemos tempos difíceis. Um branco chamado John Brown atacou um forte federal em Harper’s Ferry, na Virgínia, na esperança de despoletar uma revolta de escravos. O exército pôs cobro a esse ataque com prontidão, e John Brown foi executado.
Rumorejou-se que o meu pai tinha ajudado Brown e ele teve de ir para Inglaterra, para fugir a possíveis represálias. Enquanto lá estava, deu-se uma tragédia em nossa casa. A Annie ficou doente com escarlatina e morreu. Tinha onze anos. O meu pai voltou, muito pesaroso, no primeiro barco que arranjou, mal lhe mandámos o telegrama, mas só chegou depois do funeral. Mesmo após a sua morte, continuávamos orgulhosos da nossa irmãzinha. Afinal, tinha sido uma das primeiras crianças negras do Norte a frequentar a escola pública, juntamente com as crianças brancas.
 Em 1861, a guerra eclodiu. O meu pai recrutou soldados negros para lutarem pela União. Os meus irmãos Charles e Lewis foram combater. Foi por esta altura que conheci um soldado chamado Nathan Sprague. Ficámos noivos e casámos em 1863. Enquanto durou a guerra, o meu pai lutou por um tratamento igual para soldados brancos e negros, e encontrou-se várias vezes com Abraham Lincoln.
Quando a guerra terminou, Nathan e eu arranjámos casa perto de Rochester. Vivemos algum tempo em casa dos meus pais e foi lá que tivemos os primeiros filhos. Uma noite, em 1872, acordámos com o cheiro de fumo. A nossa casa foi incendiada nessa noite. Foi uma perda enorme para nós, porque tínhamos muitas recordações associadas a ela.
Às vezes, ainda vou ao escritório do meu pai, e ajudo-o com a correspondência e a composição do jornal. Talvez o futuro realize o seu sonho. Talvez um dia mais crianças brancas levantem os braços a pedir liberdade. Tenho esperança de que brancos e negros venham a frequentar as mesmas escolas e de que todos sejam livres. Por vezes, as crianças veem a verdade que os adultos se recusam a encarar.
As meninas da escola de Miss Tracy tinham aberto as portas a um futuro risonho quando, naquele dia longínquo, me pediram: “Rosetta, Rosetta, senta-te ao meu lado!”
 
 
 
 
 
 
 
 
Linda Wolvoord; Eric Velasquez
Rosetta, Rosetta, sit by me!
New York, Marshall Cavendish, 2004
(tradução e adaptação)

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