Estamos todos na merda, os muçulmanos"

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Mensagem por Vitor mango em Ter Nov 17, 2015 5:14 am

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Ao terceiro dia, longe da Praça da República, dos santuários e do circo mediático, ouvir a "rua muçulmana." E saber o porquê do silêncio
"Quando escreveres a tua reportagem e falares de mim, vais lá pôr "jovem muçulmano" ou "cidadão francês?"" A pergunta de Sahir, 32 anos, vai direita ao alvo. Estamos à porta de uma mesquita, na fronteira do 11.º com o 20.º Bairro. Mais precisamente a mesquita Omar Ibn al Khattab. São seis horas, Sahir acabou de sair da oração e é ele que se aproxima, ao ver uma jornalista a entrevistar outro membro da congregação. "Isto interessa-me", diz. Mas, como o anterior entrevistado, marroquino, nem quer dizer o nome. E não disse: este que aqui está não é o dele.
Desconfia dos jornalistas, desconfia da forma como o que diz vai ser usado mas mesmo assim não para: já toda a gente saiu da mesquita e ele continua a falar, na esquina varrida por um vento gelado. "Ouve: eu nasci em França, os meus pais nasceram em França. Os meus avós é que são argelinos. Costumo ir comer ao Pizza Pino, na Praça da República, a dois passos de um dos restaurantes atacados. Podia ter sido eu a morrer na sexta-feira." Abana a cabeça. "Aqueles animais acabaram com isto. Agora não há ninguém que acredite que o islão não é uma religião de guerra. Estamos todos na merda, os muçulmanos."
Samia, 63 anos, pode atestar. "Estava a rezar e veio um rapaz direito a mim. Não disse nada. Mas vi o que os olhos dele diziam. Que eu não tinha o direito de estar aqui." Samia nasceu na Argélia, vive em França desde os anos 80. A cabeça coberta denuncia-a; na Praça da República, junto à estátua, é a única de lenço e das poucas que nos primeiros dias - isto passou-se no domingo ao fim da tarde - se divisam por aqui. Veio, diz, para "pedir que Deus acolha os mortos no paraíso, e a paz reine entre nós." Sorri como, garante, sorriu ao rapaz. "Somos mal-amados, bem sei. Mesmo quem nasceu em França, como os meus filhos, ter nome árabe é um handicap. Os nossos filhos, os nossos netos não estarão ao abrigo. Mas não devíamos ser nós, os imigrantes de primeira, segunda, terceira, quarta geração, a pagar pelo Daesh, pelos crimes dos assassinos do Daesh. Eles não têm nada que ver com os valores do islão. Não têm valores morais, não têm valores humanos. São simplesmente criminosos."
Esta é, afinal, a resposta de todos os muçulmanos que falam publicamente, a começar pelos imãs que se têm pronunciado. Como o célebre imã de Drancy, sempre o primeiro, nestas ocasiões, a demarcar-se dos radicais, e que foi ao centro de Paris exprimir a sua solidariedade e a reprovação dos atentados. É a resposta-padrão que ouvimos sempre, desde o 11 de Setembro, e mesmo antes disso: o islão como religião de paz, de amor, completamente ao avesso da ideologia das al -qaedas e dos "estados islâmicos". Mas a visibilidade destas tomadas de posição é apesar de tudo diminuta. Tão diminuta que em muitas das entrevistas de rua a não muçulmanos se ouve, insistentemente, que "os imãs não condenaram", ou que "os muçulmanos estão calados". Dir-se-á, claro, como diz Faial Bentchikov Furon, 47 anos, farmacêutica e presidente da Associação Franco-Algeriens Républicains Rassemblés, que a grande maioria dos muçulmanos que vivem em França não se distinguem, à primeira vista, de qualquer outro cidadão; que a maioria das muçulmanas não usam véu, muito menos chador (veste negra que cobre a cabeça e o corpo todo). "A maioria dos muçulmanos, das muçulmanas, são como eu, laicos. Criei este movimento em 2014 precisamente para que os franceses não caiam na psicose islamofóbica. E estou muito irritada com isto, vamos viver momentos muito difíceis."
"Hollande não sabe o que é ser impiedoso. O Daesh ouve-o e ri-se"Estamos todos na merda, os muçulmanos" Ng5186574



"Não aprendo nada com a música"
A maioria das muçulmanas não são então como Kesli, 21 anos, esta figura toda de negro, só o rosto (bem bonito) descoberto, que na zona de Belleville-Couronnes (20.º Bairro) procura uma mesquita. "Fui àquela [refere-se à citada mais acima] mas não podiam entrar mulheres. Vou à procura de outra." Filha de um turco e uma argelina, Kesli nasceu em França. Os pais não são religiosos e ela só usa o hijab (véu) há cinco anos. É sunita e, apesar de garantir que está longe de radicalismos, não só usa o chador negro, luvas incluídas, como acata a interdição de ouvir música ("É para nos preservar, porque pode fazer-nos mudar de comportamento, não tenho nada a aprender com a música."). E vê a separação em relação aos homens como "boa, porque nos afasta das tentações".
Ainda assim, esta assistente de educação com um curso profissional diz-se "uma mulher independente". E fala com uma doçura e abertura desarmantes, uma doçura que condiz com a descrição que faz da sua religião - "É a sabedoria, é o caminho do bem. É perfeita", contrastando com a postura da maioria das mulheres de véu que, abordadas na rua, abanam a cabeça, fecham o rosto e estugam o passo. "Se sinto que me olham de forma diferente? Refere-se a antes ou depois destes atentados? Já sentia antes os olhares, já ouvia insultos. De qualquer forma, hoje foi a primeira vez que saí depois dos ataques." Porquê? Hesita. "Estive com a minha família."
A República é a duas ou três estações de metro daqui, não sentiu o impulso de lá ir mostrar solidariedade, contribuir para que não se diga que os muçulmanos não se manifestam contra o que sucedeu? "Sim, tive vontade de lá ir mostrar o meu apoio." Foi medo que a impediu? "Não, não tenho medo, o meu deus está comigo e protege-me. Mas estive com a minha família, que mora longe. E acendi velas em casa pelas vítimas. É muito triste o que sucedeu, lamento por elas, muçulmanas e não muçulmanas, e pelas suas famílias." E acha que isto sucedeu porquê? "A razão, entre aspas, é que a França atacou bastantes países. Mas uma coisa destas não tem nada que ver com o islão. Isto do Daesh é outra religião construída ao lado. Mas, claro, os muçulmanos todos vão sofrer opressão, agora."
A mala ou o caixão
Precisamente, no Libération de ontem elencava-se uma série de incidentes islamofóbicos em França, lembrando que após o atentado contra o Charlie Hebdo houve ataques semelhantes: mesquitas e talhos halal grafitados com símbolos nazis, um homem de origem turca atingido a tiro, uma manifestação de extrema-direita com relatos de agressões a cidadãos árabes ou de origem árabe, escritos nas paredes como "morte aos árabes" e "a mala [de viagem] ou o caixão." Sahir está furioso. "Fala-se das mesquitas nos media como lugar de radicalização. É mentira e é preciso parar com isso. Senão vai haver ataques. Estes radicais não vêm às mesquitas, encontram-se em casas, às escondidas. Eles já quiseram tomar o poder nas mesquitas e foram banidos."
O que é ser radical? A pergunta terá respostas diferentes consoante o interlocutor. Certo é que, à porta desta mesquita onde só homens podem entrar, uma mulher sem véu se sente olhada com uma curiosidade nem sempre benévola. A desconfiança, seja por receio ou outro motivo, é óbvia. Como é estranho que entre todas as pessoas aqui abordadas que se reclamam de um credo de amor nenhuma tenha tido o impulso de se juntar aos que nestes três dias homenagearam os mortos e condenaram os assassinos. "Não foi decidido que devíamos ir", diz o marroquino de 25 anos que não quer ser identificado. Decidido por quem? "Pelo grande imã de Paris, ele é que pode tomar essa decisão. Seria talvez boa ideia haver uma marcha de solidariedade dos muçulmanos, mas não me cabe a mim decidir." Cidadão ou muçulmano, perguntava Sahir. Boa pergunta.
Enviada especial a Paris

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