A boa moeda

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A boa moeda

Mensagem por Viriato em Seg Jan 17, 2011 11:46 am

A boa moeda

Cavaco Silva pediu para não se deixar aos mais medíocres e aos menos sérios o poder de decisão. O insulto deixa evidente que o debate sobre a sua seriedade é um imperativo a que ele próprio nos obriga.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Para apelar ao voto dos jovens, Cavaco Silva deixou frase enigmática: "Pensem bem o que significa alhear, deixar àqueles que são mais medíocres, àqueles que têm menos conhecimentos e capacidades, aqueles que são menos sérios, o poder de decisão".

Sabemos que o Presidente não tem uma relação fácil com verbo - os exercícios interpretativos das incompreensíveis declarações públicas do Presidente são já um clássico da política portuguesa -, mas seria bom perceber qual é a ideia. Que os mais velhos são medíocres? Espero que não. Que quem costuma votar é pior do que quem não vota? Seria estranho. Que os mais velhos tendem a escolher gente menos capaz? Improvável. Talvez o candidato queira dizer, na sua língua de trapos, que é necessário ir votar nele para impedir que se escolham medíocres, desonestos, incapazes e ignorantes.

Feita a mais benigna das interpretações, o que Cavaco Silva deixa nesta frase é o que deixou em toda a campanha e, diga-se em abono da verdade, durante quase toda a sua carreira política: a arrogância como programa político. Já foi assim nos debates com quase todos os candidatos, assim continua.

O que se tira desta declaração é que o que divide Cavaco Silva dos restantes oponentes são as qualidades pessoais de cada um. E qualidades de caráter. Segundo o Presidente, que sempre teve de si próprio uma opinião que se aproxima perigosamente da megalomania, os seus opositores são mais medíocres, menos conhecedores e capazes, e, veja-se bem, menos sérios do que ele. O discurso de Cavaco Silva sempre se resumiu a isto mesmo: ele é a boa moeda. E fala assim o homem que teve, até há uns meses, Dias Loureiro como um dos seus principais homens de confiança.

Cavaco Silva tem de se decidir. Ou quer falar dos problemas do país, e abandona de uma vez por todas o elogio quase delirante às suas qualidades pessoais, concentrando-se nas alternativas políticas que se apresentam nestas eleições, ou mantém esta estratégia e temos todo o direito a escrutinar se o que diz sobre si próprio é comprovável. Ou os seus traços de caráter não são relevantes nestas eleições e ele não se compara nesse domínio aos restantes candidatos, ou eles são fundamentais para o nosso voto e esse é um tema desta campanha.

Se são um tema, digo sem rodeios: não confio na seriedade de Cavaco Silva. Não confiava quando o seu governo se enterrava em escândalos de corrupção, quando Dias Loureiro era ministro e Oliveira Costa era secretário de Estado e quando os dinheiros europeus serviam para engordar patos bravos. Não confio quando fica evidente que continuou, durante anos, a fazer negócios com a quadrilha do BPN. Não confio nas capacidades políticas de Cavaco Silva. Não confiava quando escolheu, numa das maiores oportunidades que Portugal já teve, o modelo de desenvolvimento que nos levou à ruína e quando tratava da contestação de estudantes, de trabalhadores, de utentes da ponte 25 de abril ou de forças de segurança à bastonada. Não confio quando o vejo embrenhar-se numa novela como a das escutas ou deixa que o País seja insultado pelo chefe de Estado checo, ao seu lado, sem abrir sequer a boca. Não confiava nem confio nos conhecimentos de Cavaco Silva sempre que demonstrou e continua a demonstrar a sua inquietante iliteracia e a sua perturbante falta de Mundo.

Estarei a ser insultuoso para o nosso Presidente? Não mais do que Cavaco Silva foi ao referir-se aos seus opositores. É que já cansa tanta pesporrência.


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Viriato

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Re: A boa moeda

Mensagem por Vagueante em Seg Jan 17, 2011 12:30 pm

Viriato escreveu:A boa moeda

Cavaco Silva pediu para não se deixar aos mais medíocres e aos menos sérios o poder de decisão. O insulto deixa evidente que o debate sobre a sua seriedade é um imperativo a que ele próprio nos obriga.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Para apelar ao voto dos jovens, Cavaco Silva deixou frase enigmática: "Pensem bem o que significa alhear, deixar àqueles que são mais medíocres, àqueles que têm menos conhecimentos e capacidades, aqueles que são menos sérios, o poder de decisão".

Sabemos que o Presidente não tem uma relação fácil com verbo - os exercícios interpretativos das incompreensíveis declarações públicas do Presidente são já um clássico da política portuguesa -, mas seria bom perceber qual é a ideia. Que os mais velhos são medíocres? Espero que não. Que quem costuma votar é pior do que quem não vota? Seria estranho. Que os mais velhos tendem a escolher gente menos capaz? Improvável. Talvez o candidato queira dizer, na sua língua de trapos, que é necessário ir votar nele para impedir que se escolham medíocres, desonestos, incapazes e ignorantes.

Feita a mais benigna das interpretações, o que Cavaco Silva deixa nesta frase é o que deixou em toda a campanha e, diga-se em abono da verdade, durante quase toda a sua carreira política: a arrogância como programa político. Já foi assim nos debates com quase todos os candidatos, assim continua.

Daniel Oliveira não explorou todas as hipóteses intrínsecas ao discurso de Cavaco. Ora vejamos:

deixar àqueles que são mais medíocres

Em boa lógica aristotélica, tem que haver medíocres para poder haver "mais medíocres"

A quem se refere quando deixa implícita a existência de medíocres?

àqueles que têm menos conhecimentos e capacidades

Não se pode inferir daqui que ele esteja a dizer que tem muitos conhecimentos e muitas capacidades. Apenas que tem mais que os outros, o que revela uma grande falta de humildade tendo em conta os disparates que já fez desde o tempo em que foi ministro das finanças de Sá Carneiro.

aqueles que são menos sérios

Daqui não se pode inferir que ele seja sério. Apenas que haverá outros menos sérios do que ele o que será um pretenciosismo muito grande, embora saibamos que será necessário nascer duas vezes para se ser mais sério do que ele e que implicará que ele acredite na reincarnação.
O que ele não nos disse foi se na sua vida anterior era um animal de estimação ou uma formiga.

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