A década perdida do Médio Oriente

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A década perdida do Médio Oriente

Mensagem por Vitor mango em Qua Mar 20, 2013 1:31 pm

A década perdida do Médio Oriente


















Joschka Fischer





Os Estados Unidos travaram três guerras desde os
ataques terroristas da Al-Qaeda no dia 11 de Setembro de 2001: contra a
Al-Qaeda, no Afeganistão e no Iraque. As duas primeiras foram impostas
aos EUA, mas a terceira foi o resultado de uma decisão voluntária e
deliberada tomada pelo ex-Presidente George W. Bush, por razões
ideológicas e, muito provavelmente, por razões pessoais também.

Se
Bush, o ex-vice-presidente Dick Cheney, o ex-secretário de Defesa
Donald Rumsfeld e os seus aliados neoconservadores tivessem sido francos
em relação às suas intenções - para derrubarem o Saddam Hussein por
meio da guerra, criando assim um novo e pró-ocidental Médio Oriente -
eles nunca teriam recebido o apoio do Congresso e do público
norte-americano. A sua visão foi ingénua e imprudente.
Por
isso, uma ameaça - as armas iraquianas de destruição em massa - teve de
ser criada. Como sabemos agora, a ameaça foi baseada em mentiras (tubos
de alumínio para um programa de armas nucleares, por exemplo, reuniões
entre o líder da conspiração do 9 de Setembro, Mohamed Atta, e as
autoridades iraquianas em Praga, e até mesmo falsificações evidentes
como supostos pedidos, por parte do Iraque, de urânio yellowcake da Nigéria).
Estas
foram as razões que conduziram a uma guerra destinada a reclamar a vida
de quase cinco mil soldados norte-americanos e mais de 100 mil
iraquianos. Acrescentem a isso os milhões que foram feridos e deslocados
das suas casas, bem como a destruição de uma das mais antigas
comunidades cristãs do mundo. Para isto, os EUA gastaram sozinhos mais
de três biliões (milhões de milhões) de dólares.
A guerra de Bush
contra Saddam mudou radicalmente o Médio Oriente, embora não da forma
como ele planeava. Para começar, se os EUA tinham a intenção de
desestabilizar o Iraque, os seus esforços não poderiam ter sido mais
bem-sucedidos: dez anos depois, a viabilidade do país como um único
Estado nunca esteve em tão grande dúvida.
Com a saída de Saddam, a
maioria xiita do Iraque assumiu o poder depois de uma guerra civil
horrenda, deixando os sunitas derrotados do Iraque ansiosos por vingança
e à espera de uma oportunidade para recuperarem a sua ascendência. Os
curdos no Norte utilizaram inteligentemente e habilmente a janela da
oportunidade que se abriu perante eles para agarrarem a independência de
facto, embora a questão-chave do controlo sobre a cidade de Kirkuk
continue a ser uma bomba-relógio. E todos estão a lutar pelo grande
quinhão das enormes reservas de petróleo e de gás que conseguirem
apanhar.
Ao examinar cuidadosamente a “Operação Liberdade para o Iraque”, uma década depois, o Financial Times concluiu que os EUA ganharam a guerra, o Irão ganhou a paz e a Turquia ganhou os contratos. Só posso estar de acordo.
Em
termos políticos, o Irão é o grande vencedor da guerra de Bush. O seu
inimigo número um, Saddam, foi liquidado pelo seu inimigo número dois,
os Estados Unidos, que presenteou o Irão com uma oportunidade preciosa
de ampliar a sua influência para além da sua fronteira ocidental, pela
primeira vez desde 1746.
A guerra de Bush, com a sua visão
estratégica pobre e com um planeamento ainda pior, aumentou a posição
regional do Irão de uma forma que provavelmente o Irão nunca conseguiria
obter por mérito próprio. A guerra permitiu ao Irão afirmar-se como a
potência dominante, no Golfo e na extensa região, e o seu programa
nuclear serve precisamente estas ambições.
Na região, os
derrotados também não deixam dúvidas: a Arábia Saudita e os outros
países do Golfo, que se sentem existencialmente ameaçados, e que tiveram
de passar a considerar as suas próprias minorias xiitas como uma quinta
coluna iraniana. Eles têm uma opinião: com os xiitas no poder no
Iraque, o Irão irá procurar oportunidades adequadas para utilizar as
populações xiitas locais como procuradores, para fazer valer as suas
reivindicações hegemónicas. É isto que está a alimentar os tumultos
internos, no Bahrein, além das queixas locais da maioria xiita.
Deixando
de lado as mentiras, as ficções e as questões de moralidade e de
responsabilidade pessoal, o erro crucial da guerra dos Estados Unidos
contra o Iraque foi a ausência de um plano viável ou da força necessária
para impor uma Pax Americana no Médio Oriente. A América era
suficientemente poderosa para desestabilizar a ordem regional existente,
mas não era suficientemente poderosa para estabelecer uma nova. Os
neoconservadores dos EUA, com o seu pensamento de esperanças vãs,
subestimaram grosseiramente a dimensão da tarefa que tinham em mãos - ao
contrário dos revolucionários no Irão, que rapidamente actuaram para
colherem o que os EUA tinham semeado.
A guerra do Iraque também
marcou o início do declínio relativo subsequente da América. Bush
desperdiçou uma grande parte da força militar dos EUA na Mesopotâmia por
uma ficção ideológica - força essa que faz muita falta na região, dez
anos depois. E não se vê nenhuma outra alternativa sem a América.
Embora
não haja um nexo de causalidade entre a guerra no Iraque e as
revoluções árabes que começaram em Dezembro de 2010, as suas implicações
têm combinado de forma maléfica. Desde a guerra que as inimizades
amargas entre a Al-Qaeda e os outros grupos nacionalistas salafistas e
árabes sunitas deram lugar à cooperação ou até mesmo a fusões. Isto,
também, é um resultado provocado pelos cérebros neoconservadores
norte-americanos.
E a desestabilização regional provocada pelas
revoluções árabes está cada vez mais a convergir para o Iraque,
principalmente através da Síria e do Irão. Na verdade, o maior perigo
actual para a região é um processo de desintegração nacional, que emana
da guerra civil síria, que ameaça espalhar-se não só para o Iraque, mas
também para o Líbano e para a Jordânia.
O que torna a guerra civil
na Síria tão perigosa é o facto de os operadores que se encontram no
terreno já não serem a sua força motriz. Em vez disso, a guerra
tornou-se numa luta pelo domínio regional entre o Irão, de um lado, e a
Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia, do outro. Como resultado, o Médio
Oriente está em risco de se tornar nos Balcãs do século XXI - um
declínio em direcção ao caos regional que começou há dez anos com a - e
foi em grande parte o resultado da - invasão liderada pelos EUA.
Joschka
Fischer, antigo ministro dos negócios estrangeiros da Alemanha e
vice-chanceler entre 1998 a 2005, foi líder do Partido Verde Alemão
durante quase 20 anos.

Tradução: Project Syndicate

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