O atentado que deixou os "detectives" das redes sociais fora de controlo

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Mensagem por TheNightTrain em Seg Abr 22, 2013 4:26 am

O atentado que deixou os "detectives" das redes sociais fora de controlo

Por Ken Bensinger e Andrea Chang

22/04/2013 - 00:00

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Imagem de Dzhokhar Tsarnaev, o verdadeiro suspeito ALEXANDER DEMIANCHUK/REUTERS


Teorias da conspiração, falsos suspeitos e muita, mas muita, informação que não era verdadeira. Tudo ao alcance de um clique.

Nos últimos dias, milhares de pessoas foram para a Internet fingir que eram o Sherlock Holmes.

Com pouco mais do que imagens granuladas de câmaras de videovigilância, fotografias de telemóveis e tweets em directo das comunicações da polícia, inundaram a Internet com pistas, provas, palpites e especulações sobre o que tinha acontecido em Boston e quem podia estar por detrás do ataque durante a maratona.

As explosões de segunda-feira, o primeiro ataque terrorista de larga escala em território americano na era dos smartphones e das redes sociais, ofereceram a todos os interessados uma oportunidade de se envolverem na investigação. Segundos depois da primeira explosão, a Internet já estava a rebentar de ideias colectivas e reacções em massa.

Só que este momento alto para as redes sociais rapidamente deu origem a uma espiral descontrolada. Legiões de detectives online lançaram suspeitas sobre pelo menos quatro pessoas inocentes, difundiram inúmeras pistas falsas e aumentaram o sentimento de pânico e paranóia.

"Este foi um dos momentos mais alarmantes do nosso tempo em termos de redes sociais", disse Siva Vaidhyanathan, um professor de Estudo dos Media da Universidade da Virgínia. "Somos muito bons a difundir imagens e a incentivar amadores, mas somos muito maus no cumprimento das normas sociais que servem para proteger os inocentes".

Pouco depois das explosões, os fóruns da Internet já estavam cheios de rumores de que tinham sido quatro bombas e não duas, de que uma biblioteca da região também tinha sido alvo de ataque, de que o número de vítimas mortais ultrapassava uma dezena. Em fóruns como o Reddit e o 4chan abundavam as teorias - baseadas em pouca ou nenhuma prova concreta - de que os culpados eram fundamentalistas islâmicos ou então activistas de extrema-direita.

Numa corrida louca para ser o primeiro a identificar os perpetradores, cidadãos anónimos escondidos por detrás do seu nome de utilizador online começaram abertamente a nomear pessoas acusadas de terem colocado as bombas. Apanhados na onda, alguns media tradicionais publicaram essa informação. Na quinta-feira, a capa do New York Post mostrava a fotografia de dois homens na maratona, sob o título "Os Homens do Saco", implicando os dois como os principais suspeitos. Na verdade, não eram suspeitos de nada, e um deles, Salah Barhoun, foi depois identificado como um estudante do ensino secundário que não morava em Boston nem tinha nada a ver com as explosões.

Depois de o FBI ter divulgado as fotografias dos verdadeiros suspeitos, as pessoas realmente perderam a noção. Estes investigadores domésticos pesquisaram a Internet à procura de caras que correspondessem à descrição oficial, e ilustraram o seu trabalho com desenhos, círculos e outras técnicas caseiras de CSI.

Os detectives amadores fixaram as atenções em Sunil Tripathi, um estudante da Universidade de Brown que estava desaparecido há um mês. Recorrendo a uma técnica de animação, fizeram uma decomposição de fotografias de Tripathi, assinalando as semelhanças entre o seu rosto e o de um dos suspeitos identificados pelo FBI.

Não importava que Tripathi não tivesse qualquer conexão aparente com as bombas da maratona. Isso ficou patente na sexta-feira, quando as autoridades revelaram a identidade dos dois suspeitos, dois irmãos imigrantes de origem tchetchena - Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev. "Sabíamos inequivocamente que nenhum dos indivíduos suspeitos de serem responsáveis pelas explosões na maratona de Boston podia ser o Sunil", frisou a família Tripathi, em comunicado.

Os defensores das redes sociais e do crowd-sourcing louvam há muito o seu poder sem rival para rapidamente reunir e disseminar informação em situações de crise. Com dezenas de milhares de pessoas a assistir à maratona, a maior parte munida de smartphones, o simples volume de dados disponíveis para análise era demasiado tentador para ser ignorado. "As pessoas no momento querem participar. Querem sentir que fazem parte do que está a acontecer", explicou Nicco Mele, especialista em tecnologia e redes sociais da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard. Por isso, enquanto a polícia de Boston estava ocupada com o tiroteio com os dois irmãos em Watertown, na madrugada de sexta-feira, dezenas de milhares de utilizadores da Internet resolveram sintonizar as comunicações da polícia, publicando furiosamente as suas notas e ideias no Reddit e no Twitter.

"Julgo que chegámos a um novo patamar, em que a Internet finalmente ultrapassou completamente a informação da televisão por cabo", escrevia um indivíduo identificado como PantsGrenades no Reddit. "De facto, pergunto-me se não estaremos, inadvertidamente, a fazer o trabalho dos jornalistas por eles."

Segundo Murray Jennex, um especialista em gestão de crises da Universidade de San Diego, o grande influxo de vozes online através das redes sociais pode ser extremamente positivo, porque potenciais testemunhas oculares estão agarradas a câmaras em quase todos os locais. Mas, para além das fotografias que fornecem, as suas especulações e teorias não conduzem necessariamente a uma maior eficácia na resolução do caso. "Há demasiado ruído que é completamente insignificante", diz Jennex. "As pessoas vêem tendências e padrões onde não existem tendências e padrões", nota. Outro problema com as redes sociais, prossegue, é que não há nenhuma forma de distinção entre uma fonte de informação credível e outra que não o é. "As pessoas adoram especular e algumas pessoas adoram utilizar a Internet num exercício equivalente aos telefonemas falsos."

Os especialistas consideram que o impacto das redes sociais em situações de crise vai inevitavelmente aumentar. "O instinto é satisfazer os nossos impulsos voyeuristas. É aí que a arrogância das multidões se manifesta", observa Siva Vaidhyanathan. "Quando estamos sentados à secretária, a olhar para o ecrã de um computador, esquecemos-nos facilmente de que aquelas imagens e nomes remetem para pessoas bem reais".

Exclusivo PÚBLICO/Los Angeles Times

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O atentado que deixou os "detectives" das redes sociais fora de controlo Empty Re: O atentado que deixou os "detectives" das redes sociais fora de controlo

Mensagem por TheNightTrain em Seg Abr 22, 2013 4:33 am

A tendência natural de nos mostrarmos prestáveis, põe-se muitas vezes à frente de tudo, inclusive a razão inerente a todas as coisas, o facto de não se fazer prova sem encontrar nexos causais. Se por termos uma boca podemos ser desbocados, o que nos impedirá que tendo "próteses" dos nossos sentidos, não nos torne capazes de sermos menos controlados?

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