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Pai e Filho

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Mensagem por Vitor mango Qui Mar 19, 2015 3:11 am

Pai e Filho

(PDF em anexo)

 

 

 

 

 

Depois de a estrela ter poisado,
 depois de os anjos se terem recolhido,
 depois de os pastores terem voltado para junto dos rebanhos,
 houve alguém que permaneceu no estábulo escuro.
  

José contemplou o bebé adormecido numa manjedoira de palha e murmurou:
— É meu e não o é. Como vou substituir o seu Pai verdadeiro? Como pode um homem simples como eu criar o filho de Deus? Nem sequer comecei bem. Não encontrei um lugar decente para ele nascer, uma cama condigna para ele dormir. Ele, que nos tem embalado a todos desde o dealbar dos tempos.
Que cantigas de embalar devo cantar a alguém que ensinou os anjos a dançar e povoou o céu de pássaros? Como posso ensinar-lhe palavras e letras, a ele que criou o alfabeto e sussurrou sonhos a milhões de ouvidos em milhares de línguas diferentes? Só de pensar nisso, fico sem fala.
E como posso ensinar-lhe as Escrituras? Será como ler-lhe um livro que ele próprio escreveu. Que histórias posso contar-lhe, se ele escreveu a História do Mundo?
E que anedotas? Conhece-as todas. Não foi ele que inventou o hipopótamo hilariante e fez os rios gorgolejar de riso? Não foi ele que desenhou a primeira face, o primeiro piscar de olhos, o primeiro sorriso? Digam-me como hei de proteger uma criança cujo braço brandiu o primeiro relâmpago, que desferiu o primeiro trovão, que veste o sol como armadura e usa as estrelas como elmo?
E, no entanto, o meu coração treme por ti, por seres tão pequenino.
Como vou ensinar-te o que está certo ou errado, se foste TU que fizeste as leis, que separaste o trigo do joio? Como? Como vou alimentar e vestir aquele que semeou o oceano de peixes, que pendurou frutos nas árvores, que calçou camelos e coroou veados?
Vou dar-lhe pão e peixe, vai apanhar sol e vestir roupas como as minhas.
Que jogos faremos, menino, tu e eu? Como posso atrever-me a brincar com alguém que prendeu o oceano com um alfinete de lua? E como hei de maravilhar-te como o meu pai me maravilhava a mim? Foste tu que fizeste a galinha nascer do ovo e o carvalho da bolota. Como posso dar-te um teto, sabendo que foste tu que deste ao mundo uma cúpula de vidro, que cobriste o céu de nuvens, e coseste a neve com fios de prata derretida?
 Sou um carpinteiro, meu filho. Supostamente, devias aprender o meu ofício. Mas, como posso ensinar-te a aplainar uma porta, se foste tu que aplainaste as planícies, que esculpiste os vales, que aparaste as colinas, com o vento numa das mãos e a chuva na outra? Que prendas te posso dar, a ti que me deste tudo?
 

Esta esposa.
Esta noite.
Esta felicidade.
Este filho.
 

Qual será o meu legado para ti, meu pequenino, além de um mundo cheio de Amor? Nem a cor dos meus olhos e nem sequer o meu nome.
E, no entanto, estive a pensar, filho…
As minhas mãos são fortes, Deus sabe-o. E todos precisamos de uma ajuda de vez em quando. Será essa a minha oferta, meu filho. Serei a mão que te ajudará.
 E foi assim que, muito depois de a estrela se ter posto, depois de os anjos se terem recolhido e de os pastores terem regressado aos rebanhos, um homem permaneceu acordado no estábulo escuro, a velar uma criança adormecida…
 

…enquanto Deus velava sobre ele…
 
 
Geraldine McCaughrean
Father and Son
London, Hodder Children’s Books, 2006
(Tradução e adaptação)

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