Pelo direito de se mentir um bocadinho

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Pelo direito de se mentir um bocadinho

Mensagem por Viriato em Qui Jul 28, 2011 5:46 am

Pelo direito de se mentir um bocadinho

por FERREIRA FERNANDES

Uma empresa de cosméticos fez um anúncio com Julia Roberts, de 44 anos, sem uma ruga. As autoridades britânicas proibiram a campanha da L'Oréal porque as fotos foram retocadas. Eu também me senti ofendido com a foto. Prefiro a Julia Roberts, aquela de Pretty Woman, olhos expressivos e boca viva, à foto de um tampo liso de fórmica. Mas, na verdade, aquele anúncio não falava para mim, vale de pouco a minha opinião. Aquele anúncio dirigia-se a mulheres que gostariam de ter a pele de uma lisura imaculada. Como todas as empresas que recorrem à publicidade, a L'Oréal, nas suas fábricas, faz produtos; nos seus anúncios, vende uma esperança. Disseram as autoridades britânicas: justamente, com as fotos retocadas estão a vender esperanças falsas. Respondo: vender esperanças falsas seria pôr nos anúncios a Julia Roberts de Um Sonho de Mulher. Essa só Deus pode prometer e cumprir. Já anunciar simples cara sem rugas é uma esperança mínima que não se pode negar a uma cliente. A publicidade, que é a arte honesta de esconder toda a mentira de uma meia verdade, tem todo o direito de acalentar pequenas esperanças ao género humano. A tal autoridade, a Advertising Standards Authority (ASA), pode vir a chamuscar-se se os políticos ingleses perceberem o precedente perigoso (revolucionário, até) que é banir um anúncio por causa de uns retoques. Se entrar em vigor a política de verdade pura e dura, o mundo moderno desmorona.

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