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SAUDE

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Mensagem por Viriato Sab Set 04, 2010 5:57 pm

SAUDE

JOSÉ MANUEL DOS SANTOS

É como se lá trabalhasse. Seja verão ou inverno, é das primeiras a chegar ao Centro de Saúde. As empregadas, mal a veem entrar, ficam nervosas. Senta-se na sala de espera e começa a olhar com os seus olhos perscrutadores. Olha as paredes e o chão, a mesa e as cadeiras. Com regularidade, de cinco em cinco minutos, dá um suspiro sofredor e sonoro, exclamando: "Ai, sou tão doente! Ai, sofro tanto! Ai, esta noite não dormi nada com dores!" Depois, comenta o que observa: "Está tudo mal limpo. A mesa tem pó. O chão está sujo. Agora, ninguém trabalha como deve ser. Querem é fumar na rua e beber bicas no bar.

Trabalhei cinquenta anos, e o que eu limpava podia lamber-se ... " Cala-se, enquanto os olhos continuam a examinar o mundo para lhe darem novos motivos de acusação. Abre o saco e tira o croché. Está a fazer naperões para "uma sobrinha que vive na terra" e em breve vai casar: "É a minha prenda. E vai bem servida, que está a dar-me um trabalhão. Nem precisava de nada. Não vou ao casamento, que já não tenho saúde para viagens. Agora, viagens, só a última, e é deitada, para o cemitério!" E há uma pausa triste no fazer da renda.

Quando começam a chegar pessoas para as consultas, observa-as. A experiência ensinou-lhe a distinguir as faladoras e as silenciosas, as que contam a vida e as que a resguardam ("Se não falam é porque têm alguma coisa a esconder!"). Mal vê uma presa fácil, atira-se-lhe, voraz: "Bom dia! Então, a senhora está doentinha?! Vem para que doutor?!" Assim que ouve o nome do médico, traça-lhe o perfil. Chegam mais pessoas, e a conversa generaliza-se. A uma diz: "A senhora tem sorte! O seu doutor é competente. Mas, tem um contra: é de poucas falas." A outra esclarece: "O seu é

novato. Para passar receitas, ainda tem de ir ver ao livro!" Continua a informar, a avaliar. De um médico, explica: "Esse não gosta de passar análises e radiografias. Quer poupar. Parece que o dinheiro é dele!" De outro, elucida: "É um trombudo. Nem olha! Não levanta a cabeça da secretária. Parece que a tem pesada!" Sobre um terceiro, assegura: "Já matou três velhos. E a mim, se tenho continuado com ele, também me matava!" E ri, com um riso pequenino como ela. Sabe tudo de todos, médicos e doentes, enfermeiras e empregadas. Diz: "Aquele que dá consulta no terceiro gabinete à esquerda no corredor deixou a mulher com dois filhos pequenos e agora vive com uma enfermeira! Um dia, ralhou-me. Eu respondi-lhe imediatamente: 'ó senhor doutor, há quem faça coisas muito piores do que eu!' Calou-se logo!"


Os médicos fogem dela, fingem que não a veem, escondem-se. Mas ela persegue-os. Já consultou todos. Mal chega um novo, experimenta-o. Na primeira consulta, fala com voz lenta e baixa, queixa-se de males e sofrimentos. Arrasa quem a tratou antes ("Nem vale a pena contar o que ele me fez!"). Na segunda consulta, começa a desconfiar do que o novo médico lhe prescreve: "Afinal, este ainda sabe menos do que o outro!" Na terceira, protesta: "O senhor doutor tenha paciência, mas esse remédio que está a receitar-me não tomo. Já experimentei e ainda fiquei pior. Via tudo a andar à roda! Recei-te-me antes aquele .. ." - e diz um nome de tal forma corrompido que o médico tem dificuldade em perceber a que medicamento ela se refere. Depois, recusa-se a continuar com o médico. Vai ao guiché da Secretaria e diz: "Arranjem-me outro médico, que este bem me enganou! Parecia bom, mas afinal não sabe nada. E, ainda por cima, está sempre com pressa, a despachar-me. Nem ouve o que lhe digo."

As empregadas têm terror dela. Ela chama-lhes queridas, trata-as pelos nomes, pergunta-lhes pelos maridos e pelos filhos. Mas é implacável: protesta, reclama, exige, impõe. Diz alto, para elas ouvirem: "São umas parvas e umas calonas. Não querem fazer nada. Queixam-se de que ganham pouco. Para o que fazem, ganham muito. É por isso que o país não vai prà frente!" Espreita no corredor e, quando passam, atira-lhes: "Parece impossível. Não acredito. Então, o doutor foi-se embora e a menina não me avisou. Eu precisava de uma receita. Agora, resolva-me o problema, que eu não saio daqui sem ela. Arranje-se como quiser!"

Agora, ali está ela. Cansou-se da renda. Só não se cansa de falar - de doenças, de medicamentos, de médicos. E até de política ("São todos iguais. Não prestam para nada. Parecem os médicos. Receitam muito, mas não curam nada!"). Passa as manhãs naquela sala de espera. É o estar ali que lhe dá saúde, não são os médicos, nem os remédios. Pensa: "Antes no Centro do que sozinha em casa. Ao menos, aqui, distraio-me." Vira-se e diz para a do lado: "O seu doutor está atrasado. Mas por esse vale a pena esperar. É muito atencioso. Quando me dá consulta, chega a estar meia hora comigo. E sabe medir a tensão como ninguém ... "

Se reproduzo esse post, hoje publicado no Actual, do Expresso, não é por ser das melhores prosas de José Manuel dos Santos, que geralmente aprecio muito. É sobretudo porque corresponde á opinião de um grupo de trabalho de que fiz parte no MS sobre a adoção ou não das taxas moderadoras. E foram implementadas sobretudo para evitar a presença constante destas senhoras hipocondríacas que, por nada terem que fazer, enxameavam os Centros de Saúde e hospitais. Podem não acreditar. Mas aquelas taxas (que para um senior maior de 65 anos é de € 1,10 e isentas para quase metade da população), reduziu a frequência em quase 12%. A bem da saúde pública, da paciência dos médicos, enfermeiros e administrativos....
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Mensagem por Vitor mango Dom Set 05, 2010 3:30 am

muito interessante

tive atendimento de primeira no Hospital de Leiria
mass o meu Mordomo matou-se a rir quando soube que o mango se voltou para o medico e lhe pergunto
O Sr recebe assim os seus clientes mal encarado ?
?????????????
Paatrao como é que o gajo ficou ?
Torceu-se a arranjar um sorrisito pah

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Mensagem por Joao Ruiz Dom Set 05, 2010 4:44 am

É um texto delicioso, um retrato fiel do que se passava nos centros de saúde, ainda há bem pouco tempo.

Faltou acrescentar os autênticos plantões diários que faziam, à porta dos postos médicos, a partir das 3:00 horas da madrugada (leu muito bem), falando pelos cotovelos, ordenando a fila dos utentes que chegavem, oferecendo-se para fazer as inscrições, etc....

E também os servicinhos que prestavam ao pessoal do posto, indo buscar os pastelinhos, os cafés, os pãezinhos om manteiga, etc. etc..

No fundo, tornavam-se figuras típicas e incontornáveis, a justificar a desorganização existente dos serviços.

Laughing Laughing Laughing Laughing Laughing

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