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dois contos curtos

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Mensagem por Vitor mango Ter Dez 09, 2014 10:42 am

Penas de Neve

 

(PDF em anexo)

 
 
No livro de geografia de Amédée, há uma imagem que muito o espanta. Vê-se uma rua de Paris coberta por uma espuma branca muito bonita. Algumas crianças fazem bolas com ela, e atiram-na umas às outras, a rir. Outras divertem-se a deslizar sobre ela com um caixote de madeira. E, a um canto, três meninas fazem uma grande estátua, toda branca, com aquela espuma.
— A isso chama-se neve! — explica o professor, escrevendo a palavra no quadro.
Amédée, que mora em África, nunca viu neve.
Por isso, coloca muitas perguntas que fazem sorrir o professor:
— É verdade que a neve cai do céu? Porque é que aqui não há neve? E a neve é doce? É quente? E é pesada?...
O professor responde que a neve é feita de água. Mas Amédée tem dificuldade em compreender: como é que a água pode transformar-se numa bola? Para ele, tudo aquilo não passa de um grande mistério!
“Quando for grande”, diz para si próprio ao fechar o livro, “irei a França para ver como é que é mesmo esta neve.”
 
Quando chega a casa, Amédée ajuda a mãe a decorar a palmeira diante da porta. O Natal está próximo. É altura de a enfeitar.
Com um fio, Amédée pendura cascas de coco que pintou de todas as cores. Depois, sobe ao topo da árvore para aí fixar uma estrela enorme feita de madeira.
Durante a refeição, ele não para de falar sobre o que viu naquela imagem do livro. E o avô é como ele: não consegue acreditar que a água se transforme numa bola.
— O teu professor devia estar a brincar contigo!
Quanto à mãe, ela repreende-o de forma gentil:
— Vejam só estes dois ignorantes que não querem acreditar em nada, mas que querem explicar tudo. Vamos lá, toca a comer em vez de falar! E tu, Amédée, não te esqueças de que o Natal está a chegar. Pensa mas é no bem que podes fazer à tua volta.
Pois é, amanhã é 24 de dezembro, a véspera do grande dia!
Amédée promete que fará o seu melhor.
Logo pela manhã, depois de se levantar bem cedinho, Amédée vai ao poço encher os baldes de todas as pessoas idosas da aldeia.
Depois, toma conta dos dois gémeos da Senhora Sali enquanto ela cozinha. A Senhora Sali tem muitos filhos e está sempre cheia de trabalho.
Para lhe agradecer, ela dá-lhe uma das grandes panquecas que acaba de fazer.
Embora tenha muita vontade, Amédée não a come. Decide ir levá-la a Doumba Diof, o velho cego que vive sozinho na floresta. É um sábio muito respeitado, mas muita gente tem medo dele… Dizem que tem grandes poderes!
 
Ao tomar o caminho da floresta, Amédée sente um pouco de medo. Os olhos vazios e brancos do ancião são muito estranhos! Mas diz a si próprio que não se deve ter medo de nada na véspera de Natal.
Doumba Diof fá-lo sentar-se numa esteira e divide a panqueca em duas partes. Como dizem que ele é muito sábio, Amédée tem uma pergunta na ponta da língua:
— Doumba Diof, tu que sabes tantas coisas, fala-me da neve!
— Não se pode falar da neve, meu filho. É preciso vê-la e tocar-lhe.
Amédée fica um pouco desiludido com esta resposta mas não o mostra. Antes de partir, limpa e arruma a cabana porque o velho cego tem dificuldade em fazer tudo isso sozinho. Para lhe agradecer, Doumba Diof oferece-lhe um pequeno pássaro branco numa gaiola de bambu.
Amédée leva-o para a aldeia e mostra-o a todos os seus colegas.
— Foi Doumba Diof quem mo deu!
Os colegas olham para ele com inveja.
— Vai trazer-te felicidade — diz-lhe o avô — porque Doumba Diof é um grande feiticeiro.
Amédée está orgulhoso do seu pássaro. Não se cansa de o admirar.
 
Mas, na noite de Natal, sente vergonha de manter numa gaiola, como um prisioneiro, quem nasceu para voar livremente…
As palavras da mãe vêm-lhe à memória “Pensa em todo o bem que podes fazer à tua volta.” Então, Amédée dirige-se à praça da aldeia, tira o pássaro da prisão e lança-o no ar. No mesmo instante, como que por encantamento, uma espuma fina cai do céu.
Amédée abre as mãos e sente, pela primeira vez, a carícia mágica dos leves flocos de neve.
 
 
Michel Piquemal ; Boiry 

Plumes de neige

Paris, Casterman, 1994
(Tradução e adaptação) 
_______________________________________________

  
 

Quebrar a tradição

 

(PDF em anexo)

 
 
Ninguém previa uma coisa destas!
Ninguém achava possível que a mãe estivesse a falar a sério e fizesse greve.
E tudo começou de forma inocente na tarde do primeiro domingo do Advento.
 
A mãe estava a fazer uma lista das pessoas a quem queria escrever nesse ano. O pai, entregue ao seu passatempo favorito, cozinhava. Mimo, o meu irmão mais novo, estava a pintar uma carta. Era segredo absoluto, como fez questão de sublinhar, mas ia dizendo o texto a meia-voz “Querido Menino Jesus…”; e eu estava a tocar no piano algumas músicas de Natal, porque a avó iria aparecer a qualquer momento e haveria uma pequena celebração do Advento.
Mas depois…
— Onde é que está o Boris? — pergunta Mimo de repente.
— O preguiçoso está a dormir — diz a mãe.
Pela voz, nota-se que está mesmo zangada. Boris é o nosso irmão mais velho, de quase dezassete anos, bastante descontrolado e sempre em conflito com os pais — principalmente por causa da queda dele para cortes de cabelo esquisitos: iroquês no verão, tranças rasta no outono. E agora, cabeça rapada.
Lá vem ele. Magro e pálido. Queixa-se de uma dor de cabeça e pede uma aspirina à mãe.
— Coitado do Boris! — diz Mimo, cheio de pena.
Desce da cadeira e conduz Boris ao sofá como se estivesse gravemente doente.
— Põe-te à vontade!
Mimo trata Boris como um deus e faria tudo para lhe tirar as dores. Mesmo tendo-lhe Boris posto o novo nome, Mimo, abreviatura de Mini-Monstro. Mas isso não lhe retira o amor que tem por ele, antes pelo contrário. Agora só quer que o tratem por MIMO e já não reage ao nome verdadeiro, Manuel.
A mãe vai buscar um copo com água e dissolve uma aspirina.
— Uma coisa te digo, Boris! Se voltas a tirar-me da cama à meia-noite ao tocar à campainha, só porque te esqueceste da chave…
— Eu abro-te a porta — segreda-lhe Mimo.
— Eu queria acordar o pai e deixar-te dormir! — defende-se Boris.
— Ai, mas que delicado! Até me vêm as lágrimas aos olhos! — exclama a mãe. — Sabes muito bem que nem o estrondo da tua aparelhagem acorda o teu pai.
E falando dele… O pai mete a cabeça na porta e diz:
— Ainda preciso de algumas prendas para os meus colegas — diz à mãe. — Tratas disso, querida? A festa de Natal é lá para o final da semana.
Reparou agora em Boris.
— Ah, o senhor nosso filho também já se levantou? — A voz do pai adquiriu um tom perigoso. — Põe rapidamente um gorro na cabeça antes que a avó chegue. Não vejo interesse em falar com ela sobre a tua cabeça rapada.
Boris lança um olhar ao pai. Mudo e sofredor. Tira o gorro de Natal do saco e põe-no na cabeça.
— Contente? — pergunta.
O pai murmura qualquer coisa entre dentes e retira-se para a cozinha.
Mimo canta com a sua voz aguda:
“É Natal, é Natal…”, e eu acompanho-o ao piano.
 
Tocam à campainha. Boris endireita-se.
— Deve ser a avó! Anda, Mimo! — e voam os dois em direção à porta, comigo nos calcanhares.
— Olá, avó! — Tiramos-lhe o casaco e o chapéu. Recusa passar-nos para as mãos a coroa do Advento que, como todos os anos, traz. Quer ser ela a levá-la para a sala.
O jantar decorre sem grande turbulência. Falo da nossa peça de Natal, onde faço de anjo.
— E eu vou fazer de pastor! — diz a cacarejar Mimo, radiante.
— E eu faço de Menino Jesus — graceja Boris.
— Boris! — ralha o pai, fixando-o com um olhar severo.
— Estava só a brincar! — murmura Boris.
— Podes fazer de burro — digo eu ironicamente. Não gosto quando ele começa a fazer troça do nosso teatro.
— Meninos, meninos, não vão discutir! — a avó tenta apaziguar-nos. Não é nenhuma discussão. Só que, quando se trata de Boris, não gosto de dar o braço a torcer.
Depois da refeição, o pai acende a primeira vela da coroa. Eu toco algumas canções de Natal e os outros cantam. A mãe com voz rouca de soprano, Mimo com voz aguda e desafinada, Boris em silêncio, a abrir e a fechar a boca como um peixe. E o pai canta o refrão. Comovida, a avó não pronuncia palavra. Em seguida, queixa-se do que ainda tem para fazer e pede à mãe para resolver umas coisas por ela. Só algumas prendas. E alguns bolinhos de Natal. E enfeites novos para o pinheiro. E ainda uns poucos de postais da UNICEF para as quatro irmãs. Pede-lhe só que os escreva, que ela assina depois.
A mãe já está a arfar.
— O Felisberto é que podia ocupar-se do correio! — diz ela, deitando ao pai um olhar provocador.
— Oh, querida, o Felisberto já está cheio de trabalho até às pontas dos cabelos! — a avó defende o filho. — Além disso, a tua letra é mais bonita e também tens mais tempo.
— A tua mãe parece mesmo acreditar que eu não tenho mais nada que fazer!
A mãe desabafa a sua fúria depois de a avó ter ido embora.
— Ó querida, ela não faz por mal! Às vezes é muita coisa para ela, principalmente agora, por altura do Natal.
— Bom, eu agora tenho de ir! — diz Boris, tirando o gorro da cabeça. — Acho este espalhafato todo do Natal uma palhaçada.
— Palhaçada? — diz a mãe, arrastando a palavra, como se fosse um eco.
Boris já está fora da porta, mas volta outra vez.
— A propósito, posso ir a uma festa no dia de Natal?
— Mas no dia de Natal vamos todos a casa do tio Fernando! — objeta o pai. — Já é tradição juntarmo-nos todos em casa dele.
— E quem é que precisa de tradição? — riposta Boris secamente. — Sempre as mesmas conversas, sempre as mesmas coisas. É mesmo uma palhaçada.
Faz menção de sair da sala, mas a mãe detém-no.
— Um momento, Boris! — diz ela e, de repente, parece ficar muito pensativa. — Talvez tenhas razão! Talvez já não haja nada de autêntico por detrás daquilo a que chamamos tradição e que para ti não passa de espalhafato. Se assim é, devíamos acabar com estas coisas todas.
Boris fica de boca aberta.
— Não há árvore de Natal? Não há visitas à família?
— Exatamente.
— Ei, fixe! — Boris está impressionado. — Mesmo fixe! Tenho de contar aos meus colegas.
— Não há carpa pelo Natal? — pergunta Mimo, esperançado, já que detesta peixe.
— Fixe! — diz Mimo impressionado. — Mesmo fiiixe. Tenho de contar aos meninos do infantário!
— Natal sem árvore nem carpa? — diz o pai, consternado. — Queres quebrar a tradição? Não podemos fazer uma coisa destas à minha mãe!
— Mas também é tradição que seja eu sozinha a resolver tudo — diz a mãe. — Todos os anos há sempre coisas e mais coisas para fazer e ninguém ajuda. Só sabem exigir. E o Natal é muito mais do que isso!
 
Ficamos em silêncio, embaraçados. O pai, Boris e eu. Mudos e quedos. Só Mimo é que se endireita de repente e, no silêncio geral, diz as palavras do anjo
 
“Olhai, anuncio-vos uma grande alegria…”
 
*
A terceira semana do Advento está quase a começar e a mãe falava mesmo a sério. Nada fez no que respeita aos preparativos de Natal.
— Não há stress! Não há frenesim! — não para de repetir. — Como eu aprecio isto!
E por causa disso andamos nós em stress.
O pai, Boris, e eu.
O pai teve de arranjar ele mesmo as prendas para os colegas, despachar o nosso correio de Natal e o da avó, e prometeu tratar da árvore de Natal. Porque, sem árvore, não é possível! Sem bolinhos de Natal também não. Até Boris concorda.
— Sem tradição nenhuma é que é uma palhaçada! — diz ele.
E como o pai me explicou uma vez que um bom “patrão” deve saber delegar, assumi eu o comando da crise. Incumbi Boris de adular as nossas tias, que adoram cozinhar, e de lhes pedir uma doação generosa de todo o tipo de bolinhos. Se ele souber lançar-lhes o seu charme, de certeza que vai ter bons resultados!
Como já conheço os esquecimentos do meu pai, vou, por precaução, telefonar ao meu padrinho e pedir-lhe uma árvore de Natal. Se estiver mal de finanças, posso ainda perguntar ao chefe dos empregados da escola se me deixa ficar com a árvore que está no centro do pavilhão polivalente. Depois das férias, devolvia-lha, sem falta...
Continuo sem saber de cor o meu papel para o teatro de Natal.
Em compensação, sabe-o Mimo do princípio ao fim.
Talvez delegue nele o meu papel.
Também tem de haver anjos pequeninos!
 
Gerda Anger-Schmidt 
 
Brita Groiß; Gudrun Likar
Weihnachten ganz Wunderbar: ein literarischer Adventskalender
Wien: Ueberreuter, 2001
(Tradução e adaptação)

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Só discuto o que nao sei ...O ke sei ensino ...POIZ
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Vitor mango
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