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Mensagem por Anarca em Sab Nov 15, 2008 10:11 am

Relembrando a primeira mensagem :

I - Luísa

Os pais da Luísa tinham uma grande fazenda de café na província do Uíge, mesmo junto à fronteira com o Congo.
Partiram da aldeia onde tinham nascido e casado, saturados de beijar a mão ao Padre que governava todas as vidas com o apoio do Chefe do Posto da Guarda Nacional Republicana.
Os primeiros meses naquelas terras desertas foram bem difíceis de passar, debaixo de uns panos de lona e rodeados de bicharada e negros que só entendiam o que lhes convinha.
Rapidamente se habituaram ao cheiro a catinga, mas o pior era quando os pretos falavam entre eles uma linguagem estranha e riam muito.
Só podiam estar a gozar os brancos…
Até os sipaios ao serviço da Administração da Circunscrição pareciam dançar quando marchavam…
No dia em que a casa ficou pronta, o pôr do sol veio dar com eles sentados no alpendre à sombra das acácias.
Muito ao longe, atrás de árvores frondosas, conseguiam ver as pequenas cubatas dos sipaios, com as suas muitas mulheres a tagarelarem todo o dia, e os grandes telheiros onde se abrigavam os negros contratados para os trabalhos públicos.
O destino dos negros tinha mudado. Os brancos eram agora os donos das terras, e os comerciantes já nem sequer pagavam aos sobas para exercer o comércio…
Os sipaios apareciam nas sanzalas, de farda e espingarda, a falar em nome das autoridades.
- É branco do Governo que manda! - diziam eles invadindo as cubatas para levar negros para irem trabalhar para os brancos.
Agora, eram os pais da Luísa que governavam com o apoio do Administrador da Circunscrição…


Última edição por Anarca em Sex Fev 20, 2009 10:53 am, editado 5 vez(es)
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Mensagem por Anarca em Qui Jan 08, 2009 1:51 pm

O Zé Mao tinha sido expulso da Escola por não querer aturar o Chico Moralista.
Na ficha escolar constava que tinha sido expulso por não querer frequentar a aula de Religião e Moral.
O director acrescentara uma nota a dizer que se podia estar na presença de um perigoso comunista.
O Chico Moralista - professor de Religião e Moral - gostava de o provocar, e enrolava o cabelo do Zé Mao nos dedos, puxando-o pela sala enquanto lhe perguntava se ele era dos porcalhões que liam as novelas de amor aos quadradinhos.
- Gostas de ver aquelas porcarias dos beijos na boca?… - perguntava-lhe o Chico Moralista, enquanto lhe puxava a cabeça para baixo.
Parecia que o destino não queria nada com o Zé Mao…
O pai do Zé Mao tinha sido despedido por ter sido detectado numa manifestação contra o Governo. Alegou que só ia a passar por ali, mas o porteiro que já lhe tinha retirado da parede o cartão de ponto, não quis saber e disse-lhe para passar pela secção do pessoal, para se fazerem as contas.
Era um quadro médio honesto e cumpridor de seus deveres.
Quando tentou recorrer da decisão da Empresa ia ficando preso.
Depois de meses perdidos, a Empresa apresentou queixa na policia com vários relatórios apontando fraudes diversas, desvios de dinheiro, tráfico de drogas e de influências, falsificação de documentos, favorecimento de informações privilegiadas, quebra de sigilo, etc…
Vários colegas eram testemunhas da acusação.
Num acto magnânimo, e atendendo a que Deus também tinha perdoado aos seus algozes, o Patrão acedeu a retirar a queixa da policia se ele assinasse uma confissão e mostrasse arrependimento…
Assinou tudo, mas a revolta levou-o a ingressar no movimento Sindical e a incentivar as massas trabalhadoras. Participou em movimentos grevistas, distribuiu propaganda contra o governo e apelou ao fim da Guerra Colonial.
Ao abrigo da Lei de Segurança Nacional foi rotulado como Anarquista e depois Comunista.
Conseguiu fugir para o Brasil mas a família nunca mais soube dele.
O Zé Mao tinha tentado recorrer da expulsão, mas a empregada da Secretaria não podia fazer nada.
- Tenho ordens do Senhor Director, o menino foi expulso !… - repetia a pobre mulher.
Revoltado, atravessou o corredor que exibia nas paredes as fotografias dos notáveis.
O presidente Américo Tomás estava ladeado por Oliveira Salazar e Marcelo Caetano.
Em destaque um auto-retrato do Director...
O Zé Mao trazia sempre com ele uma colectânea das melhores frases do Tomás.
Quando ouvia algum disparate digno de constar na lista, o Zé Mao tomava nota. Queria fazer um folheto clandestino com as idéias do presidente e distribui-lo pelo meio estudantil.
O Zé Mao acreditava que o ridículo podia doer.
Tirou da mala uma caneta de feltro e escreveu na parede mesmo por baixo do retrato do Tomás “O caminho certo é o que Portugal está seguindo; e mesmo que assim não fosse não há motivo para nos arrependermos ou para arrepiar caminho. (1964)”
Gostou tanto da idéia que passou logo para o quadro do Salazar.
“A Madeira é uma ilha, e como tal as suas fronteiras defrontam sempre a água. (1962)”
O Marcelo Caetano foi a seguir...
“Turismo sem cais acostável é hoje quase impossível. (1962)”
Quando chegou ao quadro do Director, parou para pensar. Aquele merecia um tratamento especial.
Nesse momento, um empregado que saía da Secretaria desatou a gritar.
Os contínuos não sabiam o que fazer e entreolhavam-se assustados. O porteiro - que tinha sido comando durante o serviço militar e que constava ser da Pide - agarrou o Zé Mao pelo cós das calças.
Daí a instantes, o corredor estava cheio de gente. O Director e os professores não sabiam se deviam apagar as inscrições, ou chamar a Policia.
- O Senhor Director está muito bonito no retrato! - dizia o Zé Mao, que fazia o último discurso enquanto era arrastado pela Policia para fora da Escola.
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Mensagem por Anarca em Sex Jan 09, 2009 11:56 am

O Director era um verdadeiro ditador. Gostava de repetir vezes sem conta que era um homem com pleno domínio das faculdades mentais, com opiniões bem fundamentadas, conservador e com os impostos em dia.
No entanto, só tinha problemas e contrariedades. Aparecia sempre alguém a desobedecer ou a pensar de maneira diferente dele, o que o fazia ficar azedo e aborrecido.
As carteiras da aula desalinhadas, os livros fora do sítio, as portas a ranger, a melga a zumbir, os saltos das empregadas a bater no chão, tudo parecia de propósito para o contrariar…
Queria que as pessoas acreditassem sempre naquilo que dizia, mesmo quando nem ele acreditava.
Estudava metodicamente todos os acontecimentos diários, os quais relacionava entre si, tendo em vista estabelecer um padrão conhecido.
Uma chamada telefónica com ruido, um olhar de lado de algum professor, uma cagadela de pássaro no carro, a sopa pouco quente ou uma nódoa na gravata, eram parâmetros importantes.
Assistia ao programa ZipZip da RTP e antecipava as respostas dos entrevistados ou imaginava como reagiria ele se estivesse no local da cena.
Criava inimigos imaginários e odiava-os com todas as forças.
Tinha uma grande necessidade de afeição e reconhecimento, mas as responsabilidades que lhe estavam cometidas eram motivo de inveja, pelo que desconfiava sempre das intenções de quem o rodeava.
Gostava de criar situações constrangedoras para os subordinados e observar os respectivos comportamentos, memorizando as fraquezas para as utilizar no futuro.
Quando queria convencer uma plateia, atacava primeiro os tímidos e os ignorantes, e só depois os restantes. Ficava deliciado por ter sempre razão e esmagar quem não concordava com ele.
Era perito em oprimir as pessoas menos cultas. Jogava com as palavras e ia apontando contradições até o oponente ficar encurralado e vexado, exigindo finalmente um sinal de agradecimento pela atenção concedida a tal ignorante.
Quando desabafava com a mulher e ela concordava, ficava exasperado, acusando-a de não o levar a sério, mas se o contrariava mandava-a fechar a boca e deixar de dizer disparates…
Este homem era o responsável pela educação de milhares de alunos…
O Zé Mao ficou com o destino marcado quando entrou naquela escola.
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Mensagem por Anarca em Sab Jan 10, 2009 6:16 am

Como previa, Pedro foi colocado numa Unidade em Lisboa, na qual se limitava a permanecer durante a semana das nove às cinco.
Tinham decidido viver juntos para aproveitar todo o tempo perdido...
Gostava da tia Maria do Amparo, que se esforçava para não lhes invadir a privacidade, sem reparar que devido ao tamanho da casa, isso seria uma missão quase impossível.
A felicidade seria total, se o Matacão não fosse vizinho...
Tudo corria sobre rodas, bastando aplicar o princípio do boné de pala que consistia em nunca olhar para o que faziam os superiores. A grande maioria dos militares de carreira não sabiam fazer mais nada. Na vida civil nunca teriam a importância que exigiam, nem teriam subalternos mais capazes do que eles.
A directiva mais importante consistia seguramente na dispensa de usar boina dentro da Unidade, o que automaticamente evitava dezenas de continências...
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Mensagem por Anarca em Dom Jan 11, 2009 11:04 am

Maria do Amparo vivia a felicidade da sobrinha com muita alegria e ansiedade. Queria que a Luísa conservasse o que ela tinha perdido de forma tão leviana.
Tinha casado por procuração com Alfredo - tio da Luísa - que tinha conseguido enriquecer em Angola.
Inicialmente pensara que a culpa tinha sido de Martinho, mas os anos deram-lhe tempo suficiente para compreender.
Tudo começara com um pequeno desentendimento que pouco a pouco se transformou num tormento.
O orgulho tinha destruído a confiança, e um rancor alimentado pelo silêncio passou a governar.
Daí à infidelidade foi uma questão de oportunidade.
Tinham passado muitos anos, mas continuava a querer regressar e recordar os pássaros a cantar no silêncio da mata.
Estava cansada de tantos anos de lágrimas, sem poder escoar a raiva que a invadia em vez de continuar a chorar pelos cantos da casa, em silêncio...
Não encontrava mais forças para racionalizar ou rebater o passado.
Sentia-se sozinha num lugar a que nunca iria pertencer.
Talvez um dia conseguisse regressar, nem que fosse com asas, depois de subir aos céus...
Gostaria de voltar para Alfredo, mas tinha poucas esperanças que tal acontecesse algum dia. Era o único sonho que carregava.
Assistia à felicidade de Luísa e ficava tentada a escrever-lhe, nem que fosse apenas para lhe dizer adeus...
Maria do Amparo gostava de pouquíssimas pessoas o que aumentava a qualidade do amor que tinha para dar.
Os anos tinham-lhe dado força para encarar os erros passados, e fazia questão de assumir que, se pudesse voltar atrás, faria muitas coisas de maneira diferente.
Tinha muitas saudades de Alfredo, mas também daquela terra vermelha e dos pássaros a cantar no silêncio da mata...
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Mensagem por Viracopos em Dom Jan 11, 2009 3:39 pm

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Mensagem por Anarca em Seg Jan 12, 2009 12:42 pm

Enquanto registava o correio para despacho ia ouvindo a conversa habitual dos Escriturários. Pensara por várias vezes proibir aquela verborreia, mas como o Capitão mesmo ao lado parecia não ligar, não queria ser ele a assumir o confronto.
- Quer dizer que o cabrão do teu pai ontem não apanhou nenhuma bebedeira ?...
Foi o inicio da discussão dessa tarde. Era difícil algum deles se ofender, o que lhes dava abertura para um variado leque de palavrões, invenções e falsos testemunhos.
Faziam destas batalhas verbais uma luta contra o tédio.
Aproveitou a confusão gerada por uma disputa mais acesa para atirar disfarçadamente para o caixote do lixo algumas cartas sem interesse que não valiam a pena dar entrada.
- Com que então andas a meter a tua mulher a atacar, não é verdade?...
- Pois é... - fingia concordar.
- Fazes senhas verdes não é ?... - continuava.
- Não sou é chulo ! - atacava agora o Cabo Lopes, virando a frente de ataque.
- E eu sou ?... - respondeu pouco à vontade o Cabo Dias.
- Pois és... A viver com uma velhinha que queres que eu te chame?... É amor, não ?...
- Não sejas porcalhão... - notava-se não estar a gostar do tema.
Toda a secção de dactilografia aproveitou logo para atacar nesse ponto fraco.
- Diz lá à rapaziada como é que consegues comer aquilo, tudo cheio de rugas... - com gestos tentava representar a repugnância que o invadia.
- Vai meter a tua mulher a atacar !... - voltava ao primeiro argumento, já um pouco zangado.
- Mete mas é a velha... - respondia o outro.
A brincadeira prometia ir mesmo aquecer, quando o Capitão, que permanecera sentado silenciosamente à secretária, interrompeu.
- Não consigo compreender... - olhava para eles - Chamam nomes às mães, às mulheres, mas daí a pouco já estão bem e começam outra vez. São uns homenzinhos... Não posso compreender...
Mantiveram-se em silêncio até o Capitão sair com a pasta para ir a despacho, mas mal a porta se fechou...
- Olha lá, tu não és filho do Anão do Poço do Bispo ?...
- Ah, pois sou...
Como viu que por ali não levava nada, voltou-se para o do lado.
- Sabes uma ?... Fui ontem a casa deste gajo. Palavra... - assegurou quando o outro começou a rir. - O pai chega a casa com uma grande bebedeira, senta-se à mesa, mete as botas todas cagadas em cima e grita para a mulher : “Maria, venha a merda do comer que estou cheio de fome”
- Tomarás tu meu porco... - defendeu-se o visado. - És um teso de merda, ou pensas que por teres um BMW a cair aos bocados, interessas a alguém ?... E nem é teu, é da velhota, meu chulo...
- Ao menos ando de BMW, mas tu andas com uma merda que nem tem radiador... – e fazia gestos de desprezo. - Um Wolkwagen... isso nem é carro. Sem radiador...
E foram continuando sem se zangarem, acabando por se calar...
Ao fundo da sala, o Cabo Chicão meteu os pés em cima da máquina de escrever começando aos pezões no teclado, até grande parte das teclas ficarem presas. Como não se soltavam, levantou-se e atirou com a máquina, uma Messa, para cima da mesa ao lado, provocando a saída do carro que caiu no chão.
- Estou farto desta merda, meu Furriel... - disse com ar culpado.
Atirou mais uns pontapés, arrumou a máquina e saiu para ir até ao bar.
Faltavam-lhe 18 dias para passar à disponibilidade, mas aquela postura era muito perigosa...
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Mensagem por Anarca em Ter Jan 13, 2009 12:12 pm

Pedro também conhecia um anão, mas não era o do Poço do Bispo, que, por sinal, até morava no Bairro Chinês.
Na aldeia dos avós vivia um anão muito feio a quem chamavam Trambolho. Nem todos os anões são feios, mas este tinha uma cara de mau que o tornava mesmo feio.
A cara estava de acordo com o homem. Era mau como as cobras…
As pessoas nem gostavam de olhar para ele receando receber algum mau olhado.
A avó dizia que quando alguém acordava com um treçolho - inflamação que aparece nas bordas das pálpebra - nunca utilizava a crença popular para a cura, com medo do anão…
A última pessoa que tentara passar o treçolho para o anão utilizando as rezas apropriadas, tivera de ser operada.
O Trambolho era muito vaidoso e fazia questão que o tratassem por senhor, mas com o cão que ele tinha sempre junto dele, muito preto e feio como o dono, qualquer pedido era uma ordem…
Trazia sempre na mão o cabo de uma enchada que tinha fama nas redondezas.
As crianças e os animais nunca estavam seguros. Os cães quando lhe sentiam o cheiro ao longe fugiam dele como do diabo.
O Trambolho fazia o que queria não só por ser o único filho da viúva mais rica daquelas bandas, mas por ter a protecção incondicional do Padre, que diziam ser o pai…
Com o tempo, o cão parecia querer ficar pior que o dono. Ladrava com ódio, esgravatava onde queria e saltava as cercas das casas para destruir as flores dos canteiros. As pessoas atrás das portas e janelas assistiam a tudo cheias de medo do bicho, que espumava pela boca.
Uma dia entrou pela igreja e quase destruíu o altar, deixando a imagem da Nossa Senhora de Fátima sem um braço.
O sacristão apareceu com a caçadeira, mas o Trambolho saiu em defesa do animal, e deu-lhe cá uma paulada na cabeça que por pouco não o matou. O sacristão não morreu, mas nunca mais ficou bom da cabeça…
Quando toda a gente andava desesperada sem saber o que fazer, chegou um circo à aldeia.
Uma das grandes atrações do circo era uma anãzinha engraçada que logo chamou a atenção do Trambolho.
A partir dessa altura, passava os dias a rondar o circo…
A sua paixão era tal, que, a conselho da mãe, acedeu a abandonar o pau que sempre o acompanhava para assumir uma postura mais cativante.
O cão passou a olhá-lo de um modo diferente…
Um dia quando ia levar um ramo de flores à sua amada, o cão ficou como louco…
O Trambolho ficou tão maltratado que toda a aldeia ficou triste com tamanha infelicidade…
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Mensagem por Anarca em Qua Jan 14, 2009 2:37 pm

A oposição à Guerra Colonial ia ganhando cada vez mais adeptos na sociedade Portuguesa. Os Partidos Marxistas radicais lideravam a contestação nas Universidades, e influenciavam os intelectuais e os movimentos de juventude.
Quando soube que a Luísa era militante do MDP/CDE - uma das mais importantes organizações políticas da Oposição Democrática - ficou com medo por ela.
- Não me peças que fique sem fazer nada...
- Por favor... Queres ser La Passionara da linha ?...
- Não digas disparates...
Era a primeira discussão que tinham, mas ele não queria discutir...
- Mas porquê, Luísa ?...
- Quem sabe se a minha ajuda vai contribuir para tu não ires para a maldita guerra...
Ficou sem saber o que dizer...
Gostava tanto de dizer-lhe que pensava que o mundo ficaria muito melhor quando o último político fosse enforcado com as tripas do último advogado, mas não lhe parecia que a ocasião fosse a mais indicada.
- Amor, sabes bem o que penso dos políticos...
- Eu não faço política. Só não quero que partas para longe de mim...
Ficaram abraçados até Luísa adormecer cansada de chorar...
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Mensagem por Anarca em Qui Jan 15, 2009 11:43 am

A fama de que o pai do Matacão era da Pide já vinha dos tempos do liceu, mas quando conseguiu livrar o filho da tropa sem se saber porquê, as dúvidas aumentaram.
A certeza veio quando a Luísa acabou por contar que o Sr. Morais - o pai do Matacão - era sócio dos pais em alguns negócios.
E sabia mesmo toda a história…
O Morais era um desgraçado que depois da quarta classe passou a guardar ovelhas e a trabalhar no campo.
Aos doze anos já estava farto e foi para Lisboa trabalhar como marçano até aos vinte anos quando foi para a tropa.
Foi durante a prestação do serviço Militar no Norte de Angola que conheceu os pais de Luísa e iniciaram uma frutuosa amizade.
Mal regressou meteu os papéis para ingressar na PIDE.
Até realizou provas físicas, e testes psicotécnicos...
Passou em tudo isso...
O que deu mais trabalho aos pais da Luísa foi conseguirem colocá-lo nos serviços administrativos da Alfândega na Rocha de Conde de Óbidos, que era simultâneamente uma Fronteira Marítima.
Só nesse instante é que Pedro compreendeu porque é que o Matacão tinha uma bicicleta toda de alumínio que pesava menos do que a do Joaquim Agostinho, enquanto os colegas só tinham pasteleiras, com travões de alavanca.
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Mensagem por Anarca em Sex Jan 16, 2009 1:42 pm

Mas o Sr. Morais era um trabalhador dedicado.
Não fazia descriminações entre contrabandistas, cumunistas ou simples agitadores, torturando todos com igual competência.
Decorridos apenas alguns anos, deixou de carimbar passaportes e passou a Chefe de alfândega.
As comissões que os pais de Luísa pagavam foram de imediato aumentadas, mas os negócios continuaram a caminhar sobre rodas…
Os caminhos da repressão iam dar à Rua António Maria Cardoso, um lugar de sofrimento e de violência.
Circulavam relatos de pessoas torturadas e maltratadas…
A Pide não era apenas uma polícia para salvaguarda da ordem. Podia fazer o que quisesse não precisando de ordens para torturar.
A tortura era exercida como método para arrancar confissões já previamente definidas, não interessando o que o interrogado tinha ou não feito, mas o que pensava…
Castigavam os corpos para arrancar pensamentos…
O Matacão era um perigo, mesmo ali à porta…
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Mensagem por Anarca em Dom Jan 18, 2009 6:27 am

Nunca soube porque tinha o Matacão ajudado o pai do Testas...
O Sr. Correia estava à secretária já a madrugada ia avançada. Preparava uns textos para um jornal clandestino, quando bateram à porta.
O Testas acordou estremunhado e foi ver quem era...
Eram eles outra vez....
O Sr. Correia já abria a porta quando se lembrou que não tinha escondido o que estava a escrever.
- Faça o favor de nos acompanhar! - dois dos homens vestidos de negro, com chapéus e óculos escuros entraram para revistar a casa, enquanto os outros o levavam.
Durante dias não soube nada do pai, que sofria horas de socos e pontapés intervaladas com queimaduras de cigarro.
O Testas não sabia se ele estava em Caxias ou sequer se ainda era vivo.
O pouco que sabia era pelos outros que já tinham também conhecido as celas do Aljube, de Caxias ou até de Peniche.
Quando voltou para casa, o Sr. Correia nada contou.
Tinha sido despedido e era difícil voltar a conseguir emprego, porque mesmo os melhores amigos tinham medo de ser acusados de dar trabalho a um comunista.
Todas as noites teimava em escrever textos contestatários e sintonizava na telefonia a Rádio Portugal Livre, que portugueses fugidos ao Regime e à Guerra Colonial transmitiam da Argélia.
O Testas pedia-lhe para pôr o volume mais baixo, mas quando soava a Internacional ou o Hino da Batalha, o entusiasmo fazia-o esquecer todos os pedidos do filho.
As visitas à António Maria Cardoso repetiam-se e as pernas sujeitas às repetidas torturas da Estátua que o obrigavam a ficar de pé durante dias, começavam a dar de si.
As varizes rebentavam devido à pressão, deixando feridas nas pernas que eram cada vez mais difíceis de cicatrizar.
Mas, para desespero do Testas, não parava de distribuir jornais e panfletos clandestinos, nem faltava às reuniões com os camaradas.
Um dia a Pide levou-o e nunca mais voltou...
Uma tarde no café, o Matacão deu ao Testas a notícia por que ele tanto esperara...
O pai estava finalmente em paz...
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Mensagem por Anarca em Dom Jan 18, 2009 2:06 pm

Com o Sr. Morais na casa em frente, era conveniente manter uma boa vizinhança...
Pedro tinha a certeza de que a Pide já tinha conhecimento de que a Luísa era militante do MDP/CDE.
Todas as conversas do Sr. Morais pareciam ter o objectivo de levar a Luísa ao bom caminho...
O Matacão bem tentava puxar pelo Pedro...
- Marcelo Caetano orienta-se por uma política de verdade... - dizia o Matacão.
E o Sr. Morais ajudava.
- É verdade. Conduz-se pelo espírito de servir, onde o bem comum é o seu objectivo cimeiro. É bom notar que a política de verdade está no cerne da governação, permitido o clima de respeito e o ambiente de tranquilidade, ordem, paz e confiança no presente e no futuro.
Pedro não conseguia deixar de admirar aquelas tiradas. O Sr. Morais era um desgraçado que depois da quarta classe passou a guardar ovelhas e a trabalhar no campo.
Como lhe devia custar decorar aquelas frases...
- Não achas Pedro ?... - concluía o Matacão.
- Sabes bem que não percebo nada de política...
- Claro que existem alguns espíritos transviados com ideais e interesses contrários à Nação... - o Sr. Morais olhava para Luísa.
E o serão continuava com os chavões habituais.
A política de verdade justificava a censura, que acabava por exercer uma função pedagógica na opinião pública...
O Estado Novo era o responsável pelo ressurgimento nacional e a colonização portuguesa era orientada para o desenvolvimento dos territórios e promoção de todas as raças.
Pedro reparava que cada afirmação parecia esperar uma reacção de Luísa, que ia folheando uma revista com aparente pouco interesse pela conversa.
- Pois é Pedro... Deus queira que não... Mas se fores para o Ultramar, vais ver que são as missões protestantes, os americanos e os grupos políticos ligados à URSS, que alimentam o terrorismo. - continuava o Sr. Morais.
Nessas noites Luísa tinha sempre pesadelos terríveis...
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Mensagem por Anarca em Seg Jan 19, 2009 2:02 pm

Luísa sonhava que estava no cais com todas as mulheres dos homens que tinham ido para a guerra.
Do barco vinham descendo numa fila interminável, soldados com os camuflados sujos e rasgados. Muitos vinham feridos com as ligaduras manchadas de vermelho.
O barco parecia um imenso formigueiro que se escoava pela escada de portaló e inundava o cais.
Não havia maneira de Pedro sair…
Nos varandins da gare, mulheres vestidas de negro esperavam pelos maridos que regressavam em caixões.
Algumas aguardavam apenas por notícias que nunca eram suficientes.
Sentia-se um cheiro de sangue no ar.
Filhos pequenos agarravam as saias das mães, confusos, sem entender o que se passava.
Ninguém sabia como aquilo tinha começado. Quando deram por isso já todo o país estava envolvido.
As esposas e as mães tanto pediam a protecção de Deus, como duvidavam da existência divina.
E o Pedro continuava sem sair…
Os agentes funerários, vestidos de preto, faziam grupos no cais. Quando um caixão saía do porão, corriam para os parentes a oferecer os serviços.
Um rabo peludo e negro saía-lhes debaixo dos casacos compridos.
De repente, um com chifres e de olhos vermelhos avançou para Luísa…
Felizmente Pedro conseguira acordá-la antes que as garras a atingissem.
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Mensagem por Anarca em Qua Jan 21, 2009 3:25 am

O Sr. Morais estava casado com uma mulher que não o amava, nem o tinha algum dia amado.
Tinha uma boa situação financeira e comprava-lhe vestidos de luxo e jóias que as amigas invejavam.
O casamento tinha sido arranjado pelos pais da Luísa , que ajudaram a resolver o problema de uma menina má de uma família boa…
O Sr. Morais era dedicado ao governo, e não deixava que a mulher se intrometesse, com pedidos de amigos que não compartilhavam os ideais Nacionais...
Não tinha muitas amizades, sendo a maioria por interesse ou por medo.
Para ele, a mulher havia nascido para servir o homem, e quando acabou por compreender que aquelas ideias não se podiam aplicar a uma mulher que sempre tinha sido mimada por uns pais ricos, e que apenas queria da vida amor, já era tarde demais…
A monotonia a que o Sr. Morais a condenava era um pesadelo. Quando precisava de alguma coisa, os empregados iam à rua comprar…
As compras dos objectos pessoais eram feitas pelo marido, que quando duvidava do seus gostos adquiridos nos montes com o gado, mandava os vendedores a casa para ela escolher.
Os vestidos eram mandados fazer fora, mas a modista vinha a casa tirar as medidas, com as amostras dos tecidos…
A lida da casa era feita pelos empregados.
Conforme o Sr. Morais foi progredindo na carreira, as exigências sociais iam aumentando, e passaram a frequentar teatros e festas com finalidades políticas.
Quando desfilavam, ele exibia a beleza da mulher, provocando a inveja naqueles vaidosos que continuavam a chamar-lhe boçal.
Pisava os salões com um olhar duro, orgulhoso, de cabeça bem erguida que prontamente se inclinava perante um superior…
Sentia-se ainda mais importante quando aparecia em qualquer recorte de jornal ou revista.
A mulher recebia os beijos repugnada, sem poder fugir ou alegar desculpas, porque ele tinha um temperamento terrível.
O Sr. Morais na cama tinha um comportamento muito diferente do dia a dia. Não era aquele homem taciturno e controlado, mas um selvagem sedento de desejos que amava como um louco.
Satisfazia por vezes a mulher, que, carente de amor e carinho, sabia que aqueles momentos não eram de amor nem carinho, mas apenas de desejo.
Ela não se culpava por aqueles momentos com o marido, que a faziam sentir-se uma mulher desejada.
Não compreendia como ele podia ser tão frio no dia a dia e tão apaixonado na cama, quando mergulhava naqueles seios, esfomeado, e a fazia gemer de dor e prazer.
Com o tempo, o desejo na cama esgotou-se também...
Quando o Matacão nasceu, o Sr. Morais acalmou um pouco, dedicando-se com especial cuidado à educação do filho que queria moldar à sua semelhança...
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Mensagem por Anarca em Qua Jan 21, 2009 12:00 pm

V - A Guerra

Para um Atirador, a Especialidade devia ser de maneira a preparar para o que se ia encontrar no Ultramar, de acordo com o princípio de que um treino difícil resultava numa guerra fácil.
Durante a recruta aprendera a nomenclatura e o funcionamento das armas, a orgânica e a rotina militares, mas agora a incidência dos treinos consistia em aprender a fazer emboscadas, a montar e desmontar minas e armadilhas, e como matar ou pelo menos a não ser morto.
Alguns veteranos não deixavam de avisar que nada, absolutamente nada nem ninguém os podia preparar para uma guerra que, afinal, parecia ser a razão da presença deles ali.
Os que gostavam de dizer que nos podiam vencer o corpo mas nunca o espírito, ainda não tinham caído exaustos na lama, onde se deixa o espírito para continuar em frente.
Manuel não conseguia fugir ao sistema que o estava a transformar num autómato que só acreditava no clarim…
Recordava que Pedro lhe dissera que os queriam encher de ódio para no momento certo, este se virar contra o inimigo, mas já nem sabia onde estava o inimigo.
O dia tinha sido passado a correr de G-3 às costas, com um calor terrível que se transformava num frio de gelar durante a noite. A distância do mar provocava uma grande amplitude de temperatura.
Tinha as mãos gretadas do frio e doridas, mas o pior era a dor de garganta...
Mas que importância tinha isso, comparado com o que acontecera ao 324 do 2º Pelotão. O desgraçado tinha caído por um penhasco abaixo e partido um braço e duas costelas. Perdeu a Especialidade e ficou com um Auto em cima, por ter partido a coronha da espingarda.
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Mensagem por Anarca em Qui Jan 22, 2009 11:47 am

Quando terminou a Especialidade recebeu a ordem de Mobilização e, logo depois, a Guia de Marcha para a Unidade onde se juntaram os restantes militares, vindos dos diversos Centros de Instrução.
Os acontecimentos sucediam-se a um ritmo alucinante, como se pretendessem que não houvesse tempo para pensar.
Parecia viver um pesadelo. Num ápice a Unidade estava formada e tinha sido realizada a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional - com os conselhos sobre o que fazer em África para sobreviver.


A habitual licença, antes do embarque, para a ida a casa tinha provocado a falta de uns tantos, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital, sabe Deus porquê…
Depois de receber as vacinas e o camuflado veio a ordem de embarque.
Toda a companhia formou na parada, em frente às casernas. Foram dadas as últimas recomendações e entregues aos cabos e aspirantes milicianos as divisas correspondentes à subida de posto.


O cais era pequeno para tanta gente e as famílias apinhavam-se nas varandas da gare marítima com lenços a acenar, cartazes com o nome do ente querido, e lágrimas de despedida…
Acotovelavam-se no desespero de conquistar um espaço mais à frente, que lhes permitisse descortinar o rosto conhecido no meio do verde que enxameava o navio.
O barco estava terrivelmente inclinado para o lado direito, parecendo ir cair a qualquer momento em cima do cais.
Por volta do meio-dia, o Vera Cruz recolhera as escadas e os cabos. Com a sirene a apitar, o navio afastou-se lentamente, com a proa virada para a foz do Tejo, passando por debaixo da Ponte e diante da Torre de Belém.
Ficou na amurada até deixar de descortinar a Serra de Sintra…
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Mensagem por Anarca em Qui Jan 22, 2009 2:22 pm

Quando o mar estava calmo, as refeições no convés quase pareciam um piquenique, mas em dias de tempestade era complicado.
Os respingos do mar salgavam a comida e os faxinas desequilibravam-se com o balanço, entornando a comida para onde calhava.
Os restos no chão provocavam mais escorregadelas e o pandemónio acabava por vencer o apetite dos mais resistentes ao enjoo.
A meio da viagem realizaram-se os exercícios de salvamento a bordo, e todos enfiavam o colete salva-vidas e se dirigiam à baleeira que lhes estava indicada em caso de naufrágio.
Ao passar o Equador, o Alferes prometeu três dias de Licença ao primeiro que visse a linha no Mar...
Não faltaram candidatos ao prémio, os quais acabaram por ser quem mais sofreram na cerimónia da passagem para o hemisfério Sul.

Os contornos difusos de Luanda começaram a surgir com a primeira alvorada Angolana. O navio, que ainda de noite lançara âncoras ao largo, estava finalmente quieto, depois de tantos dias de mar alto. Manuel olhava ansioso a cidade, tentando distinguir uma certa África que não conhecia.
O calor tinha vindo a acentuar-se, à medida em que o barco avançava para sul, e era agora muito intenso.
Sentia um aperto na garganta por saber que para lá do horizonte, a guerra era uma realidade que o aguardava.
Quando o Vera Cruz se aproximou do cais, os estivadores negros pararam de trabalhar e prepararam-se para negociar com os recém chegados.
Na amurada, a 1ª Companhia de Caçadores, já estava ao ataque...
- É só barrotes queimados...
- Eh pá !... Hoje vou dormir com a tua mulher. - avisava o Alfama.
- E a tua filha também vai ficar servida ... - ameaçava o Melro.
Os negros olhavam, sorriam e falavam entre eles num dialecto que ninguém entendia.
- Está bem ?... - gritava o Alfama. - Ai de ti que não esteja lavadinha...
- Ou que cheire a catinga... - reforçava o Melro.
- Se não ficar satisfeito alinhas tu também, por isso vê lá se não queres ficar com o cu a arder...
Toda a Companhia ria com gosto, e os negros no cais também...
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Mensagem por Anarca em Sex Jan 23, 2009 11:17 am

O Melro não tinha ganho a alcunha por ter alguma coisa a ver com o melro-preto, uma das aves mais comuns de Trás-os-Montes. As únicas coincidências eram a cor escura que apresentava quando chegou ao quartel e a sua origem Transmontana...
Tinha passado a vida nos montes com o gado, não sendo atreito a muita higiene.
Em poucos dias a camarata estava em pé de guerra. Não se podia estar ao pé do Melro...
Quando o mandavam tomar banho, fechava a porta do chuveiro e ficava colado à parede a ver a água a correr, enquanto no exterior os camaradas cheios de esperança o iam animando...
- Está boa?... - perguntava o Alfama.
- Está!... - respondia lá de dentro o Melro sem tocar na água.
Os ânimos e o ambiente iam-se degradando dia após dia, ou melhor, noite após noite - quando o cheiro invadia toda a caserna.
As queixas foram subindo pelas patentes acima, até que chegaram ao Comandante de Esquadrão, que deu logo instruções muito precisas aos Prontos, para a resolução do problema.
Uma manhã, logo depois do toque de despertar, quatro Prontos agarraram no Melro e levaram-no para debaixo do chuveiro já aberto no máximo.
O Melro quando percebeu o que o esperava, ficou como louco, a vociferar e a espernear, já que os braços estavam bem agarrados...
Quando compreendeu que não tinha fuga possível, passou a implorar, mas os Prontos nem o queriam ouvir. Ao entrar em contacto com a água, o Melro começou a deitar espuma pela boca, mas os Prontos tinham ordens...
Pelo menos morria lavadinho...
O Melro acabou por desmaiar durante o banho.
Para os Prontos foi um descanso. Mesmo assim, era mais fácil lavar um corpo morto do que um furioso...
Finalmente levaram-no para a enfermaria onde acabou por ser reanimado.
O Melro, mesmo depois de lavado continuava muito escuro...
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Mensagem por Anarca em Sab Jan 24, 2009 12:13 pm

Carregados os camiões e distribuído o pessoal, iniciaram a viagem em direcção ao Grafanil - Aquartelamento em que estacionavam as tropas de passagem por Luanda, situado ao norte da cidade.
Manuel observava o chão de um vermelho vivo, que contrastava com uma vegetação de um verde brilhante exuberante.
Os negros pareciam-lhe todos iguais, e não conseguiu distingui-los uns dos outros até chegar ao Grafanil.
As camaratas eram grandes edifícios de secção rectangular, com as camas distribuídas em longas filas, onde cabia uma Companhia completa.
Depois do duche, Manuel não resistiu a ir até Luanda com os outros Furriéis do Grupo de Combate, para uma mariscada na ilha de Luanda, tendo optado pelo Restaurante Restinga.
Enquanto despachavam uma açorda de marisco com vinho verde, Manuel não acreditava que a guerra era assim...

O grupo de combate de Manuel tinha como destino o Aquartelamento do Alto Zaza.
Durante vários meses teria como companhia os abrigos escavados no chão, o morteiro de grande calibre e um canhão sem recuo montado num tripé.
Para além da vedação rectilínea de arame farpado, que impedia a entrada e dava alguma protecção, estendia-se uma vasta clareira rectangular, a imitar um campo de futebol.
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Mensagem por Anarca em Dom Jan 25, 2009 12:44 pm

Avançavam cuidadosamente na picada, quando numa curva caíram na emboscada.
Os tiros ecoavam mas, como não se via ninguém, todos disparavam às cegas para o sítio donde pareciam vir os disparos.
Todos procuravam um abrigo, e Manuel atirou-se logo para trás de um morro de salalé - construídos pelas formigas salalé, estes morros têm grande consistência, resistindo mesmo a granadas de bazooka.
De repente sentiu terríveis picadas.
As formigas atacavam , penetravam por baixo do camuflado e trepavam pelas pernas acima com ferroadas tão fortes que esqueceu os turras.
Espetavam de tal modo as mandíbulas na carne, que as deixavam ficar juntamente com a cabeça cravadas no corpo, quando eram arrancadas.
Os tiros iam diminuindo enquanto Manuel se despia o mais depressa possível, aos saltos e a gritar.
Quando ficou nu, os tiros tinham acabado e as gargalhadas ecoavam na selva. Até os sacanas dos turras riam e batiam palmas...
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Mensagem por Anarca em Ter Jan 27, 2009 4:40 am

O Capelão era para Manuel uma referência. Apesar da instrução militar básica, o jovem padre, acabado de ordenar, acompanhava-os muitas vezes e visitava amiúde os diversos destacamentos, mesmo os mais isolados.
O Capelão que tinha a guerra por cenário e o sofrimento como palco, era um padre de qualidades humanas excepcionais, sendo aparentemente o homem mais alegre e tranquilo de todo o batalhão.
Estava muito longe da imagem dos missionários dos descobrimentos, com a cruz numa mão e a espada na outra...
Não usava arma, nem mesmo a pistola regulamentar, o que colidia com a vontade de acompanhar a tropa em todas as circunstâncias, insistindo que o seu lugar era junto dos soldados, mesmo em operações na mata.
Para Manuel, o Capelão não era um Padre, mas sim um homem...
E “Miss Quick” provou que ele tinha razão.
Vivia na povoação mais próxima um comerciante, que tinha uma loja com bar e uma filha tão apetitosa que o pessoal andava sempre a rondar pelas redondezas.
Os namoricos com alguns alferes e furriéis que iam passando por lá não tinham resultado - dizia-se que ainda continuava solteira por falta de empenhamento da parte dela.
Mas se não se empenhava nas relações, pelo menos era muito carente de afecto, e, um dia, na falta de um elemento masculino, utilizou uma garrafa de Quick em substituição de um vibrador -modernice que a loja do pai não vendia.
A incorrecta utilização da garrafa e uma precipitada decisão, levou-a a recorrer de urgência ao serviço do médico de uma Companhia que passava pela povoação.
A Companhia passou, mas a vergonha não.
O Capelão já estava saturado de ouvir tantas versões do acontecimento, quando se cruzou por acaso com a “Miss Quick” que não conhecia.
Um dia, partiram os dois ninguém sabe para onde...
O Capelão não podia ser Padre e homem ao mesmo tempo...
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Mensagem por Anarca em Ter Jan 27, 2009 9:52 am

O Cabo Enfermeiro a quem chamavam Matador, estava quase a regressar à Metrópole, se conseguisse ultrapassar os vários Autos que lhe tinham sido levantados, por alegados maus tratos às populações.
As constipações, as infecções externas, as indisposições digestivas e até o paludismo, para ele não eram problema.
Mesmo quando não detectava qualquer sintoma visível, aviava Aspirina, porque como ele dizia, se não fizessem bem, mal também não faziam...
As famosas aspirinas eram disponibilizadas pela tropa e por grosso em grandes frascos de vidro.
O intérprete já sabia explicar a posologia:
- Quando acorda toma um comprimido, quando o sol estiver em cima toma mais um, e ao deitar outro. Se não tomassem o comprimido à hora certa a doença não saía.
- Ena pá, como isto está… - observava o Matador.
O negro tinha a perna muito maltratada devido a uma queda antiga, mas a Consulta da Psique só agora passara na Sanzala.
O Cabo Enfermeiro tinha muitos nesse dia para atender e ainda queria dar um salto à cubata daquela mulata que conhecera…
- Dá aí um “cura tudo” a este gajo. - pediu ao ajudante, mais conhecido por Carniceiro, que dizia ser cirurgião, expulso pela Ordem por motivos políticos.
O negro ficou a olhar para as Vitaminas C, sem se atrever a duvidar do remédio, e lá seguiu a coxear com os comprimidos na mão.
- Isso é para comer … mas tira a casca primeiro. - gritou o Carniceiro.
Nesse dia só apareciam casos complicados. O preto seguinte tinha um enorme furúnculo nas costas.
O desgraçado estava cheio de sorte…
Era uma das especialidades do Carniceiro, que efectuava as extracções com a faca de mato, e se gabava de ser um verdadeiro mestre neste particular, reforçando a verdade de tal capacidade, com o facto de nunca ter conseguido matar nenhum durante as operações.
Com o negro de gatas, sentou-se em cima dele, na zona dos rins, aproveitando as pernas para o prender bem pelos quadris.
- Isto é quase um bloco operatório… - dizia muito sério enquanto mergulhava a lâmina no frasco de álcool. - Eu sempre fui um grande profissional… - comentou para o Matador que observava divertido.
Deitou também um pouco de desinfectante sobre a zona a tratar.
- Não vale a pena abusar… - chamou-lhe à atenção o Matador.
- Temos de procurar a perfeição… - justificou-se.
O Matador agarrou na cabeça do negro quando viu o Carniceiro apontar o bico da faca. O infeliz, ao sentir a lâmina perfurar, gritava como louco, tentando libertar-se sem o conseguir…
Depois de estripado o furúnculo, ficou bem visível um buraco inundado de sangue, na omoplata esquerda.
- Já está… - disse o Carniceiro com um longo suspiro
- Não desinfectas ?… - lembrou o Matador.
- Lá por isso…
Pegava no frasco de álcool quando o negro se conseguiu libertar e fugiu como louco para o mato.
- Estes gajos não merecem nada… - desabafava o Carniceiro.
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Mensagem por Anarca em Ter Jan 27, 2009 12:48 pm

O Cabo enfermeiro Matador, desde muito cedo começou a revelar as suas aptidões para a medicina.
O miúdo era tão hiperactivo, que os pais recearam ter mais filhos, receando alguma desgraça, ou que o próximo saísse semelhante.
Mas o Matador também era mau, malcriado para toda a gente, calão, e conseguira em tempo recorde dominar a arte de chantagem, que aplicava com mestria e deleite...
Manipulava os pais e não tinha respeito por ninguém.
Com apenas nove anos, já conseguia ser uma pessoa desprezível.
Os professores não conseguiam perdoar a Deus por a natureza o ter dotado de uma inteligência e de um raciocínio tão rápidos, que provocava inveja a toda a gente.
O Matador era tão esperto como intratável, não demonstrando qualquer afectividade por alguém.
Os bichos tinham vindo ao mundo para ele os maltratar...
Pelo seu improvisado laboratório, passavam pássaros, galinhas, gatos, lagartixas, e toda a bicharada que pudesse servir para pesquisa ou diversão.
Durante umas férias grandes, os pais começaram a estranhar as longas permanências na casinhota que ele exigira para si ao fundo do quintal...
Uma tarde, quando o Matador se fechou no laboratório, o pai, receando alguma desgraça anunciada, foi espreitar o que ele andava a fazer.
Rodeado de frascos de vidro repletos de bicharada, o Matador ia escolhendo os insectos a tratar...
As intervenções cirúrgicas iam deixando as moscas sem asas, as baratas sem pernas, e as lagartixas sem rabo.
Mas só estava a aquecer para as intervenções mais importantes...
Depois de prender à mesa, com alfinetes, o grilo que tinha tirado da pequena gaiola de plástico que o vizinho tinha pendurada na parede, ficou a olhar indeciso para as lâminas da barba e para as agulhas do croché...
Perante a repulsa do pai, lá foi retalhando o pobre bicho ainda vivo.
Os movimentos convulsivos do grilo deliciavam-no...
Quando se preparava para operar uma aranha, o pai não conseguiu suportar mais e entrou desvairado, esquecendo o medo que tinha daquele miúdo...
Nas prateleiras improvisadas viam-se seringas com agulhas de várias espessuras, giletes e facas que serviam de bisturi, agulhas de todos os tamanhos, pilhas eléctricas que eram utilizadas para dar choques, alicates de unhas para amputação de membros, e vários tubinhos coloridos com produtos diversos.
Ratos, rãs, cobras, cabeças de galinha e uma pata de cão estavam num frasco repleto de álcool...
O cheiro era insuportável...
A partir desse dia, o Matador foi ficando ainda mais distante de todos, irascível e amargurado.
Quando o pai soube que ele ia seguir enfermagem, teve uma síncope.
- Não aguentou tanta alegria... - dizia o Matador quando alguém referia aquela coincidência...
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Mensagem por Anarca em Qua Jan 28, 2009 12:56 pm

O Matador, mal acabou de despachar a última vitima do dia, delegou no Carniceiro o resto da Assistência Psico e foi procurar a desejada mulata.
Meio escondido pela paliçada do quintal, o Matador chamava em voz baixa pela Joaninha.
Quando ela apareceu vestida de vermelho e saia muito curtinha, fez-lhe sinal para que ele se calasse enquanto se ia aproximando…
Escostou-se à paliçada do lado de dentro e levantou os olhos para ele com ar interrogador.
O Matador meteu-lhe os dedos no cabelo todo aos caracóis, e espreitou-lhe os seios firmes e nus debaixo do vestido.
- Salta !… - convidou ele com voz meiga.
Começava a escurecer e o Matador pegou-lhe pelos braços para a ajudar a saltar.
- Não me agarre… - dizia-lhe a Joaninha, sem fugir.
- És tão linda… - e apertava-a de encontro a ele.
As únicas saudades que ia ter daquela terra seriam destes momentos…
- Não me agarre. Deixe-me… - e encostava-se a ele cada vez mais.
Quando o Matador lhe procurou a boca, enlaçou-o e fechou os olhos.
Sonhava com o Toninho, o filho do patrão…
Ao sentir-lhe as mãos nas coxas, sob o vestido, apertou muito as pernas e deu-lhe um leve empurrão.
- Não…
Mas não se podia libertar dos braços do Matador que pareciam garras nas suas costas.
As bocas continuavam juntas…
- Deixe-me… - e aninhava-se nos braços dele.
Joaninha deitou o busto para trás, dobrada pelos rins sobre os braços dele. De olhos semicerrados e narinas dilatadas oferecia-lhe os lábios grossos.
Deitou-a no capim enquanto lhe tirava o vestido.
Ao senti-la nua, beijou-lhe os seios redondos e duros e percorreu-lhe o corpo com as mãos a tremer…
- Não me faz mal… - pediu-lhe Joaninha num murmurio enquanto o beijava na boca e nos olhos.
- Amor…
As saudades que iria ter daquela maldita terra…
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Mensagem por Anarca em Qui Jan 29, 2009 12:41 pm

A Joaninha começara a vida logo aos treze anos. Trabalhava como doméstica na casa do Sr. José, o comerciante branco que vivia sozinho com um filho mulato - o Toninho.
O Sr. José era velho mas malandro, e começou logo nos primeiros dias a roçar-se por ela quando se cruzavam no corredor estreito da casa. A Joaninha nada dizia, não só pelo dinheirinho que recebia no fim do mês, mas principalmente por causa do Toninho. Era um mulato alto e musculoso que ela tinha decidido apanhar. Ainda por cima o negócio passaria para ele…
Um dia muito quente, em que pensava estar sozinha em casa e preparava o almoço, tendo vestida apenas uma combinação muito leve, o Sr. José apareceu de repente e, sem dizer nada, tapou-lhe a boca com uma mão, enquanto a fazia dobrar-se em cima da mesa e lhe punha as nádegas à mostra. A dor invandiu-a quando foi penetrada. O fogo do fogão a lenha lançava um fumo que lhe faziam arder os olhos. A dor tinha diminuído e Joana começava a sentir um estranho prazer, quando ele acabou de repente e saiu porta fora, sem uma palavra.
Ficou assustada por causa do Toninho, mas, ao jantar, já tinha esquecido tudo.
A partir desse dia passou a ser mais atrevida com o filho do patrão, mas ele parecia não entender como a Joaninha o desejava.
Uma tarde, o Sr. José parecendo adivinhar-lhe o desassossego, puxou-a para a cozinha, sem grande resistência.
- Tiveste saudades minhas, não tiveste?... - perguntava-lhe o velho com ar convencido.
Ele bem sabia que as mulatas tinham o sangue quente. A mãe do Toninho era negra. Tinha trabalhado na terra e na casa, ajudando na loja quando era preciso. As negras eram as melhores mulheres para ter em casa, muito diferentes das mulatas que queriam logo comer com garfo e faca à mesa dos brancos.
Depois da morte da mãe do Toninho, tinha amigado com uma mulata tão sabida na cama, que conseguiu ficar lá por casa durante muito tempo. Passava a vida a comer guloseimas e a perfumar-se toda.
Quem sabe se ainda lá estaria, se ele fosse mais novo...
Joaninha não resistiu, e ele foi quase carinhoso. Não doía como da primeira vez, e ela abriu bem as pernas para facilitar.
Quando acabou, o velho passou-lhe a mão pelo rosto e com um sorriso matreiro deixou dez angolares em cima da mesa.
O Sr. José já tinha idade suficiente para saber que o amor pago era o mais barato...
Joaninha que até tinha gostado, ficou deslumbrada com o presente.
A partir daí, com a regularidade que a idade avançada do Sr. José ia permitindo, a Joaninha lá ia gastando aquele dinheirinho extra em roupas e adornos. Vaidosa, estava cada dia mais bonita e apetitosa.
Quando começava a desesperar com o pouco apetite sexual do Sr. José, o Toninho começou dar-lhe mais atenção.
Um dia, aproveitou a limpeza do quarto para ficarem a sós. Quase desfaleceu quando ele a braçou, sem querer acreditar que tinha finalmente nos braços, o filho do patrão.
O Toninho era mais bem servido que o pai, mas em vez de dor, Joaninha sentiu um prazer tão intenso que a deixou quase desfalecida, mas feliz.

A vida de Joaninha ia decorrendo entre os momentos de prazer com Toninho e a cobrança dos dez angolares ao Sr. José.
Quando o filho do patrão falava em casamento, a Joaninha logo o fazia jurar que não iria dizer nada, até o pai lhe passar o negócio, mas uma noite, Toninho não conseguiu suportar mais aquele segredo e confessou ao pai que queria casar com a Joaninha.
- Um filho meu só casa com mulher virgem !... - berrava o pai perante o espanto do Toninho que olhava para Joaninha com ar de interrogação.
- Eu não sabia nada... - dizia a Joaninha.
- Já disse que o meu filho não casa com mulher furada, quanto mais com uma fruta! - continuava o velho.
O Toninho acabou por saber tudo.
Nessa mesma noite, Joaninha vestiu a sua melhor roupa e o melhor sapato. Caprichou no baton vermelho, e foi passear para a povoação.
Havia já uns tempos que Joaninha magicava que os dez angolares só duas vezes por semana não eram suficientes para o que ela queria da vida.
Foi o destino que lhe meteu no caminho o negro Domingos, Pastor da Igreja Metodista, que ficou embeiçado por ela logo ao primeiro olhar.
Quando ficaram noivos, Joaninha teria ficado mesmo feliz, se o noivo não tivesse aquela mania maluca de só querer ter sexo depois do casamento.
Enquanto não arranjavam casa, a Joaninha continuava em casa do Sr. José e fazia o Toninho pagar o mesmo que o pai.
Tudo podia ter acabado em bem se o Cabo Matador não a tivesse visto..
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Mensagem por Anarca em Sex Jan 30, 2009 8:39 am

Os GE - Grupos Especiais - eram pequenas formações compostas por indígenas particularmente adaptados à guerra, que, pelo conhecimento que tinham do meio, foram ganhando grande importância com o arrastamento do conflito, substituindo nas missões de reconhecimento e combate, as cada vez mais mal preparadas e menos motivadas forças metropolitanas.
O controlo das armas e munições indicava números diferentes daqueles que constavam nos registos.
O chefe Moisés dizia que devia ser engano.
- Qual engano, qual quê !... - retorquia Manuel - As munições não são para caçar... - continuava enquanto repunha o stock perante a alegria do Chefe Moisés.
Não podia dar a entender que pensava que eles também tinham direito a comer carne.
No dia seguinte o Chefe Moisés veio trazer-lhe em segredo, uma oferta muito importante - uma planta afrodisíaca.
- É só para o meu furriel... - e estendia-lhe um pequeno embrulho sem querer dar nas vistas.
Manuel bem via os negros idosos com várias mulheres e muitos filhos pequenos, só que não sabia de quem eram os filhos, e por isso aquela história das plantas não o convencia.
Ficou a pensar se o Chefe Moisés não andaria a comer carne a mais...

O Chefe Moisés nunca deixava fugir a oportunidade de informar que tinha combatido juntamente com o grande Lopes Cabanda.
Não tinham conta as vezes que já tinha contado a história da última missão do Cabanda, que ele, é claro, tinha testemunhado.
Lopes Cabanda era um português negro, nascido nas bandas de Lifune-Tári. Os bandoleiros tudo fizeram para o aliciar mas nada conseguiram. Acabaram mesmo por raptar o pai do Cabanda, ao qual infligiram, durante meses, torturas de toda a espécie.
Finalmente meteram a cabeça de Lopes Cabanda a prémio, sem evitar que ele continuasse a servir de guia das tropas, naquela região que tão bem conhecia.
Envergava um camuflado e levava nas mãos uma arma que lhe tinha sido atribuída como reconhecimento da sua lealdade e valentia.
Estava sempre pronto a qualquer hora…
A Região Militar de Angola concedeu-lhe um louvor onde se lia que “a Pátria lhe era grata por seus serviços”, e numa viagem à Metrópole, foi recebido pelo Chefe do Estado.
Voltou para a sua missão, que a morte iria interromper.
Era uma manhã fria e húmida, tal como são as manhãs cacimbosas do norte angolano. Cabanda, com a Mauser a tiracolo, e a catana na mão direita, ia abrindo o caminho por onde a tropa em fila indiana passaria a seguir.
De repente Cabanda estacou.
- Um vigia… - disse. -Vamos caçá-lo!
O Chefe Moisés ouviu Cabanda dizer:
- Os tiros saíram daquela árvore! - e apontava uma árvore a cerca de 100 metros.
O bandoleiro já descia do seu posto de observação para se pôr em fuga, mas não teve sorte. As rajadas que se seguiram fizeram-no tombar no capim molhado.
A missão tinha por fim a destruição do quartel terrorista, mas os tiros poderiam ter alertado os bandoleiros…
Cabanda era de opinião que o quartel deveria ficar a mais de três horas de caminho, pelo que os turras não teriam ouvido os tiros.
Devia ser quase meio-dia quando chegaram ao ponto culminante da fatídica missão...
No quartel inimigo detectava-se vida, que se traduzia nas vozes dispersas e entrecortadas que eram trazidas pelo sussurro do vento.
De armas aperradas, avançaram cautelosamente em semi-círculo para o respectivo envolvimento. Já estavam tão perto que eram bem visíveis os tectos das cubatas.
De repente, da sanzala abriram fogo…
O Lopes Cabanda tombou na relva verde e orvalhada.
A mulher e os dois filhos, em Lifune-Tári iriam chorar por ele.
O Chefe Moisés não deixaria a sua memória extingir-se.
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QUADROS ANTIGOS.... - Página 6 Empty Re: QUADROS ANTIGOS....

Mensagem por Anarca em Sex Jan 30, 2009 11:15 am

O Aquartelamento tinha sido atacado e Manuel não conseguia voltar a adormecer. Os turras, quando passavam durante a noite perto do campo, aproveitavam para deixar o cartão de visita através de um ataque de morteiros, que atirava com toda a gente para os abrigos.
Acabou por regressar para o quarto com quatro camas que partilhava com os outros Furriéis, sem se importar com a eventualidade de mais ataques.
Não sabia bem se acreditava que não seriam feitos mais ataques como era norma, ou se já não dava tanto valor à vida.
Por vezes pensava que alguns daquele Grupo de Combate já não estavam realmente vivos, mas esperavam apenas a ordem para serem enterrados, tal a facilidade com que se podia morrer ali.
Em regra, quem se lixava na guerra eram sempre os milicianos, que tinham de combater os turras e refrear as ideias brilhantes dos militares de carreira, como, por exemplo, aquela do comandante de batalhão que raramente se deslocava sem ser de avião ou de helicóptero, e que distribuiu um lenço especial de seda a imitar a pele de um tigre, que ninguém usava.
Devia ser uma maravilha para os terroristas, em qualquer lado, identificarem os Tigres de Sanza - nome por que era conhecido o batalhão.
Era uma guerra estranha…
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Mensagem por Anarca em Sex Jan 30, 2009 3:13 pm

Protegido pela escuridão da noite, o negro Domingos, com uma arma na mão, permanecia escondido atrás de uma Mulemba . Esperava que o Matador saísse da cubata onde estava com a Joaninha.
Domingos esperava havia semanas por esta oportunidade, passando os dias sob tensão e noites em claro.
Só vivia para matar o Cabo Enfermeiro Matador.
Quando o Matador finalmente saiu, Domingos apontou com firmeza a sua Mauser, mas não conseguiu puxar o gatilho.
Tinha que ser capaz de perdoar...
Domingos vivia com os pais numa casa muito pobre nos arredores de Sanza Pombo. Começara aos 12 anos a trabalhar na Igreja Metodista a tempo inteiro. Desde o início revelou uma grande dedicação. Logo de manhã abria o templo e varria o chão. Em poucos meses Domingos tornou-se Pastor.
Prometia o fim do sofrimento e ouvia os paroquianos depois dos cultos. O que menos gostava era de receber dinheiro das pessoas pobres, que faziam questão em dar dinheiro para a igreja.
Mas a Igreja tinha despesas...
Durante os cultos, Domingos pregava contra a maldade dos homens que eram a causa do sofrimento no Mundo.
O Cabo Enfermeiro Matador do exército português era uma figura bem conhecida de Domingos, pelas queixas que os paroquianos lhe faziam...
Pedia-lhes para perdoarem...
A Joaninha, sua noiva, bem lhe dizia que o Matador era mesmo ruim...
- É preciso perdoar... - repetia.
Quando soube que o Matador lhe tinha roubado a Joaninha, não pensou em perdoar...

O Pastor Domingos nunca mais descansara, depois de um amigo ter o prazer de lhe contar o caso da Joaninha com o Cabo Matador.
Os pesadelos vinham todas as noites. Tudo começava numa imensa escuridão, que saía do chão como uma neblina. O ar ficava infectado com um nauseabundo cheiro a morte.
Não conseguia descortinar o chão que pisava, mas sentia debaixo dos pés o corpo despedaçado do Cabo Matador. Ouvia perfeitamente os ossos a estalar quando lhes passava por cima.
Nunca tinha pensado que os pesadelos podiam ser maravilhosos.
Daí a poucos dias as visões apareciam-lhe a toda a hora.
- É preciso perdoar... - repetia sem parar durante as orações.
Como num filme, as imagens desfilavam em frente dos olhos, sobrepondo-se à cruz pendurada na parede da escola onde tinha ido pregar.
Os corpos humanos estendiam-se por todo o lado em adiantado estado de decomposição, ensaguentados e pendurados em grandes ganchos de talho. Muitos estavam violentamente mutilados e outros apresentavam sinais de horríveis torturas.
Procurava entre os cadáveres o corpo do Cabo Matador, mas não conseguia encontrá-lo. A fúria de Domingos ia aumentando como uma onda prestes a rebentar...
- É preciso perdoar... - repetia para afastar as visões.
Não deixava de ver homens a lutar e explosões ensurdecedoras que inundavam as casas de chamas, e espalhavam destroços misturados com pedaços humanos por todos os lados.
A dor era insuportável. Em cima de um monte de caveiras, a Morte ria sem parar, com a boca bem aberta por onde entravam os moribundos a chorar...

Sem saber bem como, Domingos deu por si, uma noite, escondido atrás de uma Mulemba, com uma arma na mão.
Esperava que o Matador saísse da cubata onde estava com a Joaninha.
Para conseguir a arma, Domingos tinha jurado ao chefe guerrilheiro que podia contar com ele para combater pela liberdade.
Os últimos dias tinham sido terríveis.
Acordava constantemente, transpirado e com corpo dolorido e cansado. As imagens macabras não deixavam de lhe povoar os sonhos. Mesmo sentado na cama, com o corpo a tremer e as roupas coladas do suor, as imagens não paravam.
Se o dia para o encontro com o Cabo Matador não estivesse marcado, não conseguiria lembrar-se quantas noites passara em sofrimento, à espera do amanhecer.
Escondido atrás da Mulemba, Domingos pedia a Deus para o ajudar a perdoar...
Quando o Matador finalmente saiu, Domingos apontou com firmeza a sua Mauser, mas não conseguiu puxar o gatilho.
Tinha de ser capaz de perdoar...
Um turra que estava na sombra, enviado pelo chefe guerrilheiro para proteger a arma, não deixou passar a ocasião.
Também ele conhecia o Cabo Matador...
A bala entrou mesmo por cima da orelha. O Pastor Domingos pensou apenas, que um homem tão mau não merecia uma morte tão rápida.
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Mensagem por Anarca em Sab Jan 31, 2009 2:58 am

Manuel comandava uma secção que tinha saído em patrulhamento, com ordens para obter notícias sobre o inimigo.
Estas operações que podiam atingir vários dias no mato, carregando armamento, munições, rações e água, provocavam grande desgaste que reduzia a atenção.
Por vezes limitavam-se a ficar escondidos em qualquer lado, e regressar calmamente ao Aquartelamento, mas daquela vez tinham de apresentar serviço para acalmar o Alferes que também sabia como as coisas eram feitas...
O trilho parecia não ser utilizado havia muito tempo, e a selva voltara mesmo em muitos locais a tomar posse daquele carreiro.
Os mosquitos apareciam em nuvens tornando o ar quase irrespirável.
A explosão de uma mina antipessoal espantou as aves e os macacos que fugiram espavoridos.
As pernas tinham sido esfaceladas.
Aplicaram os garrotes nas coxas e compressas nos ossos, tendões e músculos dilacerados. A confusão era indescritível mas alguém se lembrou de dar-lhe soro para que não entrasse em choque. As compressas iam ficando rapidamente vermelhas de sangue.
O enfermeiro ia recuperando o sangue frio, e preparou uma injecção de vitamina K, um anticoagolante, e outra de morfina.
Os gritos de dor ecoavam no mato enquanto se montava a segurança em redor e era pedida a evacuação do ferido.
Todos ficaram mais aliviados quando o helicóptero se elevou no ar, levando o camarada.
Agora era mais fácil esquecer ...
Manuel ocupou o lugar daquele que acabara de ser atingido.
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Mensagem por Anarca em Sab Jan 31, 2009 3:25 pm

As mãos estavam crispadas em torno dos punhos das G-3 e as línguas retesadas dentro da bocas secas. As gotas de suor rolavam nas testas e os lábios mordiam a vontade de fumar um cigarro.
Para Manuel, esta sensação única seria inesquecível enquanto vivesse.
No entanto, nem tanta precaução parecia ter resultado. A sanzala estava vazia, e apenas as galinhas vagueavam assustadas por entre as palhotas.
A mata foi inspeccionada palmo a palmo, encontrando-se vestígios nítidos da fuga precipitada. De repente, um vulto sai a correr de trás de um embondeiro, com tanto azar que esbarra de frente com a 2ª Secção.
- Fica aí meu cabrão…
O negro, de tão assustado, não conseguia falar…
- Este gajo é turra … - Assegurava o Alfama.
- Talvez não…
- Furriel, eu trato dele…
- Quantos mataste já ?… - e puxava-o por uma orelha para uma sombra mais afastada.
- …
- Olha lá, onde é que estão as minas ?… - acompanhava as perguntas com bofetadas cada vez mais fortes.
- Não saber, meu cabo…
- Porque é que andas a matar brancos ?…
Não lhe saía da cabeça o camarada e amigo que tinha pisado uma mina havia poucas horas, sem pernas, a dizer que lhe doíam muito…
- Não saber ! Não saber ! - ia repetindo, cada vez mais aterrorizado, o negro.
- Os brancos fizeram-te algum mal ?…
- Não matou, não…
Estava farto daquela guerra que parecia nunca mais acabar… Constava que os pretos até já tinham misseis…
- Onde é que estão os misseis ?…
- Eu não sabe…
- Não queres dizer, meu cabrão ?…
- Eu tem filhos pequinino… - apelava.
- Quantos mataste ?… - perguntava, sem ligar à mulher e aos filhos pequenos.
Atirou-lhe uns pontapés para lhe avivar a memória, e depois puxou ostensivamente a culatra da G-3, despertando a atenção de Manuel que consultava os mapas…
- Eu não sabe…
- Estás a mentir, cabrão !…
- Eu não sabe nada, meu cabo…
O Alfama chegou à conclusão de que não se podia fazer nada com aqueles pretos.
- Vai lá embora então… e apontava o trilho com o cano da espingarda.
- …
- Vai embora meu cabrão !…
Manuel estava paralizado, sem saber o que fazer.
- Jura mesmo, meu cabo ?…
- Ai a merda…
Lentamente, o negro foi-se afastando muito assustado sem virar as costas. Quando o Alfama levantou a G-3, caiu de joelhos.
- Eu não…
A rajada cortou-lhe a voz.
Manuel não queria acreditar no que tinha acontecido…
O Alfama mudava o carregador enquanto regressava para junto dos restantes que, após uma estranha troca de olhares, voltavam a vigiar atentamente o mato…
- Furriel, o turra ia a fugir … - justificou-se o Alfama.
Como podia o Manuel explicar ao Alferes o que tinha acontecido…
Que pensariam aqueles que nunca tinham conhecido o ódio?…
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