QUADROS ANTIGOS....

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Mensagem por Anarca em Sab Nov 15, 2008 10:11 am

Relembrando a primeira mensagem :

I - Luísa

Os pais da Luísa tinham uma grande fazenda de café na província do Uíge, mesmo junto à fronteira com o Congo.
Partiram da aldeia onde tinham nascido e casado, saturados de beijar a mão ao Padre que governava todas as vidas com o apoio do Chefe do Posto da Guarda Nacional Republicana.
Os primeiros meses naquelas terras desertas foram bem difíceis de passar, debaixo de uns panos de lona e rodeados de bicharada e negros que só entendiam o que lhes convinha.
Rapidamente se habituaram ao cheiro a catinga, mas o pior era quando os pretos falavam entre eles uma linguagem estranha e riam muito.
Só podiam estar a gozar os brancos…
Até os sipaios ao serviço da Administração da Circunscrição pareciam dançar quando marchavam…
No dia em que a casa ficou pronta, o pôr do sol veio dar com eles sentados no alpendre à sombra das acácias.
Muito ao longe, atrás de árvores frondosas, conseguiam ver as pequenas cubatas dos sipaios, com as suas muitas mulheres a tagarelarem todo o dia, e os grandes telheiros onde se abrigavam os negros contratados para os trabalhos públicos.
O destino dos negros tinha mudado. Os brancos eram agora os donos das terras, e os comerciantes já nem sequer pagavam aos sobas para exercer o comércio…
Os sipaios apareciam nas sanzalas, de farda e espingarda, a falar em nome das autoridades.
- É branco do Governo que manda! - diziam eles invadindo as cubatas para levar negros para irem trabalhar para os brancos.
Agora, eram os pais da Luísa que governavam com o apoio do Administrador da Circunscrição…


Última edição por Anarca em Sex Fev 20, 2009 10:53 am, editado 5 vez(es)
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Mensagem por Anarca em Sex Nov 21, 2008 11:21 am

Um dia chegaram ao café e o velhote não estava…
O novo empregado informou que o Sr. Alberto tinha ido para o Júlio de Matos.
- A casa dos malucos! - repetiu com um largo sorriso.
Para Pedro foi um caso de ódio à primeira vista.
O Sr. Alberto tecnicamente estava no manicómio, mas na realidade estava na prisão, acompanhado pelo cheiro a urina que o tempo tinha entranhado nas paredes.
Nem o deixavam sair para os jardins onde os internados menos perigosos se entretinham a pedir moedas para uma bica aos doentes das Consultas Externas.
Passava os dias encarcerado com loucos perigosos…
Quando chegou à conclusão de que não conseguia convencer as pessoas que Deus era um sádico, decidiu nunca mais falar enquanto vivesse. Foi internado devido ao seu silêncio.
O Padre ia visitá-lo de vez em quando…
- Deus está sempre ao pé de ti, meu filho. - dizia-lhe o Padre desolado por aquele silêncio.
O Sr. Alberto, se pudesse falar, bem lhe diria que era verdade, pois Deus tinha passado a vida a torturá-lo a toda a hora, mas ao menos agora servia-lhe de companhia…
Durante a noite, no escuro, falava baixinho com Deus e avisava-o de que as coisas não iam ficar por ali. Quando ele morresse, é que se iam ajustar as contas, a menos que Deus se arrependesse…
Mas o Sr. Alberto não garantia que conseguisse perdoar.
As pessoas iam morrendo, mas ele parecia ficar cada vez mais forte.
Deus estava com medo do encontro…
Ouvia as conversas dos loucos que por vezes diziam coisas bem interessantes, mas ninguém ligava.
Não tinha familiares nem visitas. Sabia que estava sozinho com Deus e com a Morte. Não tinha nada, nem ninguém…
Deus se fosse esperto, não lhe tinha tirado tudo. Quando nada temos a perder não podemos ser controlados.
Ele não tinha nada a perder, só queria morrer para ajustar contas com Deus…
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Mensagem por Anarca em Sex Nov 21, 2008 11:23 am

O Onassis tinha uns pais conservadores que não gostavam de o ver com amigos que davam pelo nome de Matacão, Pingas ou China.
O seu filhinho só se devia relacionar com as pessoas ricas.
O Onassis não tinha uma personalidade forte mas era muito diferente dos pais, e mesmo sabendo que o que eles diziam tinha algum sentido, não lhes obedecia.
Já tinha ouvido muitas histórias de pessoas ricas que se relacionavam com pobres e acabavam por ser enganadas e rejeitadas...
Não conseguia entender o medo dos pais em relação aos pobres, porque ele pensava que eram pessoas normais e iguais às outras.
Ainda ficou mais confuso quando começou a gostar de uma colega que andava também na explicação, e que não era rica.
Um dia encontrou-a no café com o Pingas...
Os ricos eram sempre enganados pelos pobres...
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 1:39 am

O Pingas tinha 18 anos e era alcoólico, mas a alcunha já não o fazia chorar...
Tinha crescido e os ombros ficaram suficientemente largos para aguentarem mais essa crueldade.
O pai era também alcoólico, mas já com quarenta anos de religiosa actividade.
Quando o Pingas, numa noite entrou em "delirium tremens" o pai não dormiu nem bebeu durante cinco dias e noites.
Já tinha sido internado e feito uma desintoxicação, mas não tinha resultado.
Pelo filho, acedeu a procurar os Alcoólicos Anónimos...
O grupo local passava por dificuldades porque não conseguiam encontrar uma sala para se reunirem. Ninguém os queria por perto...
Uma vez alcoólico, sempre alcoólico...
Foi um processo lento e doloroso feito de avanços e recuos, sem resultados muito animadores.
Frequentavam as reuniões dos A.A. mas continuavam frágeis e desencantados.
Os companheiros acabaram por ser parte integrante das suas vidas...
O pai acabou por poder regressar ao emprego e o Pingas tentava com todas as forças não voltar a beber.
A alcunha já não o fazia chorar...
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 1:40 am

Não percebia muito bem como era possível tanta felicidade nos alunos repetentes.
- Não há, Pedro! - disseram-lhe uma vez.
- Parece…
Os repetentes eram alunos diferentes. À falta de conhecimentos escolares respondiam com expedientes extra curriculares adquiridos nas horas roubadas ao estudo. Constituíam um grupo à parte e provocavam a curiosidade dos novos, que pouco mais conheciam do que constava nos livros e ambicionavam saber as “coisas da vida” como eles.
Impunham respeito aos novatos e mesmo os professores evitavam exigir-lhes muita disciplina.
Eram os melhores no bilhar e na ginástica conseguiam sempre jogar futebol, atirando com os restantes para o atletismo, sem levantar grandes protestos dos que eram sistematicamente afastados da bola.
Como desvantagem tinham as culpas - e quase sempre o proveito - de todos os distúrbios em que se desconheciam os autores.
As últimas aulas do dia anterior tinham sido trocadas pela matiné do Cinema Beato. Junto ao bar, os gazeteiros apimentavam cenas do filme, tentando provocar o arrependimento dos que tinham ido às aulas.
- Foi mesmo um grande filme americano, colorido, em écran gigante “cinemaoscopos”, para maiores de 17 anos… - realçava com ênfase o Pingas, enquanto a assistência se acotovelava à volta.
- Havia um teddy boy que foi para uma escola de adultos e dá cabo da velhada toda, da professora, e ainda tem tempo para uns fananços. O gajo mal entra na sala de aula vai logo sentar-se na última carteira. Atira com as botas, uns botins à americana, para cima da prancheta. Depois, quando aquela malta toda está parva a olhar para ele, o tipo saca de uma naifa ponta e mola, e vai de limpar as unhas cá com uma calma…
- Mas que grande pinta! - desabafa o Chorão.
O círculo apertava-se cada vez mais com o Pingas no centro.
- Aquilo vai assim uns dias…
- Mas depois é que é bom…- continua o Matacão. - Um dia o gajo fica lá no fim da aula e papa a professora cá com uma limpeza…
- Mas ela já gostava dele? - interrompe o Chorão.
- Que é isto?.. Ando para aqui a desmamar miúdos?… Faz-te à vida…
O grupo comprime-se na eminência de pormenores, quando toca a campainha para a aula.
- Depois contamos o resto! - atira o Pingas.
- Ainda há tempo! - recorda um mais entusiasmado.
- Ai sim?… Os meninos querem chegar tarde à aula?…
Sem mais palavras, acende o cigarro com um largo sorriso de superioridade enquanto a campainha continua a tocar.
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 1:42 am

O Chorão desde que se conhecia que lutava para se integrar mas era sempre rejeitado.
O pai tinha-se suicidado quando ele tinha cinco anos.
Diziam que seu pai havia feito aquilo por desgosto, pois descobrira um terrível segredo, o que a mãe se apressara a desmentir...
Na realidade o pai era um homem alto e atlético, mas o Chorão não acreditava na história da hereditariedade.
Pouco tempo depois da mãe ficar viúva resolveu voltar a casar.
A família também pensava que, como era ainda jovem, se deveria voltar a casar, mas ficaram espantados com a escolha.
A amizade que mantivera tantos anos com o Dr. Lopes e que sempre tinha dado motivos para falatórios, acabara de repente.
O novo marido tinha acabado de chegar à cidade, e não gostava de crianças.
O Chorão foi viver com um tio que tinha perdido o filho único num estúpido acidente.
Os tios não conseguiam aceitar a morte do filho que amavam, e sempre que olhavam para o Chorão rejeitado pela mãe, ficavam revoltados...
Porque não tinha antes morrido o Chorão...
Acabou por ir viver com outro tio mais velho, que teve pena dele porque em pequeno também tinha sido abandonado pelos pais.
Foi o único período da vida que viveu feliz, com um pai de verdade.
Quando fez 18 anos, recebeu a herança que o pai lhe tinha deixado.
Pouco tempo depois o tio morria...
A mãe, já abandonada pelo marido e sem meios para sobreviver, não o podia rejeitar...
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 10:45 am

O regulamento estipulava que os alunos deviam formar ordeiramente e entrar na sala após o professor, mas para a aula do Zé Nabo - que dava aulas pela primeira vez - esqueciam-se as normas.
Alguns professores novos começavam por querer mudar o sistema escolar, e quase sempre iniciavam o seu programa com as relações professor-aluno, que consideravam não serem as ideais.
Era ideia geral, que estes professores queriam mudar o sistema escolar porque vinham afectados pela distância a que os catedráticos os mantinham, mesmo nos últimos anos do curso.
Os Zés Nabos subestimavam sempre aquela meia dúzia de anos de idade a menos nos alunos, que eram suficientes para serem vistos como inexperientes moles, quando eles queriam era ser reformadores.
Restava aos alunos aproveitar o tempo que o novo professor demorava a adoptar o sistema vigente. Este período era variável e dependia das frustrações sofridas ou da força das convicções de cada professor. Por norma, acabavam por concluir que a disciplina e o distanciamento eram a melhor solução.
O Zé Nabo estava na fase de transição. Abandonara já as ideias iniciais, mas tinha relutância em adoptar o que antes condenava.
Quando entrou na sala , não gostou de ver ao fundo vários alunos com os pés em cima das carteiras. Quis convencer-se que não o tinham visto entrar, e arrastou a cadeira antes de se sentar. Depois, folheou demoradamente o livro de ponto, para dar tempo a que se sentassem correctamente. Ouvia risinhos, mas nenhum movimento significativo que lhe permitisse concluir que a posição dos engraçadinhos tinha sido alterada. Finalmente, levantou os olhos.
Continuavam na mesma posição. Com canivetes, raspavam as unhas e atiravam-lhe olhares de esguelha tentando disfarçar o sorriso.
- Os senhores podem acabar com a brincadeira? - A voz tremia-lhe, mas agora de raiva.
Não ligaram ao que lhes pedia. Era tempo de acabar com a indisciplina.
- Eu mando chamar o contínuo!.. - ameaçou tentando manter baixo o tom de voz.
Continuaram sem querer saber. Quantas vezes esta ameaça se limitara a ser um simples pedido de giz, quando o contínuo respondia ao toque de campainha e abria a porta. Como poderiam eles saber que desta vez era a sério. Sentiu-se culpado por perceber que fora a sua permissividade que os levara tão longe.
- O senhor professor chamou?… - O contínuo permanecia na soleira da porta e fazia por não ligar às piadas que lhe atiravam. Estava habituado aos professores novos…
- Não foi o Mestre, fui eu! - respondeu-lhe o China. - Traga-me um copo de água!
- E depressa! - lembrou o Matacão.
O Zé Nabo, a partir desse instante, passou para o outro lado. Os seus ideais não podiam suportar tanto.
- Olhem, vão mas é os dois tomar também uma bica se fazem favor!
Um esgar de alívio atravessou o rosto do contínuo que percebeu ter chegado finalmente a hora do acerto de contas. Com ar decidido dirigiu-se para o meio da sala dando a entender que estava pronto para o que fosse preciso.
O China e o Matacão perceberam rapidamente a alteração. O sorriso ia esmorecendo enquanto arrumavam os livros, e os restantes colegas se sentavam bem direitos nas carteiras.
O Zé Nabo abriu a caderneta nas folhas dos atrevidos e imaginou-as carregadas das faltas de comportamento que se ia encarregar de arranjar-lhes. Levantou os olhos e viu em cada sorriso uma nota negativa em potência.
- Façam favor de meter uma folha de exercício em cima da carteira, e escrever o que souberem sobre Nicolau Tolentino. É um teste para classificação.
Esperou por algum protesto, mas ficou desiludido por nenhum se candidatar. Era ele agora que tinha vontade de rir, apesar de mais ninguém agora achar graça.
- Vais ver como já estamos lixados com este! - murmurou o Pingas para o vizinho do lado, que nem teve tempo para lhe responder.
- Rua! - O Zé Nabo apontava a porta.
O Pingas pensou ainda reforçar a afirmação feita ao colega com um “Não vês?..”, mas optou por sair o mais rápido possível.
O Zé Nabo era finalmente um professor a sério.
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 10:46 am

O Zé Nabo tinha começado por Ur, na antiga Mesopotâmia, entre a Arábia e a Pérsia, aproximadamente 2.000 anos antes de Cristo. Foi aí que nascera Abraão - Pai de uma multidão - primeiro patriarca hebreu, que queria dizer, chefe de uma antiga família do povo hebreu.
Partia para uma longa busca para conhecer a verdade. Pensou que seria estudando Abraão que era tido como o pai espiritual de três religiões monoteístas, cujos crentes representam mais de metade da população do Mundo, que ia encontrar a resposta a todas as dúvidas...
O livro das escrituras sagradas do judaísmo - A Torah - referia-se a Abraão.
O patriarca constava na Bíblia - Antigo Testamento - e no Corão era também frequentemente referido.
O cristianismo tinha aceite Abraão como patriarca praticamente desde o início.
O Senhor tinha escolhido Israel, Abraão e a sua descendência para sempre.
O profeta Maomé, que no séc. VII ensinou os princípios islâmicos, venerou também Abraão, que o Corão reconhece como um dos profetas do Islão.
O Zé Nabo não encontrava respostas para as suas dúvidas...
Estudou os Dez Mandamentos entregues a Moisés, mas pouco ou nada adiantou.
As cinco bases do Islamismo até pareciam pacifícas se não implicasse aquele credo que dizia que não havia mais nenhum Deus além de Alá, e do seu profeta Maomé.
Os treze princípios da Profissão da Fé Judaica também não ajudaram em nada a esclarecer as dúvidas.
Começou a pensar que o problema era um pouco mais complicado do que parecia no início...
Estudou os sermões de Buda e pensou ter começado a ver um caminho.
As Quatro Nobres Verdades que referiam que a causa de todo o sofrimento humano era o desejo, e que bastaria eliminar o desejo para acabar o sofrimento parecia-lhe lógico...
O problema era que o desejo era devido à ignorância, e o Zé Nabo não acreditava que a ignorância pudesse ser também eliminada com tanta facilidade...
Passou noites sem dormir a ler “O Conceito Rosacruz do Cosmos” de Max Heindel, a tentar compreender a evolução do Mundo através dos Quatro Reinos...
Devorou “O Despertar dos Mágicos” de Louis Pauwels e Jacques Bergier...
Desesperou com “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns” de Alan Kardec...
Quando ouviu Mahatma Ghandi dizer que a Felicidade era o caminho e não um destino, conseguiu ter paz por uns dias, mas depois...
Agora o problema já se assumia como um desafio pessoal...
Estudou os Continentes Perdidos, as Civilizações Orientais e a Pedra Filosofal...
Estava à beira de uma derrota pessoal...
Espiolhou a vida de Artistas, Bruxos e Profetas, Feiticeiros, Sábios, Magos, Mágicos, Iluminados e Filósofos...
Estava cada vez mais cansado...
Tentou aprender alguma coisa com as Seitas e as Sociedades Secretas.
Estava cansado e desesperado...
Estudou os trabalhos teológicos de Tascius Caecilius Cyprianos - Bispo de Cartago em 249 - para detectar se era o autêntico São Cipriano de que se falava...
Acabou por descobrir que o São Cipriano - Astrólogo, Mágico e Feiticeiro - que tinha sido martirizado em Antioquia é que era o autor que ele procurava...
Afinal o “Livro de São Cipriano”, eram dois...
Conseguiu ler o primeiro, onde o Santo ensinava a magia negra e todo o tipo de feitiçarias, mas ficou a meio do outro livro em que supostamente o São Cipriano explicava os sortilégios amorosos, variando entre o ingénuo, o brutal e o repelente...
Estava cada vez mais cansado...
Um dia ouviu dizer que “O Verdadeiro Livro de São Cipriano” tinha sido publicado no Brasil numa edição muito limitada...
Não quis sofrer mais uma desilusão, e não quis saber...
Um dia acordou feliz...
Durante um sonho alguém lhe tinha dito que só se percebia alguma coisa da vida quando se deixa de querer compreender...
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 22, 2008 10:47 am

- Pedro, queres vir a uma festa? - perguntava o Matacão enquanto rodopiava a imitar passos de dança estranhos.
- Queres dizer, baile saloio?…
- O único saloio és tu se fores!
- Mas vocês não chegam ?…
- Pediram para te convidar, e não me aborreças mais! - confessou contrariado.
- A Luísa?… - perguntou sorrindo. Não esquecera ainda o dia em que lhe dera boleia até ao Colégio das Freiras. - Foi ela, não foi?…- insistiu, sentindo no silêncio do Matacão uma resposta afirmativa.
- Levas miúda ou não?
- Já disse que ia?…
- Se fores, levas miúda ou não? - inclinava-se para a frente prestes a explodir.
- Para quê? Jogo com uma da reserva! - levantou-se com ar gozão. Sem deixar de olhar para o Matacão, atirou com cinco coroas para cima da mesa e vestiu o blusão com lentidão.
- Agora fica com o dinheiro e diz que não paguei a bica. Podes ficar com a coroa de gorjeta, mas paga ao homem! - e virou as costas sem lhe oferecer boleia.
Desconfiava do papel do Matacão nesta história, mas sobre a Luísa tinha certezas.
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Mensagem por Anarca em Dom Nov 23, 2008 6:59 am

Chuviscava quando chegou a casa da Luísa. Os estores completamente descidos não revelavam qualquer sinal de vida no interior, mas um som musical abafado confirmou-lhe que não tinha chegado cedo demais. Procurava onde arrumar a motoreta quando a viu.
- Queres deixá-la na garagem?… - da porta entreaberta convidava-o a entrar.
- Se puder ser…
Continuou sem saber o que dizer enquanto a via abrir o portão, e nem quando ela lhe pegou na mão e o arrastou, conseguiu dizer pelo menos uma das frases que tinha preparado. Quando entraram na sala, demorou uns instantes a adaptar-se à penumbra.
- Quem está cá?… - conseguiu por fim dizer.
- O costume! - respondeu com um encolher de ombros.
- O Matacão?
- Sei lá... Não deve ter ainda chegado a casa...
Pedro só pedia que ele tivesse de vir de autocarro.
- Vamos?… - ela estendia-lhe os braços num convite explícito.
- Não tens par?.. - respondeu estupidamente com o pensamento no Matacão.
- Eu convidei-te, ele não te disse?…
- Mais ou menos… - balbuciou enquanto atirava o blusão para um canto atulhado de casacos.
Esforçava-se por deixar de pensar no Matacão. Porém, quando a enlaçou fechou os olhos e esqueceu. Sentia-lhe as mãos suaves ao longo das costas, do pescoço às ancas, e aí, indecisas ou ansiosas, voltarem num vai vem que o excitava. Comprimiu-a de encontro a ele, e notou que ela se aconchegava, como se aguardasse havia muito tempo por esse abraço mais forte. Sentia-lhe os longos cabelos colados nos lábios húmidos, e para se libertar deles afastou-os, juntando-os e aconchegando-os ao longo do pescoço.
Ela sentiu a carícia que esperava, e as suas mãos antes indecisas fixaram-se nas ancas e puxaram-nas para ela.
Pedro lembrava-se vagamente de ter algo para lhe dizer, mas não sabia o quê, e foi aumentando a força do abraço até não puder mais, até lhe fazer doer.
Cambalearam quando se arrastaram para o canto mais próximo, sem desfazer o abraço. Encostou-a à parede, e deixou completamente de dançar, ou mesmo de ouvir música.
A forte palmada nas costas foi como um terramoto.
- Não estás a puxar muito pelas reservas?…
Até a Carris estava contra! O Matacão já tinha chegado.
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Mensagem por Anarca em Dom Nov 23, 2008 7:00 am

Nem a televisão o conseguiu adormecer. Reconstruíra já dezenas de vezes a discussão com o Matacão, e ficava sempre com a impressão de que a Luísa se esforçara imenso para não chorar.
Lutava para se convencer que a Luísa ficara mais triste com a interrupção daqueles momentos, do que com as mentiras do Matacão.
Mesmo na escuridão conseguia identificar os posters que tinha espalhados pelas paredes do quarto. Os Beatles estavam ultrapassados e tinha que os trocar com urgência. Estava farto de olhar para a parede e só ver homens. Acendeu a luz, e viu logo que o Matacão ainda era mais feio do que o John Lennon. Ficou estupidamente contente, mas não deixou por isso de lhe desejar o pior possível.
Apagou a luz, mas continuava sem sono. A televisão continuava com anúncios. Não podia com o exagero da publicidade. Tentava nunca comprar os artigos que ouvia anunciar, como vingança. Sonhava por vezes que era uma figura pública e liderava um movimento nacional contra a publicidade. O programa deste movimento era simplesmente o boicote a todos os produtos anunciados. Era um sonho maravilhoso…
E lá estava alguém a aconselhar um Martini on the rocks, explicando o sensacional drink:
- Um copo com gelo, verta lentamente o Martini e junte uma casca de limão. Irresistível!…
Imaginava quantos expectadores pensavam assumir o estatuto de play boy só por fazer Martinis on the rocks! Quantos infelizes não teriam já usado conta-gotas, para ser mesmo lentamente…
O sono não havia maneira de vir, e deu por si a tentar adivinhar o que estaria a Luísa a sonhar…
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Mensagem por Anarca em Dom Nov 23, 2008 7:01 am

Tudo pela Nação / Nada contra a Nação.
“Temos de lutar pela verdade da vida que é luta, que é sacrifício, que é dor, mas que é também alegria, céu azul, almas lavadas e corações puros” (Oliveira Salazar)
Pedro já conhecia o livro vermelho de Mao Tse Tung e o livro verde de Khadafi, mas os Cadernos Diários do Liceu constituíam uma colectânea dos pensamentos mais profundos do regime, os quais a Mocidade Portuguesa se dedicava a reproduzir por todo o lado.
Aos Sábados à tarde tinha que aguentar as actividades da Mocidade Portuguesa, pois a permanência na escola dependia da boa informação dada pelo responsável da M.P. ou M.P.F. - as meninas podiam ter aulas de enfermagem, culinária, etc. Só assim poderiam vir a ser as “sentinelas das mais lusas tradições” .
Também podiam desenvolver actividades sociais de tipo caritativo, como por exemplo fazer enxovais para oferecer aos bébés pobres no dia das Mães.
Aos rapazes, competia defender a Pátria “de armas na mão”.
O Testas como sempre era o mais interessado e aplicado.
Era um gozo vê-lo com a farda castanha e verde impecável, com as insígnias da organização - o cinto fechava com um S - oficialmente de “Servir no Sacrifício”, mas que era vulgarmente interpretado como Servir Salazar...
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Mensagem por Anarca em Seg Nov 24, 2008 12:49 pm

Os bancos de jardim eram muito mais acolhedores de noite, e o calor fugia sempre da madrugada.
Em amena cavaqueira passaram as horas do recolher e, com surpresa, viram o guarda nocturno virar a esquina. O tinir do molho de chaves que este transportava ecoava como sinos.
Do poiso habitual viram um Morris Mini zarolho entrar na rua, todo na faixa esquerda.
- Aquele gajo vem com uma grande piela! Querem apostar?
O Matacão também conhecia o Zé Pielas que chegava a casa sempre de madrugada e não queria aceitar que aos 46 anos, certos prazeres deviam ser abandonados. Este não desistia de castigar a úlcera.
Até o guarda nocturno o conhecia. Quando não lhe via o carro estacionado deixava a porta da escada aberta, não fazendo aquilo para o qual era pago.
Ao arrumar, bateu com a parte de trás no poste de iluminação. Saiu trôpego para avaliar a manobra. O guarda lamas tinha um bom lanho, e o pára-choques estava torcido na ponta.
- Chiça!.. - desabafou com raiva. No silêncio da noite foi como um grito. Todos os vizinhos saberiam que chegara tão bêbado a casa que nem conseguira acertar com a rua.
Fez marcha atrás, torcendo o volante para a direita. Depois conseguiu estacionar como pretendia.
- Estava a ver que amachucava o poste todo!…- sussurrou o China.
- Deixa lá o homem…que pelo menos sabe guiar! Não é como tu!
- Olha lá, aquilo não é uma mota meu palerma! São pelo menos mais duas rodas sem contar com a sobresselente. - O China ia aumentando o tom de voz. - Quem é que não sabe guiar?…
- Tu!…
- Eu?… Olha lá, queres ir dar uma volta?
- Com quem?…
- Comigo palerma! - gritava o China premindo o peito repetidamente.
- Vai-te lixar! Um teso como tu?… Se te dessem um carro não tinhas dinheiro para a gasolina. És um crava que nunca tem tabaco e estás para aí a cagar postas de pescada! Vai à vida!
- Num emprestado!.. - murmurou.
- Tás maluco ou quê?!…
- Não há problema…- convidava. - Vens ou tens medinho?
Não precisaram de ir muito longe. O Morris Mini verde parecia estar ali mesmo para eles.
- E se tem alarme?…- perguntou o Pedro ponderando desistir.
- És coxo? Não te ensinaram a correr?…
O carro não devia ter alarme. Subiram o capot e procuraram a caixa dos fusíveis. O China trocou fios e a luz da ignição acendeu.
- Empurra agora! - incitou enquanto se sentava ao volante.
Carregou na embreagem e meteu a segunda. Quando entendeu que a velocidade era suficiente levantou a embreagem e carregou no acelerador quando sentiu o motor pegar. Para Pedro, o barulho do motor parecia-lhe um avião.
- Vamos arranjar chatices, pá!
- Anda embora e cala-te! É só emprestado!
Quando chegaram à Marginal, o China iniciou o show.
- Repara bem nesta desmultiplicação!… - e exemplifica com uma dupla que arranha por todos os lados fazendo estremecer o carro.
- Lixas isto tudo!..- avisava o Pedro que ria sem parar, aterrorizado.
Iniciam a descida para a curva do Mónaco a mais de cem. Mete a terceira, acelera e larga a embreagem.
- Dominado, vês?… É o que gramo mais...
Sai fora de mão, mas a Marginal é toda dele.
Não tem tanta sorte com a berma do passeio na curva dos Pinheiros. Assusta-se, trava a fundo, derrapa e atira com a traseira para o candeeiro que se lhe atravessa no caminho.
- Estamos lixados…
- Dói-te alguma coisa?…Vamos embora pá…
Saem rapidamente para o outro lado da Marginal, felizmente deserta.
Quando Pedro chegou a casa já os galos cantavam.
Teve um sono agitado. Sonhou que tinha sido preso, e o Matacão era o guarda.
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Mensagem por Anarca em Seg Nov 24, 2008 12:50 pm

O sol ainda mal despontara por detrás dos telhados quando a vizinhança acordou com a gritaria do Zé Pielas a quem tinham roubado o carro durante a noite - um Mini verde que metia inveja a toda a rua.
Os filhos mais velhos que já tinham saído para a Ribeira onde compravam todos os dias a fruta para vender na loja, apareceram como por milagre, acompanhados do polícia.
- Agora?... - perguntava o Zé Pielas. - Devia era ter apanhado o ladrão!
O filho mais novo, que era um pouco atrasado, ao ver tanta gente, correu logo para a loja preparar sacos para embrulhar a fruta aos fregueses.
- Senhora Ivone, quer que assente para pagar no fim do mês? - perguntava à vizinha do 2º andar que não lhe deu resposta.
- É mesmo atrasado... - desculpava-o o pai.
- Onde estava o carro?... - perguntava o polícia.
A manhã já ia a meio, quando o Zé Pielas, inconsolável, foi finalmente para o lugar da fruta.
Enquanto seleccionava a fruta de melhor qualidade para os clientes certos e despachava para casa alguma fruta tocada, ia contando a desgraça que lhe acontecera.
- Eu tenho cá um palpite que sei quem foi o ladrão... - e abanava a cabeça lentamente.
- Algum invejoso! - atirava o filho mais velho.
- Pai, queres que eu vá procurar o carro? - perguntava solícito o filho mais novo.
- É mesmo atrasado... - desabafava entre dentes o outro irmão.
- Que é isso!... - gritou-lhe o Zé Pielas. - Não vos quero ouvir chamar isso ao vosso irmão! Ouviram bem?...
O sol já brilhava, quando o Zé Pielas acabou de carregar o triciclo com a fruta para levar a casa dos clientes.
Todos os dias percorria as mesmas ruas, empurrando o velho triciclo verde - O Zé Pielas era do Sporting - carregado de frutas e hortaliças.
Naquele dia a volta estava a ser mais demorada. Tinha de contar o roubo do Mini sempre que parava.
O tempo ia passando sem o Zé Pielas dar por isso. Na taberna do Galego, só ao fim de quatro copos de três conseguiu esclarecer devidamente todos os interessado da situação em que se encontrava o roubo da viatura.
O sol já estava no pino quando o Zé Pielas chegou ao Pitrolino que vendia carvão, petróleo e vinho. Era sempre o último cliente. Bebeu mais uns copos de vinho enquanto repetia pela enésima vez a história do roubo.
O Zé Pielas não tinha pressa nem usava relógio. O triciclo estava vazio, e, mesmo com os fiados, ainda tinha muito dinheiro no bolso.
O sol começava a declinar e o Zé Pielas, com o estômago vazio, estava cada vez mais confuso, com a aguardente a provocar-lhe visões.
Seguia pela rua principal com lamúrias e ameaças, quando repara na Igreja, ao cimo da calçada.
- Deus sabe tudo, não é?...
Alguns conhecidos ao vê-lo assim trôpego ainda pensam em ajudá-lo, mas num ápice, o Zé Pielas abandona o triciclo e irrompe pela Igreja.
O esforço tinha sido demasiado e quando se senta mesmo em frente do altar, cai para o lado num sono profundo.
Ao fim da tarde, a velha beata que vinha fazer os preparativos para a missa das seis e meia, depois de polir os cálices, quando limpava o pó dos bancos, encontra o Zé Pielas.
Ao ver aquela figura franzina, mal vestida, e mal cheirosa, sente uma inspiração divina.
Quem sabe se aquele desgraçado não é Jesus, que se apresenta assim para a pôr à prova?...
Tem perante ela uma hipótese certa de ganhar já o Céu...
Melhor, só a sorte grande...
Trémula de excitação, a beata tropeça e cai sobre o corpo inerte do Zé Pielas, fazendo-o despertar estremunhado, mesmo no instante em que ele sonhava com a mãe.
- Mãe, fui roubado! Por que me abandonou? - implora o Zé Pielas pensando estar em presença da mãe.
A velha beata não percebe o que ele diz, mas fica extasiada por ser tratada como mãe de Deus...
- Meu filho, estou aqui...
O Céu parecia estar certo, mas a velha pensou que o melhor era ir chamar o Padre para servir de testemunha, e mal se conseguiu libertar do abraço do Zé Pielas, correu na direcção da sacristia.
O Padre ainda não tinha chegado e a beata voltou para junto do Zé Pielas que cada vez que se lembrava do Mini era sacudido por crises de choro incontrolável que chamavam a atenção de alguns fiéis que vinham para rezar o terço antes da missa.
- Bêbado dum raio... - repetia a velha beata depois de perceber que não tinha ganho um lugar no Céu.
O Padre tinha chegado finalmente.
- Meu filho, a sua mãe já morreu. Vamos rezar por ela...
- Padre, eu quero é o meu Mini verde, que me roubaram.
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Mensagem por Anarca em Seg Nov 24, 2008 12:51 pm

Quando a avó lhe deu a notícia, Pedro recordou os arrepios fortes e estranhos que tinha sentido mesmo no dia do infeliz acontecimento...
Pedro acreditava em tudo até prova em contrário...
Durante as férias com os avós, costumava sair com a espingarda de pressão de ar, pelos campos a atirar à passarada.
Uma tarde entrou por uma quinta que atraía bandos de pássaros.
Um monte de cereais a secar debaixo de uma frondosa árvore era o alvo das aves, que iam depenicando alguns grãos a que conseguiam chegar.
Era o sítio ideal para ficar de tocaia a disparar, deitado de papo para o ar.
Os estampidos da espingarda acabaram por chamar a atenção da filha dos proprietários, que se mantinha junto da porta de casa a olhar...
Quando ela lhe levou fruta, Pedro reparou melhor nela...
Não tinha nada o aspecto de uma simples rapariga de aldeia.
Apenas se notava a timidez com que continuava a olhá-lo, em silêncio na ombreira da porta...
Sentiu um carinho muito grande por ela...
- Quando for para Lisboa posso escrever-te ?... - perguntou-lhe Pedro quando se despediu.
- Pode sim!... - e correu feliz a buscar a morada para lhe dar.
De regresso a casa, a confusão do início das aulas fez-lhe esquecer a promessa.
Recordava perfeitamente que quando sentira aqueles arrepios fortes e estranhos, lhe tinha vindo à memória que ela esperava por carta...
Ficou de tal maneira incomodado com aquele acontecimento, que decidiu telefonar à avó pedindo-lhe para lhe dizer que a carta já ia a caminho...
Soube então que ela tinha sido atropelada mortalmente, precisamente à hora em que Pedro tinha sentido aquelas sensações...
Todos os dias ela ia esperar o carteiro, aguardando notícias...
Pedro só pedia a Deus, que ao menos ela não fosse distraída a pensar nele, quando sofreu o acidente...
Acreditava em tudo até prova em contrário...
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Mensagem por Anarca em Ter Nov 25, 2008 12:42 pm

Mal acabou de comer, saiu da mesa o mais depressa possível para ir dar uma volta pela praia.
- Vê lá para onde vais… - recomendou-lhe a avó, repetindo o aviso tantas vezes já ouvido.
- Pensas que o rapaz ainda é miúdo?…
Felizmente o avô via-o crescer todas as férias grandes.
O largo em frente da lota estava apinhado. As camionetes carregavam caixas de peixe acabado de apanhar.
- Olhem o maluco!… - uma garota despertava a atenção, apontando alegremente um homem que ao longo do areal, a medo, caminhava atrás duma carroça com peixe, que de tão carregada, a um balanço mais forte deixava por vezes cair um carapau que se confundia na areia.
O pobre, de gatas, disputava as presas com os garotos e com os gatos, que se tornavam terríveis competidores com as garras afiadas que se lhe enterravam nas mãos, e por vezes lhe afloravam mesmo o rosto.
A disputa era acompanhada por gargalhadas e incitamentos febris.
- Vamos maluco!… Vai-te a eles!
Os gatos assanhados faziam vibrar cada vez mais os expectadores, e pareciam fazer coro com eles.
Por fim, conseguiu agarrar a areia onde se revolvia um peixe nos estertores finais, e, com ele junto ao peito, mãos em sangue, fica silencioso parecendo agradecer.
Os gatos de pelo eriçado miam ainda.
Levanta-se e encaminha-se para a praia. Com o carapau bem apertado ainda junto ao peito, aproxima-se da beira-mar, atirando a cada passo, olhares desconfiados, temendo ser seguido.
Deposita-o na água, e, ternamente, tenta afastá-lo para o largo, mas a maré devolve-o sempre às mãos que teimam em enviá-lo para longe de terra. Finalmente, entra na água e vai deixá-lo longe.
Quando chega à areia, olha e não o vê.
Bate palmas e salta contente.
Um pouco ao lado, entre as rochas, com o vai e vem das ondas, dança o seu peixe que ele julga ressuscitado.
Com um último olhar, regressa pingando e com a roupa colada ao corpo, denunciando uma magreza arrepiante, mas sorrindo.
Depois, acenando tristemente ao mar, chora já de saudades.
Do mirante, Pedro segue-o até não conseguir distingui-lo na multidão, e nessa noite, antes de adormecer não pensa na Luísa, nem se lembra do Matacão. Apenas receia que o louco se vá sentar nas rochas algum dia.
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Mensagem por Anarca em Ter Nov 25, 2008 12:43 pm

Só voltou a encontrá-la no parque de estacionamento junto da Esplanada do Parque Eduardo VII.
- Pedrinho… - chamava a sorrir ao volante de um Triumph Spitfire verde alface descapotável…
- És parva ?… - não podia acreditar no que via - Sai mas é daí …
Só pensava em fugir dali o mais depressa possível, mas ela continuava calmamente instalada, parecendo não se importar que o dono aparecesse.
- É meu … - e mostrava as chaves.
- Não acredito!…
Os momentos supremos de felicidade que Pedro vivia quando o pai lhe emprestava o carro, esfumavam-se no verde alface do Spitfire.
Convenceu-se quando ela o meteu a trabalhar.
- Gostas?…
- É giro … - conseguiu dizer sem dar muito nas vistas.
- Queres boleia ? - perguntou enquanto abria a porta.
- Vou para o Liceu, não te fica em caminho…
- Claro que fica !…
Quando se instalou, imaginou-se por instantes ao volante. O arranque foi suave e as mudanças pareciam ser mesmo leves…
- Sabes guiar, não sabes ?
- Há quanto tempo que ando com o carro do meu pai!... - a esperança quase o fazia gritar.
- Vem lá então experimentar… - encostou para lhe ceder o volante.
Já ao volante, os pensamentos percorriam-no num turbilhão incontrolável. Chegar à escola com aquela miúda quase mulher, a guiar aquela máquina… Os invejosos iam ter dificuldade em escolher entre o Spitfire e a Luísa… E ele com as duas coisas…
De repente, teve muitas dúvidas…
- Porque fazes isto ?… - perguntou com medo de quebrar o encanto daqueles instantes.
- Nunca mais aparecias… Devia era estar zangada contigo…
- O Matacão…
- O Matacão?… - ria aliviada. Mas o que tem o Matacão meu burro ?…
- …
- Os nossos pais são grandes amigos… É meu vizinho... Só isso, nada mais…
- Não sabia… Estavas ali à minha espera ?…
- Talvez… - o sorriso dizia que sim.
Tinham chegado ao Liceu.
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Mensagem por Anarca em Ter Nov 25, 2008 12:44 pm

O professor de Introdução à Política entrava nas calmas e ficava silencioso à espera, lançando olhares de repreensão para os mais faladores.
Nunca entrava na matéria do dia sem um sermão, relacionado com qualquer notícia da actualidade.
Acabava com um conselho, tipo pensamento do dia...
Era conhecido pela rapaziada como o Banha da Cobra - vendedores das feiras e mercados - e ninguém o tomava a sério.
Constava que era da Pide...
Tinha uma voz forte que contrastava com a sua pequena estatura, que o candidatava a sacana ou bailarino.
Ninguém o tinha ainda visto dançar...
O Banha da Cobra era um adepto fervoroso da Académica, e o clima da aula das segundas feiras estava sempre relacionado com o resultado do jogo de Domingo.
No dia anterior a Académica tinha perdido...
O Testas devia estar nas nuvens quando ele lhe perguntou o que pensava da arbitragem.
- Não vou em futebóis... - respondeu sem pensar.
- Não vai então em futebóis... - repetia o Banha da Cobra estupefacto.
Finalmente, abriu a gaveta da secretária donde tirou a Caderneta com as fichas dos alunos da turma.
- Bem, vamos lá fazer uma chamadinha ao quadro à sorte...
Abriu a caderneta sem olhar... Tinha acertado no Testas...
- Olha, isto é que é sorte. Tens de jogar no totobola...
Enquanto se levantava para ir ao quadro, o Testas ia compreendendo onde se tinha metido.
- Que tens ?... - perguntava-lhe o Banha da Cobra. - Porque é que estás com os dentes amarelos e com esse sorriso esquálido ?...
- ...
- Calma, porque quem não perde tempo com o futebol, tem muito tempo para estudar...
Depois de duas perguntas tão esquisitas que ninguém sabia do que é que ele estava a falar, mandou-o sentar-se.
- Pois é... Tenho de te dar um zero na chamada...
Tomou nota na folha e guardou a Caderneta.
- E tu ?... - dirigia-se agora ao Matacão. - Diz-me lá o que te pareceu a arbitragem ?...
- Francamente setôr... Aquela arbitragem é um caso de polícia...
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Mensagem por Anarca em Qua Nov 26, 2008 12:20 pm

O Banha da Cobra desaparecera em Março de 1966. Era professor assistente na Universidade e levaram-no logo depois da sua última aula em que manifestara apoio e solidariedade aos movimentos de libertação das colónias portuguesas. Naquele dia um Pide assistia à aula, e o Banha da Cobra, com o entusiasmo, não reparara...
Tinham passado oito anos, quando Carolina, ao regressar a casa, o encontra na penumbra das escadas.
- Meu Deus ?...
- Olá Carolina ...
- És mesmo tu ?... - não conseguia acreditar.
O abraço é apertado, e ela na ponta dos pés, enlaça-lhe o pescoço com os braços que ele nunca esquecera...
Quando se beijam na boca ternamente, Carolina recorda como eram rijos os pêlos dos seus braços.
- Ah! És mesmo tu, meu querido...
Tinham-se conhecido dois anos, antes de ter desaparecido.
Casaram oito meses depois...
- Por onde andaste ?...
- Já acabou, graças a Deus...
Foram felizes para casa. Tomou banho e ela cortou-lhe os cabelos, as unhas, fez-lhe a barba. Voltava a ser um homem ...
Não queria acreditar que tinham passado oito anos...
Carolina tentava convencê-lo de que ainda era jovem e de que tinham uma vida inteira pela frente.
Toda a gente achou estranho a facilidade com que arranjou emprego como professor de Introdução à Política, mas ninguém se atrevia a fazer perguntas.
Na primeira aula começou por abordar o facto sócio-político mais importante dos últimos anos - Salazar e o Estado Novo.
Não estava habituado a falar tanto, e, após a primeira aula, decidiu tirar o resto da tarde para descansar...
Quando chegou a casa ouviu uns gemidos vindos do quarto.
A mulher estava na cama, sentada sobre um homem também nu.
- Carolina !...
- O que é que estás aqui a fazer?...
- Quem é esse homem ?... - balbuciou, ignorando a pergunta.
- É o Francisco, meu noivo...
- Noivo ?...
- Eu não podia esperar tanto tempo... Não sabia se voltavas...
Francisco levantava-se e enrolando-se num lençol estendia-lhe a mão.
- Estive fora e não sabia... Regressei hoje...
O Banha da Cobra apertou-lhe a mão mas a sua cabeça estava longe, muito longe.
Só a Académica lhe continuava fiel...
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Mensagem por Anarca em Qua Nov 26, 2008 12:21 pm

O Paquete Eagle fazia carreiras regulares entre Inglaterra e Portugal, com estudantes em férias.
Enquanto permaneciam em Lisboa, o cais de Alcântara era pequeno para albergar os machos latinos que esperavam pela saída das “bifes”.
- Basta dizeres good morning, e atracas-te logo. - explicava o Pingas, mais vivido e que sabia falar Inglês e tudo.
- Temos é de ter cuidado com a polícia, porque da última viagem, metade foram grávidas e foi uma grande bronca.
- As gajas gostam muito dos portugueses, não gostam?
- Não vês que cá a malta é muito quente, e isso é que elas querem!
- Pois é, lá até casam gajos uns com os outros!…Maricas!
A hora de saída chegara. Os rapazolas que esperavam por esse momento pareciam abutres.
- Vêm aí duas, atira-te já! - ordenou o Pingas.
- Alô!
- Hello! - e sorriam para eles.
- Estás a ver? Já estão. - o Pingas avançava confiante.
- Fala lá! - pedia nervoso o China.
- We can go with you? Estás a ver esta pinta ?…
- Yes !…
- O que é pá? Diz lá o que é!…- O China desesperado tentava perceber o que se passava, atrapalhado por não entender nada.
- É para irmos com elas. Agarra-te já à tua.- exemplificou o Pingas com a mais alta e loura.
O China ouvia a dele falar, mas não sabia o que dizer. Só sabia dizer “yes”. Lembrou-se de dizer Eusébio para que ela percebesse alguma coisa, mas teve vergonha. Por fim, ela parou de falar e passou a olhar o movimento das ruas. O Pingas lá se ia safando.
- Do you like my country?
- Yes, it’s very primitive!
- Yes ! - respondeu antes de traduzir.
Quando percebeu a resposta pensou que já estava a ser demais.
- O quê?!… É pá, esta gaja está armada em parva. Pensa que sou um banana como os lá da terra dela?…
- What ? - perguntava a miúda desconfiada.
- Diz à minha que gosto dela. - pedia o China para acalmar os ânimos.
- Paul, like You!
- É pá, eu sou Luís! - gritava o China.
- Sei lá como é que se diz Luís em Inglês! És Paul e pronto!
- Está bem. Pergunta lá se a gaja gosta ou não de mim, vá!
- Do you like Paul? - perguntou. Nem esperou pela resposta para animar o China. - Gosta pois é claro!
Elas apenas riam sem parar.
Quando se cruzavam com outros grupos de rapazolas, as piadas choviam e alguns mais atrevidos tentavam mesmo apalpá-las.
- Are stupids ! - desabafavam elas a cada tentativa.
O China pensou ter finalmente algo fácil para dizer e colaborava.
- Lá vêem mais estupides! - anunciava mal algum grupo se aproximava.
Era a primeira vez que tinha vindo para o engate, mas parecia-lhe estar talhado para um grande futuro. Levava-a enlaçada pela cintura, mas foi subindo a mão. Quando lhe aflorava o seio, ela pegou-lhe na mão e repôs-lha na cintura.
O China sentiu uma mistura de vergonha e frustração.
- Yes!.. - disse atrapalhado. - É pá, esta gaja que vá comer um balde de merda!
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Mensagem por Anarca em Qua Nov 26, 2008 12:22 pm

O China era Testemunha de Jeová, e a alcunha assentava-lhe como uma luva, porque era preciso uma paciência de chinês para andar de porta em porta a espalhar a palavra, quando os infelizes a converter acabavam de regressar de um dia de trabalho e tinham o jantar ao lume.
O China e a irmã ainda não acreditavam em nada, quando aceitaram estudar a Biblia com um casal simpático que lhes aparecera à porta.
Quando deram por isso, já estavam baptizados e prontos a desenvolver, com alegria e fervor, uma vida de missionário.
O China começou logo a desconfiar quando teve de cortar o cabelo, e a irmã foi aconselhada a usar a saia oito dedos abaixo do joelho…
As punições, perseguições e pressões exercidas pelos Anciãos, as quais ia assistindo no dia a dia, tornavam-no cada vez mais desconfiado…
Mas como amava Jeová…
Quando foi promovido a Servo Ministerial, já tinha os olhos bem abertos.
As relações de amizade com as pessoas fora da Organização - os mundanos - eram vistas como más associações, mas o China não queria perder as farras com os colegas.
O problema eram os Anciãos que se transformavam em espiões e vigiavam a vida privada das ovelhas do rebanho.
Mas o China dizia que amava Jeová…
Quanto menos acreditava, mais sucesso obtinha nas conversões…
Tinha fama que, desde o momento em que batia a uma porta com a Bíblia na mão, precisava apenas de uma hora e 35 minutos de pregação para os gentios abandonarem tudo em que tinham acreditado e abraçarem com entusiasmo a nova fé.
Tinha como lema que era preciso muita fé para ser ateu…
Um dia acabou por confessar ao Pedro o que andava lá a fazer.
- Não vês que assim me vou baldar ao Serviço Militar ?…
As Testemunhas de Jeová recusavam vestir uniformes militares e pegar em armas - ordens directas de Jeová - o que o China pensava ser suficiente para alegar objecção de consciência.
Ele só tinha medo era de precisar de uma transfusão de sangue a qualquer momento, e ser desmascarado…
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Mensagem por Anarca em Qui Nov 27, 2008 12:10 pm

A irmã do China desde muito pequena que se sentia atraída pelo suicídio, que achava muito romântico.
Aos 17 anos, só frequentava as Testemunhas de Jeová porque gostava de um Ancião bonito e com uma boa situação financeira.
O namoro vigiado por toda a Organização ia decorrendo sem grandes problemas, e, como ela era virgem, o casamento foi autorizado…
Como Jeová proibia o uso de anticoncepcionais, a irmã do China especializou-se na felação, coito anal e masturbação.
O marido era muito religioso, mas felizmente no sexo era um professor muito aplicado. E a irmã do China gostava de aprender…
Gostava tanto da matéria que acabou por meter aulas extras com um explicador que conhecera durante uma sessão de pregação da palavra.
Infelizmente a aprendizagem das novas matérias implicou uma gravidez que ninguém esperava, e muito menos o marido.
Diziam que a irmã do China gostava tanto do marido que se tinha suicidado devido ao arrependimento…
Aquele gesto tresloucado era para a irmã do China a máxima expressão de uma alma romântica.
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Mensagem por Anarca em Qui Nov 27, 2008 12:11 pm

A avó do Pingas acabara de morrer com oitenta e um anos.
Todos a conhecíamos em virtude das hilariantes histórias que o Pingas nos contava da avó.
Não sabíamos é que a cabeça dela começara a dar de si havia vinte e dois anos, quando a Pide lhe prendeu a marido com a acusação de ser comunista.
O pior nem foi a prisão. O que destroçou a avó foi manterem-no incomunicável durante dois anos.
E o avô nem gostava dos comunistas. O coração era anarco-sindicalista, e por coerência não queria pertencer a nenhuma organização.
Sonhava que um dia as abstenções ultrapassariam os votos dos carneiros que iam às urnas, e só vivia para esse dia...
- Porque é que não há votos contra ?... - perguntava quando lhe diziam para se limitar a votar branco ou nulo.
Uma denúncia falsa levara-o para a prisão...
Mas se o avô era forte, a avó não o era e acabou por ser ela a principal vítima.
Nunca se detectaram na avó marcas visíveis de repressão, mas a cabeça foi ficando cada vez mais ausente...
O avô talvez ficasse feliz, porque era menos um voto...
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Mensagem por Anarca em Qui Nov 27, 2008 12:12 pm

O Testas, com 17 anos de sofrimento, magro e de modos correctos, parecia mesmo um rapazinho educado e respeitador.
Seguia alguns metros à frente do grupo principal, e passava sorrateiramente com a mão pelas ancas e pelos peitos das senhoras, que ao vê-lo tão pacato ficavam indecisas perante o acto.
O riso dos restantes era então elucidativo, mas quando iniciavam o ralhete, o Testas já ia tão longe e indiferente que ninguém conseguia identificar o visado.
Nos Restauradores, frente à Napolitana, parou a olhar para o ar, sendo imitado pouco a pouco pelos restantes do grupo.
Em breve vários transeuntes paravam a olhar também, só desistindo quando se apercebiam da marosca.
Foi bem divertido, excepto para o Testas. Quando se lembrou de apregoar “Pomada para o pescoço, quem quer?”, levou um tabefe no nariz dum velhote sem sentido de humor.
Mesmo assim foi uma tarde bem passada.
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Mensagem por Anarca em Sex Nov 28, 2008 12:55 pm

O pai do Testas considerava fascistas a maior parte das Instituições Nacionais.
A Pide tinha a família debaixo de olho, mas o Testas só queria ser bom aluno e aprender o mais possível .
A Caderneta Escolar era para ele uma Bíblia e, enquanto a imaginação dos colegas vagueava nas tácticas a usar nos jogos de futebol que se realizavam durante os intervalos, o Testas estudava.
Era um dos “marrões” do Liceu, sempre a tomar apontamentos. Sabia as respostas com as vírgulas e os pontos finais, conforme vinham no livro.
Nas aulas estava sempre muito atento com a lição na ponta da língua.
Acreditava em tudo que os professores diziam...
O Matacão dizia-lhe para ele aprender tudo bem que depois pedia ao pai para lhe dar emprego...
Constava que o Pai do Matacão era da Pide...
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Mensagem por Anarca em Sex Nov 28, 2008 12:56 pm

Depois de passar-lhe com o pano ligeiramente húmido, esfregou-a com o feltro até ficar a brilhar.
Verificou os travões, deu uma revisão geral, e ficou contente com o aspecto.
Baixou a viseira do capacete, deu ao pedal e nada. Outra vez, e nada.
- Estou lixado! - consultou o relógio.
Estava prestes a iniciar-se a última prova do campeonato de moto-cross organizado pela escola.
Detectou a vela molhada. Após a troca, pegou logo à primeira.
Quando chegou ao Monsanto, deixou a estrada e foi a corta mato para aquecer. As pistas para cavaleiros eram os percursos utilizados nas provas.
Chegou mesmo na hora, mas ficou com muitos à sua frente.
A partida foi repetida duas vezes por alegadas irregularidades, mas, à terceira, como só houve 3 ou 4 reclamações, foi a valer.
Aproveitou a confusão para ganhar lugares, e ficou tão entusiasmado que tentou ultrapassar mais um na curva. Ia mesmo conseguir, quando a roda dianteira resvalou numa pedra. Para se equilibrar não continuou a curvar e seguiu em frente. Eram só arbustos, mas ficou com vários arranhões.
- O Pedro já bateu com os cornos numa árvore!
Ainda combalido reconheceu a voz do Matacão a relatar a prova alegremente.
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Mensagem por Anarca em Sex Nov 28, 2008 12:57 pm

- Olá!…
Não precisou de olhar para saber que era a Luísa. Eram cada vez mais frequentes os encontros entre eles. Pedro ainda não tinha tido coragem para acabar a relação com a Helena, e temia ser descoberto a todo o momento.
- Por aqui ?!…
As dores da queda quase desaparecerem como por encanto. Talvez por continuar tonto, conseguiu perguntar o que o atormentava havia muito tempo.
- Quantos anos tens, Luísa?…- e sem a deixar responder atalhou: - Não interessa!… És mais velha. Tens a tua vida. Que queres de mim?!…
-…
- Não acredito que seja só para teres boleia de moto!
- É uma oferta? - perguntou Luísa sorrindo.
- E o teu carro?…
- Não vim de carro. Acho que tu não gostas…
- O que me interessa isso?!…- Na realidade interessava-se.
- Dás-me ou não boleia?
- Se precisas mesmo…
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 29, 2008 3:55 am

O corpo estava dorido da queda, e parecia que o tempo fazia aumentar as dores. Acabaram por ir dar uma volta no carro da Luísa.
- Onde vamos?…
- Tanto faz…
Queria continuar a demonstrar indiferença, não tornar-se ridículo.
- Diz lá…- insistia Luísa.
- Com este calor…para um sítio fresco.
- Praia?…Parque?…
- Como queiras…
Seguiram para a marginal, sem trocar palavra. O vento e a musica atenuava o silêncio.
Pararam no Motel de Oeiras.
- Está apinhado…
- Isso quer dizer que queres estar só comigo?… - e sorria .
Pedro não sabia que responder, e limitou-se a encolher os ombros.
- Estou intrigada, sabes?…Não me voltaste a perguntar o que é que eu quero de ti!...
- Ainda estou a tempo!
- Gostava que me conhecesses melhor, Pedro…
- Talvez fosse pior…
- Talvez não…
- Como queiras…- olhou em redor para que ela não se apercebesse da sua confusão.
Estavam estacionados junto ao gradeamento que dava para o mar.
- Gostas?…
Enquanto esperava pela resposta de Pedro, acariciou-o levemente no rosto.
- Sei lá!… Tornaram tão vulgar o Mar…
-…
- É quase obrigatório ter de ficar romântico perante o Mar… Compreendes?… - olhou-a e voltou a olhar em frente.
- Queres ser inédito?…- perguntou Luísa.
- Não é bem isso…
Realmente era, mas temia estar a ser também vulgar.
- Sabes…- decidiu-se por fim Pedro. - Parece que tudo já está dito e feito, o que nos leva a concluir não ser possível criar ou sentir algo de novo…
- Mesmo o amor?…- e voltou a acariciá-lo com maior insistência.
- Amor?!…
Ficaram em silêncio. De fora chegava o murmurar das ondas, misturado com a algazarra da criançada em animada brincadeira.
- Vamos?…- apontou para a saída, sem lhe responder.
Percorreram a Marginal em silêncio. Viraram para o Monsanto e encostaram na berma à sombra dos eucaliptos.
- Sabes, arrepia-me dizer a alguém “amo-te”. É uma palavra tão vulgar que me custa ser apenas mais um a dizer o mesmo…
Luísa pareceu surpreendida por instantes, mas acabou por sorrir.
- Gostava de ser eu a inventar o amor…
Ela desligara o motor, e o silêncio era apenas interrompido ao longe, por algum carro mais barulhento na subida da Duarte Pacheco.
- Pedro, podes crer que compreendo…- enlaçou-lhe o braço enquanto lhe acariciava a face meigamente.
- Luísa…- interrompeu o que ia a dizer quando se apercebeu do ruído de ramos a quebrar.
Empoleirado num ramo, um mirone tentava atabalhoadamente passar despercebido.
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 29, 2008 3:56 am

Morava numa rua normal, num bairro da periferia de Lisboa, sem passeios nem rede de esgotos. Era uma rua longa e com muitas casas abarracadas que davam para um denso matagal que servia de refúgio a marginais e prostitutas durante a noite....
Era um rapaz comum como muitos outros da periferia, que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite.
Morava com os pais e tinha dois irmãos. Com 18 anos estava no 5º ano e não tinha vícios nem costumava sair com os amigos para farras ao fim de semana.
Era tímido e pacato. Contribuia para as despesas da casa e era considerado um rapaz responsável e ajuizado.
Não tinha namorada mas nos fins de semana ia ao cinema ou a um jogo de futebol, sempre sozinho.
Os pais notavam que ele era reservado e passava tempo demais na privacidade do quarto que não queria dividir com os irmãos, e onde ninguém podia entrar.
No quarto sempre fechado, guardava no roupeiro, escondido nas roupas, um arquivo que actualizava todas as noites.
Por ordem alfabética, tinha as fichas de todas as mulheres do bairro com as mais diversas informações que considerava importantes.
A idade e a situação cívil encabeçavam os registos. Depois tinha anotado o local de trabalho, horários de saída e regresso a casa, etc…
Ainda não sabia bem o que queria fazer com aquelas mulheres. Esperava por um sonho ou um acontecimento especial que lhe indicassem um caminho.
Entretanto, começou a passar os fins de semana a percorrer a mata do Monsanto, a espreitar os casalinhos que namoravam…
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Mensagem por Anarca em Sab Nov 29, 2008 3:57 am

III - Manuel

Tinha sido um dia divertido...
Manuel e o primo, espreitavam pelo buraco do portão para a pedra que tinham embrulhado em papel de jornal, mesmo em frente da porta do Toninho, que só pensava em futebol...
Era o filho da dona da mercearia, onde o tio gostava muito de mandar o primo ir comprar dez tostões de electricidade em pó...
O Toninho adorava jogar à bola, e nunca perdia a oportunidade para praticar em tudo que encontrava no chão, enquanto corria de casa para a mercearia.
Manuel e o primo esperavam que o Toninho, ao sair de casa, não conseguisse resistir àquela bola de jornal mesmo a jeito...
Começava a escurecer, e o dia teria sido ainda mais divertido se não tivesse acontecido aquele acidente com o tio.
Tinham observado tudo, instalados na figueira da encosta, enquanto comiam os figos mais maduros sem deixar de espreitar o dono que teimava em preferir que os figos caíssem para o chão, a deixar alguém colhê-los...
Por entre as folhas, bem escondidos, Manuel tinha visto muito bem o tio levar com uma roda pedaleira de bicicleta na cara.
O ladrão, antes de fugir, tinha-lhe deixado bem marcados na orelha os bicos da roda.
- Já viste quem lá vem ?... - o primo parecia assustado.
Manuel espreitou e reparou que a leiteira com a bilha na cabeça iniciava a distribuição de leite aos clientes da rua...
A bola de jornal estava mesmo irresistível...
A leiteira espalha-se ao comprido, com a bilha a rebolar no empedrado e o leite a sair às golfadas.
A rua fica num pandemónio em segundos, com os alucinantes gritos de dor da leiteira a sobressaírem na barafunda...
O Toninho tinha de ficar para outro dia...
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Mensagem por Zé do Telhado em Sab Nov 29, 2008 6:19 am

Espero que continue com este tema.
Estas histórias são de quando? É de algum livro?

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