QUADROS ANTIGOS....

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Mensagem por Anarca em Sab Nov 15, 2008 10:11 am

Relembrando a primeira mensagem :

I - Luísa

Os pais da Luísa tinham uma grande fazenda de café na província do Uíge, mesmo junto à fronteira com o Congo.
Partiram da aldeia onde tinham nascido e casado, saturados de beijar a mão ao Padre que governava todas as vidas com o apoio do Chefe do Posto da Guarda Nacional Republicana.
Os primeiros meses naquelas terras desertas foram bem difíceis de passar, debaixo de uns panos de lona e rodeados de bicharada e negros que só entendiam o que lhes convinha.
Rapidamente se habituaram ao cheiro a catinga, mas o pior era quando os pretos falavam entre eles uma linguagem estranha e riam muito.
Só podiam estar a gozar os brancos…
Até os sipaios ao serviço da Administração da Circunscrição pareciam dançar quando marchavam…
No dia em que a casa ficou pronta, o pôr do sol veio dar com eles sentados no alpendre à sombra das acácias.
Muito ao longe, atrás de árvores frondosas, conseguiam ver as pequenas cubatas dos sipaios, com as suas muitas mulheres a tagarelarem todo o dia, e os grandes telheiros onde se abrigavam os negros contratados para os trabalhos públicos.
O destino dos negros tinha mudado. Os brancos eram agora os donos das terras, e os comerciantes já nem sequer pagavam aos sobas para exercer o comércio…
Os sipaios apareciam nas sanzalas, de farda e espingarda, a falar em nome das autoridades.
- É branco do Governo que manda! - diziam eles invadindo as cubatas para levar negros para irem trabalhar para os brancos.
Agora, eram os pais da Luísa que governavam com o apoio do Administrador da Circunscrição…


Última edição por Anarca em Sex Fev 20, 2009 10:53 am, editado 5 vez(es)
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Mensagem por Admin em Dom Fev 01, 2009 2:23 am

Anarca escreveu:As mãos estavam crispadas em torno dos punhos das G-3 e as línguas retesadas dentro da bocas secas. As gotas de suor rolavam nas testas e os lábios mordiam a vontade de fumar um cigarro.
Para Manuel, esta sensação única seria inesquecível enquanto vivesse.
No entanto, nem tanta precaução parecia ter resultado. A sanzala estava vazia, e apenas as galinhas vagueavam assustadas por entre as palhotas.
A mata foi inspeccionada palmo a palmo, encontrando-se vestígios nítidos da fuga precipitada. De repente, um vulto sai a correr de trás de um embondeiro, com tanto azar que esbarra de frente com a 2ª Secção.
- Fica aí meu cabrão…
O negro, de tão assustado, não conseguia falar…
- Este gajo é turra … - Assegurava o Alfama.
- Talvez não…
- Furriel, eu trato dele…
- Quantos mataste já ?… - e puxava-o por uma orelha para uma sombra mais afastada.
- …
- Olha lá, onde é que estão as minas ?… - acompanhava as perguntas com bofetadas cada vez mais fortes.
- Não saber, meu cabo…
- Porque é que andas a matar brancos ?…
Não lhe saía da cabeça o camarada e amigo que tinha pisado uma mina havia poucas horas, sem pernas, a dizer que lhe doíam muito…
- Não saber ! Não saber ! - ia repetindo, cada vez mais aterrorizado, o negro.
- Os brancos fizeram-te algum mal ?…
- Não matou, não…
Estava farto daquela guerra que parecia nunca mais acabar… Constava que os pretos até já tinham misseis…
- Onde é que estão os misseis ?…
- Eu não sabe…
- Não queres dizer, meu cabrão ?…
- Eu tem filhos pequinino… - apelava.
- Quantos mataste ?… - perguntava, sem ligar à mulher e aos filhos pequenos.
Atirou-lhe uns pontapés para lhe avivar a memória, e depois puxou ostensivamente a culatra da G-3, despertando a atenção de Manuel que consultava os mapas…
- Eu não sabe…
- Estás a mentir, cabrão !…
- Eu não sabe nada, meu cabo…
O Alfama chegou à conclusão de que não se podia fazer nada com aqueles pretos.
- Vai lá embora então… e apontava o trilho com o cano da espingarda.
- …
- Vai embora meu cabrão !…
Manuel estava paralizado, sem saber o que fazer.
- Jura mesmo, meu cabo ?…
- Ai a merda…
Lentamente, o negro foi-se afastando muito assustado sem virar as costas. Quando o Alfama levantou a G-3, caiu de joelhos.
- Eu não…
A rajada cortou-lhe a voz.
Manuel não queria acreditar no que tinha acontecido…
O Alfama mudava o carregador enquanto regressava para junto dos restantes que, após uma estranha troca de olhares, voltavam a vigiar atentamente o mato…
- Furriel, o turra ia a fugir … - justificou-se o Alfama.
Como podia o Manuel explicar ao Alferes o que tinha acontecido…
Que pensariam aqueles que nunca tinham conhecido o ódio?…

Ressalvo aqui a possibilidade de fazer um comentario a este quadro de que gostei
Ele é curto o que torna a arte do conto muito dificil e sabe amanahr o retrato psicologico de quem ve na guerra um escapa para os seus traumas internos onde os conflitos assassinos encontra na selva a capacidade de fazer sangue
Esta é a grande arma do anarca que sabe agarrar o tema das paixões pelos tomates ( salvo seja )
É assim que as grandes obras o foram porque souberam escovar as personagens do pó da estrada
Exstes contos teem garra e substancia
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Mensagem por Anarca em Dom Fev 01, 2009 11:23 am

O Aquartelamento estava a poucos quilómetros da fronteira, numa zona de passagem dos grupos terroristas que vinham fazer incursões no território nacional.
O Grupo de Combate devia ser agressivo e servir de tampão para esses grupos, mas a vontade de passar a comissão em paz era mais importante do que facturar baixas inimigas para incluir nas estatísticas.
O campo estava cercado de arame farpado, e uma zona de minas logo a seguir a toda a volta incutia alguma segurança, mesmo quando durante a noite, os turras ao passar, não se esqueciam de enviar um morteiro como saudação.
O abastecimento da água era essencial, sendo necessário percorrer um trilho bastante íngreme, até uma linha de água que ficava num vale, onde se enchiam os bidões.
O receio de uma emboscada durante o trajecto provocava amiúde vitimas entre os macacos, porque a tensão era tal que, ao menor ruído, as G-3 não se continham...
A água corria fresca e abundante, com uma ligeira coloração castanha, devido à argila que dá àquela terra a tonalidade avermelhada.
Um dia, no regresso encontraram uma velhota negra que se dizia perdida, acabando por a levar para o Aquartelamento.
O Alferes ficou desconfiado...
- Quem é que te mandou ?...
- Nada. Veio mesmo na minha vontade...
- Mas estiveste com os terroristas, eu sei... - dizia o Alferes que já estava quase convencido.
- E atão ?! Ter que comer... Mas eu fugiu...
Acabaram por lhe dar do rancho que comeu com gosto.
Quando a noite caiu, Manuel sentiu que algo se passava no abrigo circular onde estava o canhão sem recuo.
Teve uma noite agitada... Sonhou que a negra se tinha transformado na velha da ponte...
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Mensagem por Anarca em Seg Fev 02, 2009 12:50 pm

Foi precisamente durante a licença em Luanda, no “treme-treme”, que teve conhecimento que o Pedro tinha sido mobilizado para Angola.
Amaldiçoava a oportunidade da notícia quando viu entrar uma mulata que tinha conhecido na Mutamba nesse mesmo dia.
Já eram coincidências a mais, e teve receio do que mais lhe podia ainda acontecer...
O “treme-treme” ficava num edifício alto que se destacava dos outros mais antigos e mais baixos.
Era o bordel mais conhecido de Luanda, e o nome tentava expressar o que se passava, quando a rapaziada vinha toda do mato para a cidade, ao fim de alguns meses sem ver mulheres.
Alguns mais crédulos acreditavam mesmo que um pelotão inteiro esfomeado já tinha feito tremer o edifício.
- Como te chamas ?... - perguntou-lhe Manuel enquanto lhe oferecia a cadeira a seu lado.
- Porquê ? - iniciava um jogo já muito praticado.
- ...
Acabou por se sentar e pedir uma bebida.
- Podemos ir para minha casa... - convidou sem mais rodeios
Manuel estava avisado para evitar aventuras daquelas, mas tudo parecia não importar.
A noite estava quente e seca. Adivinhou a pele macia por baixo do vestido de algodão bem apertado nas ancas, que tão bem identificavam as mulheres de cor.
As mulheres brancas tinham normalmente ancas estreitas, mas ele gostava do que via enquanto a seguia escadas a cima.
Quando a viu tirar o vestido entendeu porque estava ali...
- Não tens companheiro ?...
- Agora não... Vem... Chamo-me Adelaide...

Adelaide tinha sido uma menina com tudo para ter o mesmo destino da mãe, simples dona de casa. O pai era funcionário administrativo nas Finanças, e o salário lá ia dando para alimentar a família.
Viviam numa casinha modesta num bairro popular, que o avô - um branco que Adelaide nunca conhecera - tinha oferecido à mãe.
Tinha frequentado a creche, e acabou a Instrução Primária, feita numa bonita moça, com uma pele morena que revelava bem as suas origens.
Aos 14 anos já tinha tido muitos namorados, mas nada sério.
Quando começou a ser procurada por rapazes bem mais velhos que insistiam num envolvimento mais íntimo, resistia sempre aos avanços apesar de inexperiente.
Foi praticamente violada aos 15 anos por um vizinho que tinha 22 anos, e uma fama de marginal que aterrorizava todo o bairro.
Tinha jurado a si mesma que nunca mais nenhum homem a teria, mas um dia conheceu um negro que era diferente de todos os outros…
Só depois constatou que ele era violento, ruim e cruel.
Um dia, estava deitada na cama com os olhos fixos no tecto, quando decidiu partir…
Meteu algumas peças de roupa num saco e partiu para ir ver o mar.
Passeava na praia sem saber o que fazer à vida, quando encontrou o João.
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Mensagem por Anarca em Ter Fev 03, 2009 2:50 am

Na juventude, o João prometia ir longe. Finalista de direito, já trabalhava num escritório de advogados em Lisboa e estava praticamente noivo da filha do patrão, também colega.
De repente, sem mais nem menos partiu para Angola. Abandonou os pais, a faculdade, a noiva e os amigos.
As terras sem dono esperavam por quem chegava sem passado. Em poucos anos era proprietário de uma gigantesca propriedade, banhada por um rio que desaguava numa praia, a que chamava sua enseada.
A mulata Adelaide conhecera-o na praia onde organizava a pesca, de balança ao lado, sentado no trono de onde tudo dirigia e recebia os que lhe vinham prestar vassalagem e pedir a benção.
Com sessenta e quatro anos era o padrinho de todos...
O corpo de Adelaide despertou-lhe o desejo enquanto se lambuzava com as mangas e os mamões.
A maré baixava enquanto as mulheres procuravam marisco na areia.
A partir desse dia, Adelaide passou a viver com ele...
Não tinha ciúmes quando o João ia ao encontro das jovens negras que tomavam banho de mar, com os vestido de algodão colados ao corpo.
Observava o ritual da aproximação, quando ele boiando de costas na água morna as sentava no colo e lhes beijava o pescoço dengoso, enquanto elas desabotoavam o vestido e revelavam os seios rosados e vivos.
A partir daí Adelaide afastava o olhar...
Os empreendimentos turísticos estavam a invadir aquela zona, mas o João nem pensava em tal coisa...
Todos os dias apareciam compradores para a sua enseada, mas ele nem os ouvia.
Um dia teve a visita de uma empresa de empreendimentos turísticos que se fazia representar por um advogado muito educado e uma secretária loura que lhe recordou a noiva e antiga paixão.
Chamava-se Marta e tinha uns olhos azuis que pareciam sorrir quando contemplavam a enseada.
O advogado apresentou a proposta da empresa. A oferta incluía como bónus, o acesso permanente e gratuito, do hotel, dos restaurantes e bares, e de toda a estrutura de lazer.
Eles não compreendiam o que ele era rei num paraíso...
Dois dias depois, Marta veio visitá-lo à praia.
- Antes de me ir embora, gostava de conhecer melhor o seu reino. Não é pedir muito ?... - pediu-lhe enquanto tirava os sapatos de salto alto.
Desatou os cabelos, que cairam como uma cascata dourada pelas costas abaixo e começou a correr pela areia molhada de braços abertos.
De repente, Marta tirou o vestido e correu para a água.
João sentia o coração a saltar. Ela chapinhava nas ondas e gritava com a alegria de uma criança. Regressou em passos lentos, fazendo escorrer o cabelo molhado entre as mãos e sem tentar esconder a sua nudez.
A empresa fazia um levantamento completo de todos os potenciais clientes.
As recordações saíram em golfadas...
João tinha largado tudo havia cinquenta anos, porque a mulher que ele queria o tinha trocado por alguém mais rico e brilhante. Abandonara tudo e tinha resistido graças à vida que construira na enseada.
- Ela era linda e loura como a Marta. Tinha os seus olhos azuis e usava aquele perfume... que ele não sentia há tantos anos.
- João, sempre sonhei com este instante. - olhava-o com um brilho azul nos olhos enquanto lhe acariciava o rosto. - Desde criança que sonho com um homem selvagem e delicado, bem mais velho que eu. Gosto de homens mais velhos.
Passearam até o entardecer matando a fome com as frutas que encontravam pelo caminho.
Marta mudara a sua vida...
A enseada não se podia comparar a ela...
Em poucos dias as máquinas invadiram a praia.
Depois da venda, Marta tinha ido a Lisboa tratar da papelada para o casamento.
Os tractores arrasavam as palhotas e a enseada ia ficando rodeada de vedações e seguranças armados.
O desespero de João ia crescendo dia após dia, até que teve conhecimento de que ela não se chamavava Marta e que tinha sido promovida devido à sua eficiência...
De repente, sem mais nem menos, partiu para o interior de Angola. Abandonou a enseada, a Adelaide e os amigos...
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Mensagem por Viriato em Ter Fev 03, 2009 10:03 am

Admin escreveu:
Anarca escreveu:As mãos estavam crispadas em torno dos punhos das G-3 e as línguas retesadas dentro da bocas secas. As gotas de suor rolavam nas testas e os lábios mordiam a vontade de fumar um cigarro.
Para Manuel, esta sensação única seria inesquecível enquanto vivesse.
No entanto, nem tanta precaução parecia ter resultado. A sanzala estava vazia, e apenas as galinhas vagueavam assustadas por entre as palhotas.
A mata foi inspeccionada palmo a palmo, encontrando-se vestígios nítidos da fuga precipitada. De repente, um vulto sai a correr de trás de um embondeiro, com tanto azar que esbarra de frente com a 2ª Secção.
- Fica aí meu cabrão…
O negro, de tão assustado, não conseguia falar…
- Este gajo é turra … - Assegurava o Alfama.
- Talvez não…
- Furriel, eu trato dele…
- Quantos mataste já ?… - e puxava-o por uma orelha para uma sombra mais afastada.
- …
- Olha lá, onde é que estão as minas ?… - acompanhava as perguntas com bofetadas cada vez mais fortes.
- Não saber, meu cabo…
- Porque é que andas a matar brancos ?…
Não lhe saía da cabeça o camarada e amigo que tinha pisado uma mina havia poucas horas, sem pernas, a dizer que lhe doíam muito…
- Não saber ! Não saber ! - ia repetindo, cada vez mais aterrorizado, o negro.
- Os brancos fizeram-te algum mal ?…
- Não matou, não…
Estava farto daquela guerra que parecia nunca mais acabar… Constava que os pretos até já tinham misseis…
- Onde é que estão os misseis ?…
- Eu não sabe…
- Não queres dizer, meu cabrão ?…
- Eu tem filhos pequinino… - apelava.
- Quantos mataste ?… - perguntava, sem ligar à mulher e aos filhos pequenos.
Atirou-lhe uns pontapés para lhe avivar a memória, e depois puxou ostensivamente a culatra da G-3, despertando a atenção de Manuel que consultava os mapas…
- Eu não sabe…
- Estás a mentir, cabrão !…
- Eu não sabe nada, meu cabo…
O Alfama chegou à conclusão de que não se podia fazer nada com aqueles pretos.
- Vai lá embora então… e apontava o trilho com o cano da espingarda.
- …
- Vai embora meu cabrão !…
Manuel estava paralizado, sem saber o que fazer.
- Jura mesmo, meu cabo ?…
- Ai a merda…
Lentamente, o negro foi-se afastando muito assustado sem virar as costas. Quando o Alfama levantou a G-3, caiu de joelhos.
- Eu não…
A rajada cortou-lhe a voz.
Manuel não queria acreditar no que tinha acontecido…
O Alfama mudava o carregador enquanto regressava para junto dos restantes que, após uma estranha troca de olhares, voltavam a vigiar atentamente o mato…
- Furriel, o turra ia a fugir … - justificou-se o Alfama.
Como podia o Manuel explicar ao Alferes o que tinha acontecido…
Que pensariam aqueles que nunca tinham conhecido o ódio?…

Ressalvo aqui a possibilidade de fazer um comentario a este quadro de que gostei
Ele é curto o que torna a arte do conto muito dificil e sabe amanahr o retrato psicologico de quem ve na guerra um escapa para os seus traumas internos onde os conflitos assassinos encontra na selva a capacidade de fazer sangue
Esta é a grande arma do anarca que sabe agarrar o tema das paixões pelos tomates ( salvo seja )
É assim que as grandes obras o foram porque souberam escovar as personagens do pó da estrada
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Fotografia tirada por mim, clandestina, em Nambuangongo, 1966. Este desgraçado ia a pé numa picada. Tudo leva a crer que era um agricultor. Desarmado. Foi apanhado. Tudo o que mexia era turra. Amarrado e puxado por um jipão, acabou por morrer. Foi talvez, a pior sensação que tive na minha vida. Tive que ir para o meu quarto chorar ás escondidas... E se relembro isso hoje e aqui, o que provoca sempre uma tristeza e raiva enormes, é só para completar o texto do anarca. O que ele escreve não é ficção. Passou-se.
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Mensagem por Anarca em Ter Fev 03, 2009 10:08 am

Manuel continuava deitado na cama, ainda sonolento da noite muito pouco dormida.
Não sabia bem se queria estar ali...
Olhava para Adelaide nua, que se penteava diante do espelho.
Era uma visão que o acalmava, e ficou recostado na cabeceira da cama a observar a escova a lutar contra aqueles cabelos negros.
Adelaide penteava os cabelos e dava a impressão de estar namorando a si mesma. A escova passeava várias vezes pelo mesmo lugar, enquanto ela se admirava com um ar de alegria no seu rosto.
Manuel acabou por se levantar da cama e ir até à janela contemplar o dia que se iniciava. O sol já ia alto e as pessoas e os carros pareciam todos saber para onde ir.
Aquela mulher que estava ali diante dele, não era a Lurdes que esperava por ele...
Quando saíram, caminharam sem rumo de mãos dadas. A desculpa de Manuel era de que se sentia muito só.
Foi Adelaide quem por fim falou.
- Sabes uma coisa? Eu quando gosto de alguém, gosto mesmo...
Ele beijou-lhe a mão mas não disse nada. Entendeu a mensagem e ficou triste por a ir magoar.
Foram caminhando até chegarem junto do Clube Naval, com a Ilha do Mussulo em frente.
Caminharam pela areia da praia com os pés descalços. Sentados na areia, observavam as ondas sempre mansas que lambiam a areia.
Ao longe o mar misturava-se com o céu.
Quando ela lhe perguntou o que existia para lá do mar, ele repondeu:
- Ninguém...
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Mensagem por Anarca em Ter Fev 03, 2009 1:09 pm

Sentado na esplanada do Farol da Ilha de Luanda, Manuel assistia às mais variadas maneiras de ganhar dinheiro…
Os miúdos tinham ideias geniais e mirabolantes que podiam servir de exemplo para muitos empresários menos empreendedores.
Em pequeno, Manuel queria ser rico, mas os sermões dos padres a condenar a riqueza acabaram por o demover.
Recordava especialmente aquele aviso que dizia que era mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que um rico entrar no reino dos Céus…
Quando descobriu que o famoso buraco da agulha tinha a ver com as portas laterais de Jerusalém, pela qual os camelos só passavam depois de despojados da carga, já era tarde demais.
Felizmente aqueles miúdos não iam à Missa.
O Pedro já lhe tinha dito que a miséria nos países meridionais era por culpa da Igreja que condenava o lucro, contrariamente às correntes religiosas do Norte da Europa.
Mas o Pedro em pequeno, não tinha o livro com a história do sapateiro pobre e feliz, que quando ficou rico passou a ser infeliz…
Não devia ler as notícias nos jornais, com as desgraças dos ricos que não tinham sorte no amor…
As famílias pobres e com muitos filhos é que eram mesmo felizes.
Para Manuel, agora já era tarde.
Um miúdo vendia colares, anéis e pulseiras que tinha feito.
O Cebola fazia anéis com moedas de um escudo, que vendia por cinco. As vendas corriam tão bem, que já pensava em ficar rico.
Vendia tantos anéis na praia, que acabaria mesmo por enriquecer se não tivesse chamado a atenção das autoridades.
O Cebola estava a faltar ao respeito a um símbolo nacional, e a multa que teve de pagar deixou-o na miséria.
Em pequeno, o Manuel queria mesmo ser rico, mas agora reconhecia não chegar aos calcanhares dos miúdos Angolanos, que eram realmente uns profissionais liberais de excepção…
Quando as chuvas de Verão alagavam as ruas de Luanda tornando-as intransitáveis, logo apareciam os miúdos com pneus que alinhavam na rua para os peões atravessarem sem molhar os pés, a troco de umas moedas.
Nas arcadas da Mutamba, onde se situavam as sedes das Empresas mais importantes, era sempre possível encontrar um miúdo com um desodorizante em spray, que se vendia em aplicações de cerca de um segundo cada. Todos podiam ir à entrevista a cheirar a lavanda…
Os cigarros também se vendiam à fumaça. O único inconveniente tinha a ver com a necessidade de se ter de reunir os clientes necessários para um cigarro inteiro…
Uma tarde, Manuel encontrou o Cebola que tinha voltado à actividade com um negócio inovador - transporte de bêbados.
Tinha reparado que os motoristas de táxi se recusavam a transportar pessoas embriagadas…
Corria durante a noite os bares e discotecas de Luanda, com o carro do vizinho que tinha os pneus lisos e a portas recuperadas ainda por pintar.
A troco do pagamento da gasolina mais uma coisinha para a mecânica, transportava toda a gente - com pagamento adiantado.
Oferecia ainda um serviço personalizado que consistia em levar o passageiro mesmo até à cama, a troco de um pequeno extra.
No entanto, avisava sempre que vomitar ou mijar no carro implicava um pagamento adicional.
Um dos truques do Cebola era conduzir aos solavancos e por cima de todos os buracos, para eles vomitarem…
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Mensagem por Anarca em Ter Fev 03, 2009 2:25 pm

O nascimento do Menino Jesus representava a vitória da luz sobre as trevas, mas Manuel já não sabia bem onde estavam os terroristas.
Era véspera de Natal e não ia passar a consoada junto da família, nem observar a alegria do Joaquim Sacrista com o resultado do peditório da Missa do Galo.
Em que pensaria a Lurdes junto ao cepo do Natal que costumava arder durante toda a noite no adro da igreja?...
O ambiente no Aquartelamento traduzia tristeza.
As mensagens de Natal transmitidas pela televisão conseguiram arrancar alguns momentos de boa disposição, mas o melhor foram as caixas com bolo-rei oferecidas pelo Movimento Nacional Feminino.
- Vamos ter batatas cozidas com bacalhau e azeite do bom... - anunciava o Alferes.
- E as couves, meu Alferes?... - o Alfama nunca se calava.
- Aqui não há couves dessas... e já agora, as sentinelas têm de ser redobradas.
- Lá estou a alinhar... - refilava o Alfama.
A consoada decorreu num ambiente agradável, à luz do Petromax sem árvore de Natal, nem chaminé para pendurar as meias ou colocar as botas.
Manuel só gostava de saber se os terroristas estavam a comemorar o Natal, e que prenda pediam ao Menino Jesus...

- Cabrões ! - com uma palmada em cheio, o Alfama esborrachou o mosquito contra o pescoço. - Já não me lixas mais.
Estava farto, com os tornozelos e os nós dos dedos dolorosamente inchados de tanta ferroada.
Em redor do aquartelamento, à volta dos postes de iluminação, os mosquitos formavam nuvens.
- Malditos mosquitos. Não basta este calor...
Com a G-3 no parapeito do posto de vigia olhava para a vegetação envolvida pela noite, que se elevava para além do anel de luz das lâmpadas da periferia do aquartelamento.
Por instantes, pareceu-lhe ouvir um ruído estranho e esqueceu-se dos mosquitos. O ressonar dos outros dois camaradas mesmo a seus pés, serenou-o.
Uma noite de Natal bem passada...
Os ponteiros fluorescentes do relógio de pulso indicavam quatro horas da madrugada. Dentro de três quartos de hora despertaria o Melro para o render. Seria a sua vez de ferrar o galho, se fosse capaz.
Apetecia-lhe fumar um cigarro mas a imagem ameaçadora do Alferes sobrepôs-se ao desejo
- Sentinela! Eh sentinela ! - chamava o Alferes.
Por estar a pensar nele, levou tempo a responder.
- Estavas a dormir, logo na noite de Natal ?...
- Aqui não há sono, meu Alferes.
- Podia passar por aqui uma camionete de turras que não davas por nada. Vamos lá a ver se abres os olhos...
Alfama ficou mais aliviado quando os passos do Alferes se afastaram. Olhou o relógio e já passavam três minutos.
- Melro, está na hora, vamos a acordar!...
- Já ? - erguia-se estremunhado.
- Vá...
- Logo agora que estava a sonhar com a mulher do Alferes...
- Não tenho sono. Fico contigo um bocado.
- Saudades ? Deixa lá que qualquer dia chega o correio.
Falavam em surdina como se tivessem medo de atrair os mosquitos que tinham acalmado.
- Sabias que o meu filho fez ontem um ano ?.. - dizia o Alfama, com comoção. - Fez ontem um ano que ele nasceu em Paris.
- Tu estavas na França?... Voltar para fazer a tropa ?...
- Comecei a pensar que nunca mais poderia regressar a Portugal... Mas
quando esta caca acabar, volto para França.
- Dizes bem, esta caca.
Subitamente, um estampido ecoou na noite, logo seguido duma rajada.
O aquartelamento despertara.
- Será um ataque ?.. - perguntava o Alfama de dedos crispados na G-3.
- Calma - aconselhava o Melro. - Não me parece coisa grave.
- Sentinela ! - gritaram lá de baixo.
- Quem está aí ? - perguntaram em coro.
- É o Alferes. Ainda não é desta que vão morrer. Foi um falso alarme.
- Eles que venham, meu Alferes! - o Alfama soltou uma risada de alívio. - Já estava a contar em limpar alguns...
O Alfama nunca se calava...

Manuel já tinha ouvido o Alferes dizer que os turras utilizavam o princípio da Arte da Guerra de Sun Tsé.
Parecia que o Mão Tsé Tung e o general vietnamita Vo Nguyen Giap também já tinham utilizado essas tácticas com êxito.
A verdade era que quando avançavam, os turras fugiam...
Quando a tropa parava eles chateavam...
Se não queriam combater, os terroristas atacavam...
Quando precisavam de retirar, os pretos vinham atrás deles...
Parecia mesmo que os turras estavam a utilizar os tais princípios.
Manuel tivera medo de perguntar ao Alferes o que andavam ali a fazer, a combater contra aquelas tácticas que já tinham derrotado Chineses e Franceses...
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Mensagem por Anarca em Ter Fev 03, 2009 2:58 pm

VI - O Inferno

A FAP - Força Aérea Portuguesa - possuia dois aviões Boeing 707 para transporte do pessoal entre Portugal e as províncias ultramarinas.
Pedro chegou ao Aeroporto de Lisboa à hora prevista.
Só podia ser transportada uma companhia de cada vez, e era logo a CCS - Companhia de Comandos e Serviços - que seguia em primeiro lugar.
O embarque era efectuado de uma zona reservada à força aérea. O 707 sob as luzes dos holofotes, todo branco com uma risca azul ao meio e uma cruz latina vermelha no bojo, tinha um aspecto ameaçador.
A viagem demorou perto de 10 horas, mas não conseguiu pregar olho.
Ao sobrevoar Luanda viu uma cidade desordenada onde coexistiam edifícios modernos de grande altura com zonas de barracas miseráveis.
A aerogare, tinha sido invadida por bandos de miúdos negros que pedinchavam à volta dos soldados e ofereciam ajuda para as bagagens.
De repente, descortinou Manuel que o observava, calado e sorridente.
Trocaram um longo abraço, e Pedro recordou quando o conhecera no comboio, num momento em que tanto precisava de companhia.
Como agora...
- Estás em grande, meu malandro...
- Ai Pedrinho, Pedrinho...
Subiram para os camiões e aproveitaram a viagem até ao Grafanil para meter a conversa em dia.
Já no bar, e depois de umas cervejas recordaram a recruta que tinham feito juntos.
- Continuas com as tuas idéias do contra ?... - perguntou Manuel com ar sério.
- Podes crer...
- Olha que a Pide aqui não brinca...
- Sabes que estou a pensar em fundar um Partido Político ?...
- Fala baixo... - avisou Manuel enquanto olhava em redor, desconfiado.
- A sério... Já tem nome. Partido Anarco-Cristão... Só falta escrever os Estatutos.
- ...
- Já pensaste como seria viver numa sociedade sem classes em que a Constituição fosse baseada na Doutrina Social da Igreja?...
- Da Igreja ?...
- Na Doutrina meu rapaz, não na prática...
Um silêncio caiu entre eles, mas finalmente Manuel foi direito ao assunto.
- Como é que estás ?...
- Vou-me pirar... - olhou-o fixamente. - A Luísa está a tratar de tudo...
- Não és o primeiro, mas cuidado...
- E tu ?...
- O pior já passou. Agora estou-me nas tintas...
- Vem comigo !
- Já não vale a pena...
- Não digas isso. Na metrópole a oposição à guerra cada vez é maior. Vamos perder esta guerra, toda a gente sabe que não se conseguem derrotar desgraçados de barriga vazia. O que é que estes infelizes têm a perder, diz lá... Como se ganham guerras contra quem não tem nada para perder?...
- Tu na recruta já não batias a bola muito bem, mas agora estás passado de todo...
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Mensagem por Anarca em Qua Fev 04, 2009 4:39 am

Manuel levou-o a conhecer a cidade.
Agora mando eu... - avisou na brincadeira
Começaram pela Fortaleza de Luanda, mas Pedro queria era conhecer a ilha do Mussulo que Luísa lhe aconselhara.
- Tem calma... Agora vais ver a Ilha de Luanda.
Uma língua de terra penetrava pelo mar a sul de Luanda.
- Olha lá, mas tu sabes o que é uma ilha ?... Isto é alguma ilha ?...
- Não viste a ponte ?... - Manuel já estava a perder a paciência.
A visão da baía com a cidade meio iluminada, conquistou Pedro.
- Esta vista é muito gira...
Perto da Fortaleza, um edifício bastante alto e moderno chamou-lhe a atenção.
- É o “treme-treme” meu malandro...
- É o quê ?...
- É uma supresa...
Depois de o levar até à esquina do Banco de Angola, à Torre do BCA, à Alfândega e ao porto de Luanda, deu por completa a visita guiada.
- E o Mussulo ?... - perguntava Pedro teimosamente.
- Isso é amanhã, calma...

No Grafanil, Pedro apanhou com um sargento que pensava ser oficial da Gestapo. Era um ditador para todos os subordinados, como se fossem eles os culpados de não ser promovido.
Faltava-lhe instrução, embora tivesse feito o curso para Sargentos em Lamego.
Os soldados gozavam quando ele chamava gurita à guarita…
- Meu Sargento, sabe quem está de guarda na gurita ?… - perguntava o brincalhão do Cabo Andrade, que era o único que não o levava a sério.
Comentava-se no Quartel que o Sargento Escova era sempre o maior engraxador em todas as Unidades onde servia, e que só tinha chegado aquele posto por favor...
Iniciou-se na vida militar como soldado raso...
Mal foi promovido a cabo, começou logo a criar fama e terror no meio dos recrutas.
Mesmo durante as folgas oferecia-se aos oficiais para serviços domésticos, ou para acompanhar as esposas às compras.
A disciplina era o seu credo e cumpria à risca todas as obrigações...
- A Pátria está acima de tudo !... - repetia a todo o momento.
A farda estava sempre impecável, e, por vezes, metia no peito duas medalhas que eram um mistério para todos...
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Mensagem por Anarca em Qua Fev 04, 2009 7:26 am

Luanda estava a ser sacudida pela tragédia que se tinha abatido sobre o bairro da Cuca.
As vítimas do Kaporroto envenenado já ascendiam a 30 pessoas.
Na falta do malufe - uma bebida esbranquiçada e gosto exótico, levemente alcoólica, obtida com a seiva fermentada das palmeiras - os retalhistas apostavam no Kaporroto - bebida feita de milho, açúcar e fermento.
Mas como a inovação é essencial ao negócio, um vendedor mais empreendedor lançou no mercado o Kimuengue cujo fabrico era simples e muito mais rápido.
Num tambor de duzentos litros ferviam-se quarenta quilos de cana de açúcar durante três horas, bastando depois adicionar um litro de jet fuel - combustível de avião - para a bebida estar pronta a ser ingerida.
A concorrência e os inimigos do progresso começaram logo a dizer que o Kimuengue trazia complicações à saúde, desde a impotência sexual, a diarreia de sangue, tuberculose, etc…
Eram uns invejosos…
Então, os frequentadores assíduos de uma casa de venda de Kaporroto, no bairro da Cuca, começaram a “bater a caçuleta” e os familiares contavam que eles sempre tinham bebido Kaporroto e nunca acontecera nada, mas, desta vez depois de beberem, tinham começado a sentir falta de ar e a perder a visão.
No entanto, os apreciadores de Kaporroto continuaram a “varrer” aquela bebida, e os grandes fabricantes transferiram as instalações para locais mais seguros.
Os Comandos Militares não estavam atentos ao potencial do Kaporroto no esforço de guerra.
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Mensagem por Anarca em Qua Fev 04, 2009 9:36 am

Luanda estava cheia de miudagem que se dizia chamar Cebola ou Corno.
Quando Manuel estacionou o carro que o Cabo Andrade lhes tinha emprestado, logo apareceram vários miúdos a oferecerem os serviços de guarda à viatura.
Pedro olhava para eles indeciso, enquanto a barulheira subia de tom.
- Amigo, sou o Cebola! - dizia um a bater com a mão no peito.
- Mentira! O Cebola sou eu!… - dizia outro que chegava a correr.
- Amigo, eu sou o Corno! - exclamava um mais pequeno.
- O amigo é que manda!… - gritava um mais velho, tentando pôr alguma ordem na confusão. - O Cebola mesmo, sou eu…
O Manuel já estava habitudo àquele ritual.
Pedro, queres ver como é?… - dizia Manuel enquanto levantava os braços para chamar a atenção dos miúdos, que aumentavam de número a cada instante.
Os guardas privados da esplanada, de mangeira na mão a servir de cassetete, estavam prontos a intervir…
- Hoje, quem me vai guardar o carro é o Sacana! Onde está o nosso grande Sacana?… - perguntava Manuel.
- Amigo, sou eu o Sacana!… - berrava um enquanto tentava chegar-se à frente.
- É mentira! Sou eu! Sou eu! - gritava outro
- Sacana mesmo sou eu! Sou eu mesmo!… - dizia outro aos saltos.
- Amigo, eu lavo o carro… - oferecia o Sacana mesmo.
- Calma!… - atalhava o Manuel. - Ninguém lava o carro!
Os miúdos costumavam lavar os carros sem ninguém lhes pedir e ficar à espera da gorjeta. Lavar é uma força de expressão, porque o que eles faziam era borrar o carro, nomeadamente os vidros…
- Calma!… - continuava o Manuel. - Eu pago é a quem não deixar lavar o carro…
- Amigo, eu!… - gritava o Sacana mesmo. - O amigo é esperto, com o carro sujo o ladrão não leva…
- É isso mesmo… - respondia apalermado o Manuel.
Chegava outro carro, e o bando de miúdos atacou logo.
- Amigo, sou o Cebola! - dizia um.
- Mentira! O Cebola sou eu!… - dizia outro.
- Amigo, eu sou o Sacana! - exclamava o Sacana mesmo.
- Eu sou o Corno! O Corno sou eu! - berrava um mais pequeno que não conseguia chegar-se à frente.
Os miúdos iam adoptando nomes todos os dias, mas o nome que fazia mais sucesso, era o Cebola.
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Mensagem por Anarca em Qua Fev 04, 2009 12:12 pm

Finalmente, Manuel levou-o ao “treme-treme”. Pedro sentiu a atmosfera excitante provocada pelas luzes vermelhas e pelos corpos disponíveis.
Não tinha o hábito de frequentar aquelas casas, e ficou aliviado por sentir que não perdia nada...
Enquanto umas tentavam mostrar sensualidade, outras ouviam rádio ou liam revistas.
Manuel tinha-lhe preparado uma surpresa, na pessoa de uma mulata novinha, com uns seios e umas nádegas, que por momentos, conseguiram fazer Pedro vacilar.
- Manuel, tu és mesmo maluco... Não consigo...
- Depois não te arrependas...
Antes de sair conheceram a Maria Batalhão, que sempre vivera da prostituição e que não conseguia ter prazer com ninguém....
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 3:16 am

Ninguém podia convencê-lo de que não havia ali mão do Matacão...
Pedro tinha sido colocado no destacamento do Cuango, o mais remoto da Terceira Companhia do Batalhão 4511.
O aquartelamento estava a cerca de duzentos metros do rio Cuango que marcava a fronteira com a República do Zaire.
A paisagem era fabulosa, com o rio a correr ao fundo do planalto onde ficava a povoação do Cuango.
Conseguia ver a margem em frente onde se distinguiam as instalações de uma Missão Protestante, e, mais à direita, as coberturas metálicas de uma base terrorista...
A vida era monótona, e, em pouco tempo já conhecia todos os comerciantes do Cuango, o Chefe do Posto e o enfermeiro civil com quem tinha simpatizado mal o conhecera.
Às sextas-feiras chegava o pardal do Negage - uma avioneta que vinha da base aérea mais próxima - com alguns abastecimentos, e com a correspondência que era o bem mais precioso.
Tinha sempre vários aerogramas da Luísa, que o ajudavam a passar esse dia...
Finalmente, recebeu as notícias que aguardava. Um comerciante de passagem pelo Cuango trazia-lhe uma carta de Luísa. Esperava-o ansiosa em Argel e pedia-lhe para confiar na pessoa que o ia contactar. Os pais tinham tratado de tudo.
Devia aproveitar uma licença - que lhe daria uns dias de avanço - para descer o rio Cuango até uma sanzala perto da fazenda de café dos pais da Luísa.
Daí passaria a fronteira em segurança...
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 4:32 am

Pedro ia caminhando por entre as ruínas de uma sanzala que tinha sofrido um Golpe de mão dos comandos, por alegadamente ser uma base de guerrilheiros...
O heliassalto espalhara uma brutal devastação com muitos corpos mutilados e carbonizados no meio dos destroços, com um odor fétido de morte a emanar dos cadáveres inchados.
À tropa macaca competia agora limpar o teatro das operações...
Ali estava ele, alguns dias depois do ataque, observando a destruição total de uma aldeia que deixara de existir.
Chegou a imaginar que apenas estava a viver um terrível pesadelo, que se esfumaria ao acordar, mas o forte cheiro da putrefacção chamava-o à realidade.
O filho do soba, que estivera ausente na mata, sozinho durante vários dias cumprindo o ritual que o transformaria num homem, assistia, escondido, à última profanação dos amigos e familiares.
O enfermeiro, que ia passando pelos cadáveres apenas para ocupar tempo, ouviu um gemido agonizante próximo e localizou um negro ainda consciente entre os destroços.
Nem queria acreditar...
O infeliz não tinha uma das pernas e o sangue cobria-lhe todo o corpo. Estava a morrer há dois longos dias...
Quando se preparava para lhe dar de beber, o filho do soba disparou a arma de caça. Acertou-lhe mesmo na cabeça, que se espalhou por cima do moribundo...
Pedro contemplava uma imensa poça de sangue e miolos.
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 7:03 am

O Grupo de Combate passara pelo Aquartelamento em busca de ajuda, para procurar um elemento que se tinha perdido no mato durante uma Operação.
Pedro não sabia se os tinha acompanhado por solidariedade, ou apenas para quebrar aquela monotonia sufocante.
A noite estava fria e as nuvens cobriam as estrelas.
Perdido na floresta, um maçarico estava perdido, vageando sozinho pelo mato. O Furriel dizia que ele estava ferido, mas sem gravidade.
O maçarico perdera o contacto com o Grupo de Combate durante uma emboscada que tinham sofrido...
Nunca mais o tinham visto...
Pedro imaginava-o naquela solidão, com frio e cansado, aterrorizado pela escuridão que aumentava todos os medos.
Caminhavam havia muito tempo, quando ouviram uma voz rouca e fraca que ecoava como um lamento grotesco de uma legião de criaturas agonizantes e desesperadas.
O maçarico, alheado de todo o mundo, embalava o cadáver de um terrorista que tinha abatido.
Para ele, a guerra tinha acabado...
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 8:14 am

Quando chegou o dia, o comerciante passou pela povoação para o levar...
Tinha feito constar que ia para Malanje e Pedro aproveitava a boleia...
A viagem foi rápida. De repente ao fim de uma picada que aparentava pouco uso, avistou as águas do rio Cuango. Numa clareira, debaixo de uma árvore gigantesca cujos ramos mais baixos roçavam a água, estava o Mestiço Cuango, que dava a última arrumação nos vários fardos envoltos em plástico verde, que estavam amarrados dentro do pequeno barco de alumínio.
Ninguém sabia a idade nem as origens do Mestiço Cuango, que diziam ser filho do rio...
Apesar da idade evidente, conservava um estranho vigor naquele corpo magro e rijo. Como Pedro iria constatar, os seus movimentos eram ágeis, conseguia ver muito longe e percebia todos os ruídos do mato.
O Mestiço Cuango não gostava dos brancos, mas o pai da Luísa era um branco com coração de negro e ele não lhe podia dizer que não...
Falava fluentemente os vários dialetos das tribos da região e era querido e respeitado por todos em ambas as margens, mas vivia sozinho...
O fardo com arroz, sal, latas de óleo, café, farinha e algumas latas de frutas em conserva, estavam em ordem.
Pedro sentou-se em cima dos dois galões plásticos com 20 litros de gasolina cada um, que iriam alimentar o pequeno motor de 10 Cv.
O rio Cuango era gigantesco e impressionante...
Quando pensou que Luísa gostaria de estar ali, os olhos encheram-se de lágrimas...
Limpava com as costas da mão uma lágrima que havia rolado pela face, quando reparou que o Mestiço Cuango o olhava curioso.
Desceram o rio durante várias horas sempre junto da margem direita. O ruído do motor era uniforme e provocava-lhe uma sonolência que só era agitada quando algum tronco flutuante, que descia o rio, se aproximava mais do barco.
Uma canoa carregada com cabaças de vinho de palmeira, que também navegava rio abaixo, ficou para trás rapidamente.
As águas eram de um tom verde claro magnífico e transparentes, deixando em alguns pontos ver a areia branca do fundo e peixes que passavam.
Um bando de urubus com os seus gritos agudos e vibrantes quebraram o silêncio. O bater das asas e o voo assustado chamou a atenção do Mestiço Cuango.
Na margem, num charco, o corpo de um antílope jazia com metade do corpo mergulhado na água. Os urubus comiam-lhe as pernas, quando o barulho do motor os fez levantar vôo, assustados.
A paisagem era soberba. Árvores gigantes cresciam nas duas margens e trepadeiras floridas pendiam dos galhos. Por vezes, um peixe assustado pelo movimento do barco e o ruído do motor, saltava à tona da água.
Com o entardecer, o Mestiço Cuango aproximou-se da margem esquerda, onde iriam acampar e passar a noite.
A paisagem continuava a deslizar ante os seus olhos. O rio, a selva e o azul intenso do céu dominava a paisagem sem vestígios de seres humanos.
Finalmente, diminuiu a velocidade, encostou o barco na margem e amarrou-o numa das raízes que rompiam a areia fina.
Pedro tentava ajudar na montagem do acampamento, mas sentia-se um empecilho...
Num ápice o Mestiço Cuango tinha armado a pequena barraca sobre a areia branca do solo e espalhado em volta pequenas pedras de acetileno que tinha cuidadosamente embrulhadas em plástico.
Só mais tarde explicou que aquele cheiro afastava as cobras, aranhas, escorpiões, e toda a bicharada peçonhenta...
Ele não precisava, mas os brancos...
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Mensagem por Vitor mango em Qui Fev 05, 2009 8:19 am

Gnda pedalado mano anarca
Esta a dominar bem o tema

Só que eu quero ve-lo quando o Furriel vier dar umas kekas a Luanda descrever o tema
aí é que a porca torce o rabo
Descrever a keka do lado ( do outro lado
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Mensagem por Viriato em Qui Fev 05, 2009 8:42 am

Anarca escreveu:(...) O maçarico, alheado de todo o mundo, embalava o cadáver de um terrorista que tinha abatido.
Para ele, a guerra tinha acabado...

De toda essa série que o anarca tem vindo a publicar, esse bocadinho foi o que mais me impressionou. Acompanhei (vivi) de perto com um caso semelhante, mas não tenho o dom do anarca para o descrever como o caso merecia. Nesse caso a que me refiro, o soldado, após ter morto um inimigo em legítima defesa, atirou a arma para o chão e recusou-se, até ser evacuado a pegar nela. Tentaram tudo. Violência física, ameaças, prisão e ele só chorava e mantinha as mãos firmemente agaradas uma á outra atrás das costas. Para ele também a guerra tinha acabado. Mas mais grave. A vida normal também acabou. Em 1975 fui sua testemunha de um processo em que pretendia uma pensão por inadequação á vida civil. Durou vários anos. Quando o processo se aproximava do fim, matou-se. Enforcou-se.
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Mensagem por Vitor mango em Qui Fev 05, 2009 8:54 am

Viriato escreveu:
Anarca escreveu:(...) O maçarico, alheado de todo o mundo, embalava o cadáver de um terrorista que tinha abatido.
Para ele, a guerra tinha acabado...

De toda essa série que o anarca tem vindo a publicar, esse bocadinho foi o que mais me impressionou. Acompanhei (vivi) de perto com um caso semelhante, mas não tenho o dom do anarca para o descrever como o caso merecia. Nesse caso a que me refiro, o soldado, após ter morto um inimigo em legítima defesa, atirou a arma para o chão e recusou-se, até ser evacuado a pegar nela. Tentaram tudo. Violência física, ameaças, prisão e ele só chorava e mantinha as mãos firmemente agaradas uma á outra atrás das costas. Para ele também a guerra tinha acabado. Mas mais grave. A vida normal também acabou. Em 1975 fui sua testemunha de um processo em que pretendia uma pensão por inadequação á vida civil. Durou vários anos. Quando o processo se aproximava do fim, matou-se. Enforcou-se.

Tive na familia um caso parecido ...só que quando começou a dar cabeçadas na parede levamo-lo ao medico e fiquei a saber varias coisas que desconhecia ...e com remedio a COISA estabelizou
E
lembro-me de uma descriçao dos soldados americanos no vietname que me persegue na moina pela positiva conflituosa
Na agonia da morte os soldados chamavam pela mãe


Mais
O Presidente Joahson que recebeu o petisco da gujerra do Vietname era varrido por autentica tortura de complexo de culpa
Por isso e só por isso tenho berrado aqui no vagueando que me situa muito acima do tema religioso e me dedico a ver o SER Humano na sua plenitude
- COMO meu irmao
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 8:56 am

Quando, finalmente, conseguiu adormecer, Pedro sonhou que tinha regressado ao Rio Nilo...
O cruzeiro de Luxor a Assuão que fizera com os pais em pequeno, repetia agora com Luísa...
Pelas janelas do salão, contemplava as margens onde os bois e os burros se banhavam com as crianças em alegres brincadeiras...
A margem esquerda do rio - o lado da morte, onde o sol se punha - não deixava de ser bela...
Mas os terroristas estavam por todo o Vale dos Reis, mesmo no fundo dos corredores que iam dar às câmaras funerárias.
Durante o passeio de Faluca - embarcação à vela típica do Nilo - com a Luísa, mostrava-lhe o local na margem de onde partiam os camelos que os Núbios alugavam para passeios ao longo do Nilo...
Acordou e viu que estava na margem esquerda do rio Cuango.
No Egipto seria o lado da morte...
Por coincidência, ambos os rios corriam de Sul para Norte...

O dia decorrera sem sobressaltos de maior, com poucas palavras do Mestiço Cuango que parecia mesmo não gostar de brancos...
Quando Pedro recolhia algumas pedras na beira do rio para preparar a fogueira, um ruído vindo de dentro da mata fez com que se imobilizasse.
- Porcos do mato! - disse o Mestiço Cuango para o sossegar, enquanto
agarrava na espingarda e se encaminhava em direcção ao barulho, evitando pisar ramos ou montes de folhas secas.
Entrou no mato com todo cuidado, para não ser pressentido, pois sabia bem o estrago que aquelas terríveis presas podiam fazer, tanto em homens como nos cães.
Subiu silenciosamente para uma árvore e esperou de arma pronta.
Os porcos vinham descendo lentamente para beber água no rio, na direcção onde ele se encontrava, com os focinhos as escavar o solo, à procura de alimentos.
O chefe do grupo era enorme ...
O Mestiço Cuango apontou cuidadosamente para um dos leitões.
O disparo ecoou forte pela selva, provocando uma debandada dos pássaros. Os porcos desapareceram de imediato deixando ficar no chão, sacudido por breves estertores, o corpo do leitão cujo sangue espesso ia molhando o solo.
O leitão, atravessado por uma vara, estava apoiado em duas forquilhas enfiadas no chão. Por baixo, um braseiro assava lentamente a carne.
O Mestiço Cuango estava alegre...
Era a primeira vez que Pedro o via sorrir...
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 9:37 am

O Mestiço Cuango foi recebido com alegria pelo soba da sanzala, onde Pedro deveria aguardar pelo guia com o qual continuaria não sabia bem para onde.
Pequenos grupos de guerrilha passavam amiúde para recolher alguns víveres, parecendo não lhe dar muita importância.
Via pessoas normais que iam combater com outros homens que, tal como eles, só queriam voltar para casa em paz.
- Para onde vão ?... - perguntou, enquanto comia, ao soba que se encontrava sempre rodeado dos mais velhos e dos miúdos.
- Eu não sabe nada... - respondeu desconfiado.
- Está bom ... - o apetite não era muito. - É galinha não é ?
- Filho de galinha ... - respondeu o soba contente por mudar de assunto.
A sanzala era composta de cerca de uma vintena de cubatas, todas semelhantes, servindo umas para dormir, e outras para cozinha ou para a secagem de produtos agrícolas.
Na orla da sanzala, em plataformas de madeira com cerca de um metro de altura secavam mandiocas - que exalavam um cheiro pestilento quando o vento soprava daquele lado.
O guia só vinha no dia seguinte, o que o obrigava a passar ali a noite. A cubata tinha o chão de terra batida e uma esteira onde se deitou.
Antes do soba sair, Pedro deixou sair a pergunta que o atormentava.
- Soba, porque lutam vocês ?...
- O branco sabe...
- Eu...
- Um dia a tropa chegou e matou ...
- Porquê ?...
- Nós não sabe...
Pedro não lhe disse que também não sabia.

O tempo parecia ter parado. Pedro esperava ansioso pelo guia que o acompanharia na passagem da fronteira.
Não pensava no que ia deixar para trás...
Tinha vivido aquele momento com Luísa tantas vezes que quase lhe parecia mais uma repetição.
Tantas coisas para fazer...
Quantas viagens sonhadas iriam agora ser possíveis, sem ser necessário a autorização da Pide, que proibia as saídas de Portugal dos jovens com mais de dezoito anos.
Apenas conhecia o Mundo através de leituras ou relatadas por aqueles que tinham a felicidade de poder viajar.
Tantas coisas ainda para fazer e o guia sem chegar...
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Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 10:22 am

VII - A Paz

O Alferes tinha convocado os Furriéis para uma reunião urgente.
- Vamos alinhar numa operação conjunta de grande envergadura na zona da fronteira por onde costumam infiltrar-se grupos terroristas.
- Quando é ? - o Furriel Carraça parecia entusiasmado.
- Amanhã! O nosso grupo vai ser largado neste ponto - apontava um local no mapa - e seremos recolhidos dentro de quatro dias no ponto de recolha.
O transporte seria efectuado por helicópteros , devendo toda a gente estar preparada logo de manhã, com o armamento do costume, quatro caixas de rações de combate, pastilhas desinfectantes para esterilização da água, e cobertor.
Manuel preparou o equipamento e ocupou o resto da tarde a escrever um longo Aerograma à Lurdes, o que acabou por lhe aumentar as saudades que vinha sentindo cada vez mais...

Tinha sido iniciada a grande operação na fronteira, em plena zona de infiltração terrorista.
Os helicópteros AS 330-Puma eram aparelhos bimotores de grandes dimensões que podiam transportar duas secções de combate.
A sua elevada autonomia e a capacidade para voar de noite, tornava-os um meio muito utilizado nas missões de intercepção dos guerrilheiros vindos das fronteiras do Congo e da Zâmbia.
Era a primeira vez que Manuel ia andar de helicóptero. Estava excitado e impaciente, tal como o restante pessoal.
Quando levaram com a enorme nuvem de poeira que se elevou quando o aparelho estacionou no campo de futebol, acalmaram um pouco.
Já instalados, sentados lateralmente de costas voltadas para as janelas e com as armas e bagagens no meio, o Alferes aproveitou, enquanto as hélices ainda trabalhavam lentamente, para dar as últimas instruções.
- Vamos saltar numa zona elevada, sem árvores e que apresenta alguma dificuldade de acesso, para evitar ataques dos turras durante o desembarque, por isso, quando eu mandar saltar, salta tudo !...
O desembarque ocorreu sem problemas, e prepararam-se para a aproximação final que seria feita a pé e em silêncio, para surpreender o inimigo.

Se os terroristas tinham no barulho dos helicópteros um grande aliado, a Mandioca - que era transformada num pó fino para as fubadas - contituía uma grande ajuda para a tropa portuguesa.
A mandioca - um tubérculo - era previamente seca em plataformas de madeira, colocadas na orla da sanzala. O forte odor que se libertava durante a secagem desta planta, permitia detectar a grande distância a existência das sanzalas.
Eram oito e meia e já o sol abrasava a floresta.
Hordas de moscas e mosquitos, que o repelente não conseguia evitar pousavam na cara e nas mãos procurando infiltrar-se pelas mangas e pescoço, numa zumbideira irritante.
O capitão tinha acabado de mandar distribuir os Grupos de Combate pela área envolvente para segurança da zona, quando um disparo com origem na sanzala, despedaçou a face do Operador de transmissões.
A reacção foi imediata, com as G-3 e Bazookas a despejar fogo e morte.
Uma cubata semi-destruída teima em não arder. Manuel atira-lhe para dentro uma granada, e depois da explosão entra pronto a disparar...
Numa esteira chamuscada, reconhece o corpo decepado de Pedro...
- Não sabia... - o choque deixou-o vazio.
- Eu sei...
- Vais ser evacuado! - gritava sem conseguir evitar as lágrimas.
- Para quê ?... - as palavras saíam com golfadas de sangue. - Não quero viver assim...
- Não sabia que estavas aqui ...
- Deixa lá ... - conseguiu dizer antes da cabeça tombar inerte.
Manuel agarrou numa granada defensiva e ficou a observar a cavilha a saltar no chão enquanto pensava numa razão para viver...

A Operação tinha sido um êxito. Foram mortos 3 guerrilheiros e capturados dois RPG-2 e 8 espingardas de vários tipos.
O relatório diário do Comandante da zona referia uma baixa por acidente de viação.
Na madrugada seguinte seria transmitida pela rádio, para todo o país, a canção “Grândola,Vila Morena”.





FIM
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Mensagem por Viriato em Qui Fev 05, 2009 11:46 am

Fico sem palavras para lhe agradecer, comovido, toda essa sequência de episódios que os então jovens da minha geração, viveram e que me habituei a acompanhar diáriamente.

Obrigado, caro anarca.
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QUADROS ANTIGOS.... - Página 7 Empty Re: QUADROS ANTIGOS....

Mensagem por Anarca em Qui Fev 05, 2009 12:07 pm

Na verdade, estes acontecimentos parecem estranhos, mas foram a nossa vida...

Foram escritos há mais de 30 anos, e quando os leio, parece que volto a viver esses tempos...
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QUADROS ANTIGOS.... - Página 7 Empty Re: QUADROS ANTIGOS....

Mensagem por Admin em Qua Fev 11, 2009 1:32 pm


caros amigos que nao conheciam ou nao conhecem Estes contos em quadros
.
Para os mais novatos ou visitantes aconselho-os a começar no numero 1...
basta carregar no quadrinho com o nº um ...
e nada de panico
Pode-se ler quadro a quadro independentemente ...numa linguagem fluente e interessante
e nada melhor que os visitantes trazerem para aqui os quadros que mais gostarem e comenta-lo
basta fazer quote e escrevinhar por baixo ...
assim tornamos vivo uma obra de arte no nosso vagueando
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